Redação GINGA36

Carlinha e Tayla Carolina ligam eleição ao futuro do futebol

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A atleta Tayla.
CBF / Divulgação

As jogadoras Carlinha e Tayla Carolina, companheiras de clube e da seleção do Brasil, ligam o resultado da eleição presidencial ao futuro do futebol feminino brasileiro, segundo reportagem do Guardian publicada em 20 de outubro de 2026, às vésperas do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

Com a Copa do Mundo Feminina 2027 marcada para o Brasil, as duas avaliam que o voto terá impacto grande sobre a modalidade.

O que Carlinha disse depois da final?

Na véspera do primeiro turno, o Estádio do Morumbi, em São Paulo, recebeu o jogo de volta da final do Brasileirão Feminino. O São Paulo empatou por 1 a 1 com o Corinthians e ficou com o título, com 3 a 2 no placar agregado.

Na entrevista depois do jogo, vista por uma audiência recorde de 23 milhões de pessoas na TV, a goleira Carlinha gritou contra a volta de Jair Bolsonaro ao poder. Ela perdeu a avó na pandemia de Covid-19, período em que, segundo o Guardian, o então presidente espalhou informações falsas sobre o vírus e ignorou apelos para que o governo comprasse e distribuísse vacinas. Mais de 700 mil brasileiros morreram na pandemia.

Estudante de jornalismo, Carlinha contou ao jornal que pensa na avó todos os dias e que se sentiu aliviada por dar a opinião num momento importante da democracia brasileira. Na data da reportagem, Jair Bolsonaro estava em prisão domiciliar humanitária, cumprindo pena de 27 anos por tentativa de golpe. O filho dele, Flávio, disputava a Presidência com Lula, de 80 anos.

Por que o relato de Tayla Carolina viralizou?

Tayla Carolina viralizou nas redes ao escrever sobre a família e sobre a importância das políticas públicas dos governos Lula para a mãe e a avó, que trabalharam a vida inteira como faxineiras e já morreram. A jogadora se descreveu como uma mulher negra de família muito humilde, que estudou em escola pública e usou o sistema público de saúde.

A mãe, dona Dora, trabalhou por mais de uma década para alguém que nunca pagou os direitos trabalhistas dela, e trabalhou até não conseguir mais andar, por causa do câncer que a matou. Segundo Tayla, a mãe nunca a viu jogar, porque nunca teve tempo.

Ao Guardian, a jogadora disse que vem de um país em que a maioria das pessoas é pobre e a desigualdade continua grande. Como figura pública que viveu a vida da maioria dos brasileiros, ela sente a responsabilidade de se posicionar.

O que está em jogo para a Copa de 2027?

“Ainda precisamos de incentivo do governo, então pode não ser imediato, mas o futebol vai ser afetado, positiva ou negativamente, dependendo de como forem as eleições”, disse Tayla.

Em junho de 2026, Lula sancionou a lei da Copa do Mundo, que define como ministérios, CBF, federações estaduais e clubes se comprometem com um legado para o futebol feminino no país. O plano de legado tem quatro eixos: acesso e permanência de meninas e mulheres no futebol, desenvolvimento e profissionalização da modalidade, combate à discriminação de gênero e de raça e valorização econômica e cultural do futebol feminino. O compromisso com o torneio consta do plano de governo de Lula.

As propostas da candidatura Bolsonaro para o esporte feminino não citam a Copa. Elas defendem garantir que as categorias femininas, da base à elite, sejam disputadas por atletas do sexo feminino, protegendo mulheres e torneios do que chamam de agendas ideológicas.

O cenário das atletas pesa na conta. A Fifpro, entidade que representa as jogadoras e os jogadores profissionais, divulgou estudo com 800 atletas em que quase metade das jogadoras diz pensar em se aposentar cedo por causa da pressão psicológica e financeira.

O que dizem a historiadora e a filha de Pelé?

A historiadora Aira Bonfim lembra que há registro de mulheres jogando futebol no Brasil desde 1915 e que a modalidade foi proibida entre 1941 e 1979. Para ela, o risco desta eleição é desperdiçar o investimento humano nos planos de legado e desmontar o trabalho feito por ministérios, cidades e governos estaduais em torno da Copa. Bonfim cita que o governo de Jair Bolsonaro tirou do esporte o status de ministério.

Uma das histórias que ela pesquisou virou o curta The House of Dona Carlota, dirigido por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, que estreou em outubro de 2026 no Festival do Rio. O filme conta a história de uma mulher presa e perseguida por comandar um time feminino, o Primavera Atlético Clube, no fim dos anos 1930 e começo dos 1940, durante o Estado Novo.

Kely Nascimento, filha de Pelé e fundadora e diretora executiva da Fundação Nascimento, disse ao jornal que as atletas não têm a proteção da riqueza e vêm, na maioria, de comunidades e favelas que serão muito afetadas pela eleição. Segundo o Guardian, o resultado tende a pesar mais no futebol das mulheres do que no dos homens.

Nos dois amistosos recentes da seleção contra a Argentina, em Porto Alegre e no Recife, a torcida cantou principalmente em apoio a Lula. Carlinha jogou uma das partidas.

O que muda

Para a seleção que vai disputar a Copa do Mundo de 2027 em casa, as urnas decidem quem conduz, no governo federal, o plano de legado previsto na lei da Copa. Para jogadoras como Carlinha e Tayla Carolina, a eleição virou assunto de campo: as duas usaram a visibilidade da final e das redes para dizer que o futuro da modalidade depende dela.

Para entender

O que Carlinha disse depois da final do Brasileirão Feminino?

Na entrevista depois do jogo, vista por 23 milhões de pessoas na TV, a goleira gritou contra a volta de Jair Bolsonaro ao poder.

O que a lei da Copa prevê para o futebol feminino?

Um plano de legado em quatro eixos, com compromissos de ministérios, CBF, federações estaduais e clubes.

Por que a eleição pesa mais no futebol feminino?

Segundo o Guardian, o resultado tende a afetar mais o jogo das mulheres. Kely Nascimento lembra que as jogadoras não têm a proteção da riqueza.

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