O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou baixo investimento federal no futebol feminino, falta de um plano nacional de legado e atraso na governança da Copa do Mundo Feminina 2027, como informou O Fator em 25 de março de 2026. O Plenário aprovou o acórdão em 11 de março.
Segundo a auditoria, a rubrica criada especificamente para o torneio, marcado para 24 de junho a 25 de julho de 2027, teve previsão de R$ 1 milhão em 2025. O valor não havia sido executado até a fiscalização do tribunal, em setembro, por causa de bloqueio orçamentário.
Para 2026, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) reservou R$ 2,5 milhões para a mesma finalidade. O TCU considerou os valores modestos para um evento desse porte e registrou que o Ministério do Esporte apresentou versões diferentes sobre o destino da verba.
Uma rubrica mais ampla do ministério, voltada à promoção do futebol masculino e feminino e à defesa dos direitos do torcedor, teve previsão de R$ 48,5 milhões em 2025. Segundo o tribunal, o código reúne finalidades distintas e não permite saber quanto foi destinado à participação das mulheres no esporte.
A principal fragilidade apontada pela auditoria foi a distância entre o discurso oficial sobre legado e o volume de recursos reservado para a modalidade. “Não há um orçamento reservado à transformação social almejada pela Copa de 2027”, afirmou o relator, ministro Jhonatan de Jesus, no acórdão.
O tribunal viu risco de concentração de recursos no custeio do evento, com pouco espaço para ações permanentes de legado social e esportivo.
O relator também tratou das barreiras no futebol brasileiro. Ele mencionou a entrevista em que um jogador profissional questionou de forma sexista a competência da arbitragem feminina no Campeonato Paulista e defendeu, diante dos casos recorrentes de racismo e injúria racial nos estádios, protocolos que integrem inteligência, segurança pública e ações educativas.
Belo Horizonte, uma das oito cidades-sede, vai receber oito partidas do torneio. O TCU citou a capital mineira não por obras, mas pela estrutura já em funcionamento no Mineirão para acolher vítimas e responder a casos de assédio, discriminação e racismo em dias de jogo.
Na visita técnica, os auditores conheceram a Casa Lilian, do Ministério Público de Minas Gerais, que presta atendimento especializado a vítimas de violência sexual, crimes contra a vida, racismo e outros crimes de ódio. Conheceram também a Sala Lilás, instalada no estádio em parceria com a Minas Arena, espaço de acolhimento para mulheres durante as partidas. Para o tribunal, a experiência pode servir de modelo para outras sedes.
O alerta é que esse tipo de resposta depende de integração mais clara entre União, estados e municípios. Segundo a auditoria, os protocolos da FIFA não resolvem sozinhos o que ocorre nas arquibancadas, em áreas externas ou no entorno dos estádios, o que exige atuação coordenada da segurança pública, do sistema de Justiça e da rede local de acolhimento.
O Brasil foi escolhido pela FIFA como sede em maio de 2024, mas a estrutura de coordenação só foi formalizada em setembro de 2025, com a criação do Comitê Gestor da Copa do Mundo Feminina de Futebol 2027 (CGCopa 2027) e do Grupo Executivo da Copa do Mundo Feminina de Futebol 2027 (Gecopa 2027).
O acórdão registrou que medidas consideradas essenciais avançavam de forma tardia, entre elas a Lei Geral da Copa. A legislação do Mundial masculino de 2014 foi publicada mais de dois anos antes do evento. No caso da edição feminina, o projeto não havia sido enviado ao Congresso durante a fiscalização.
O Plenário determinou que o Ministério do Esporte apresentasse, em até 180 dias, um Plano Nacional de Legado da Copa do Mundo Feminina de 2027.
A pasta também ficou encarregada de comunicar com antecedência as reuniões do CGCopa 2027, do Gecopa 2027 e de eventuais câmaras técnicas, para que o TCU avaliasse participar como observador.
A Corte autorizou a abertura de um processo específico de acompanhamento, o que colocou a preparação da Copa sob monitoramento contínuo. Para a torcedora, a decisão de março deixou registrado que o legado do torneio depende de orçamento e de um plano com prazo, e não só do discurso oficial.
A rubrica do torneio teve R$ 1 milhão previsto em 2025, sem execução até a fiscalização de setembro, e R$ 2,5 milhões no PLOA de 2026.
Um Plano Nacional de Legado em até 180 dias e o aviso antecipado das reuniões do comitê gestor, do grupo executivo e de eventuais câmaras técnicas.
Pela estrutura de acolhimento a vítimas que já funcionava no Mineirão, com a Casa Lilian e a Sala Lilás.