Brandi Chastain tirou a camisa para comemorar o pênalti que deu aos Estados Unidos o título do Mundial feminino de 1999, decidido nos pênaltis contra a China na final disputada em casa, segundo o Goal.com. A imagem de Brandi Chastain de joelhos, em top esportivo, com as companheiras correndo do meio de campo para comemorar, ocupou capas de jornais e revistas, entre elas a Sports Illustrated, e segue como a mais marcante da história do futebol feminino.
Quando o comitê organizador dos Estados Unidos falou com a FIFA sobre as sedes do Mundial de 1999, as ideias divergiam. A FIFA queria estádios menores, todos no nordeste do país, para reduzir o custo de deslocamento. O comitê defendia algo mais ambicioso, e a FIFA disse não, segundo relatou Alan Rothenberg, então dirigente da U.S. Soccer que supervisionou o comitê, ao livro The National Team, de Caitlin Murray.
A posição da FIFA mudou depois dos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, quando 76.489 pessoas viram os Estados Unidos vencerem a China por 2 a 1 e conquistarem o primeiro ouro olímpico do futebol feminino, em jogo que nem chegou a ser exibido na televisão. Na mesma época, Michelle Akers se tornou a primeira mulher a assinar um contrato de patrocínio no futebol, com a Umbro, enquanto Mia Hamm se transformava em uma das maiores estrelas comerciais da seleção, com anúncios ao lado de Michael Jordan.
Mesmo assim, dois amistosos de preparação reuniram só 6.767 e 10.452 espectadores, e o comitê organizador manteve planos alternativos, com shows e decoração, para o caso de a venda de ingressos não ir bem. Não precisou: o primeiro jogo do torneio, no Giants Stadium, teve 78.972 pessoas nas arquibancadas para ver os Estados Unidos golearem a Dinamarca por 3 a 0, com gols de Mia Hamm, Julie Foudy e Kristine Lilly. A seleção seguiu goleando na fase de grupos, 7 a 1 sobre a Nigéria e 3 a 0 sobre a Coreia do Norte, com 18 gols marcados e só três sofridos em cinco jogos até a final. Nas quartas, precisou buscar o resultado duas vezes para vencer a Alemanha, campeã europeia, por 3 a 2, em jogo que o então presidente Bill Clinton acompanhou e comemorou o gol da vitória, marcado por Joy Fawcett aos 66 minutos. Na semifinal, venceu o Brasil por 2 a 0, com atuação decisiva da goleira Brianna Scurry, em 4 de julho, data da independência do país.
A outra semifinal terminou com a China goleando por 5 a 0 a Noruega, detentora do título mundial. Até ali, a Noruega vinha sendo a principal rival dos Estados Unidos, mas a China se tornava uma grande adversária, o que deixou a final em aberto. Antes da decisão, Brasil e Noruega disputaram o terceiro lugar no mesmo estádio: o jogo terminou 0 a 0 e, por exigência da programação de televisão, foi direto para os pênaltis, sem prorrogação. O Brasil venceu por 5 a 4.
A final em si foi fechada, sem gols em 90 minutos. Mais de 90 mil pessoas acompanharam o jogo e estabeleceram um recorde mundial de público em uma partida oficial de futebol feminino que duraria 23 anos. Na prorrogação, Michelle Akers precisou deixar o campo de maca, com uma concussão, e, pouco depois, só um corte de Kristine Lilly em cima da linha evitou o gol de ouro da China.
Foi para os pênaltis. Os quatro primeiros cobradores de cada lado não erraram, até Brianna Scurry pegar a cobrança da chinesa Liu Ying. Lilly e Hamm converteram pelos Estados Unidos, assim como Zhang Ouying e Sun Wen pela China, até chegar a vez de Brandi Chastain, que sabia que, se marcasse, a seleção seria campeã. Destra, mas boa com as duas pernas, Chastain cobrou com a esquerda a pedido do técnico Tony DiCicco, que considerava os chutes dela mais precisos e imprevisíveis com aquele pé. Ela bateu no canto certo e superou Gao Hong, que se lançou para o lado certo e não alcançou a bola.
Depois de marcar, Chastain tirou a camisa e caiu de joelhos, em top esportivo, de pura alegria, enquanto as companheiras corriam do meio de campo para comemorar com ela. A imagem ocupou capas de jornais e revistas, entre elas a Sports Illustrated, durante as celebrações pelo título, e segue sendo a mais emblemática da história do futebol feminino. “Naquele momento, não dei importância nenhuma a isso”, disse Chastain ao jornal The Guardian, sobre o instante que se tornaria símbolo.
Os Estados Unidos levaram 16 anos para voltar a vencer um Mundial, o que aconteceu só em 2015, com um 5 a 2 sobre o Japão na final, com um time quase todo inspirado nas jogadoras de 1999. A final daquele ano chegou a 40 milhões de espectadores na televisão americana, um pico que nenhum jogo de futebol superou até o Mundial masculino, cerca de 15 anos depois. Segundo a National Federation of State High School Associations, o número de garotas jogando futebol nas escolas dos Estados Unidos cresceu 45% depois de 1999. “O Mundial feminino de 1999 mudou minha vida”, disse [Carli Lloyd](/atleta/carli-lloyd) à Boardroom. “Me deu confiança, me permitiu sonhar grande e me motivou a dizer que era possível.” O hat-trick de Lloyd na final de 2015, incluindo um gol marcado do meio de campo, segue uma linha direta até o Rose Bowl e a comemoração de Chastain.
Foi a comemoração espontânea do pênalti que deu aos Estados Unidos o título do Mundial de 1999, contra a China. Ela mesma disse que, no momento, não pensou no gesto.
Mais de 90 mil, no Rose Bowl, um recorde mundial de público numa partida oficial de futebol feminino que durou 23 anos.
O número de garotas jogando futebol nas escolas dos Estados Unidos cresceu 45% depois de 1999, e a geração de [Carli Lloyd](/atleta/carli-lloyd) que venceu o Mundial de 2015 cresceu inspirada pelas jogadoras daquela final.