
Dois anos e cinco dias depois de ser eliminada nas quartas de final em casa, a Colômbia viveu sua redenção tardia – em todos os sentidos – na Copa do Mundo Feminina Sub-20 da FIFA Polônia 2026™ neste domingo (20), em Lodz, ao superar a Nigéria por 1 a 0 nos minutos finais. Em 2024, a queda diante da Holanda na disputa por pênaltis nesta mesma fase do torneio deixou dores que viraram cicatrizes para o treinador Carlos Paniagua e suas jogadoras, e hoje essas marcas foram sentidas em arrepios na pele colombiana.
As cicatrizes podem não ser literais, mas os arrepios foram. Enquanto conversava com a FIFA depois da classificação, Paniagua tentou explicar o significado daquela tarde e, no meio da resposta, precisou interromper o raciocínio para descrever a própria reação.
“Estou falando agora e fico arrepiado. Dá um calafrio”, disse ele enquanto apontava para os próprios braços cobertos pelo agasalho da Colômbia. O que causou aquela reação nele foram os milhares de torcedores colombianos que haviam acabado de transformar um domingo chuvoso e gelado na cidade de Lodz em uma pequena extensão de casa.
Poucos minutos antes, a emoção havia sido ainda mais difícil de conter.
Aos 47 minutos do segundo tempo, a partida seguia empatada sem gols e com uma prorrogação a caminho. Carlos Paniagua temia que o cenário de 2024 se repetisse, mas Valerin Loboa encontrou o gol dramático que a Colômbia procurava. Houve a explosão inicial, depois a espera pela revisão do VAR e, enfim, uma segunda comemoração.
“O coração estava a mil”, admitiu Paniagua. O treinador já havia celebrado quando percebeu que ainda precisava aguardar. “Quando confirmaram o gol, faltavam pouquíssimos minutos e sabíamos que tínhamos o jogo nas nossas mãos.”
A heroína da vez, Valerin Loboa, também demorou um pouco para assimilar que tinha acabado de manter sua equipe viva no Mundial, mas fez questão de dividir o protagonismo. “Estou muito feliz, de verdade. É um gol muito especial, mas se qualquer uma tivesse feito o gol para vencermos, eu estaria tão feliz quanto estou agora. Esses jogos são definidos nos detalhes. Mantivemos a fé de que o nosso gol chegaria.”
A goleira Luisa Agudelo passou por ela durante a entrevista e lhe deu um grande abraço. “Eu a amo. Sei que ela trabalhou muito por isso. Este time trabalha por todas. Uma por todas, todas por uma, como sempre dizemos”, disse ela, que recebeu o prêmio de Jogadora da Partida VISA por ter fechado o gol diante das velozes nigerianas.
E talvez ninguém entenda melhor o peso dessa vitória do que Luisa: em 15 de setembro de 2024, ela também era a goleira da Colômbia nas quartas de final do Mundial Sub-20. Diante de quase 40 mil pessoas em Cali, as anfitriãs estiveram duas vezes à frente da Holanda, sofreram o empate por 2 a 2 perto do fim e perderam nos pênaltis.
“Doeu muito, demais”, resumiu Luisa. “Dessa vez, dissemos que aquilo não se repetiria, que jogaríamos todas as sete partidas da competição. E agora conseguimos isso.”
Ela não está errada: a Colômbia ainda disputará a semifinal em 23 de setembro, mas terá pelo menos outro jogo depois – seja a final ou a disputa pelo terceiro lugar. Portanto, de um jeito ou de outro, a equipe alcançou seu objetivo de jogar sete partidas. Mas Sintia Cabezas espera que o sétimo jogo seja a final, em 27 de setembro.
"O nosso objetivo é ficar aqui até o dia 27. É um sentimento que realmente não podemos explicar. Nós sonhamos, e agora estamos vivendo essa alegria imensa de um jeito tão bonito. Nosso time lutou muito, e cada uma das meninas aqui sabe as dificuldades que teve que superar para poder chegar até aqui”, disse Cabezas.
Uma das dificuldades foi superar 2024, como explicou Carlos Paniagua:
“Ficou aquele gosto amargo de que poderíamos ter ido um pouco mais longe, que poderíamos ter chegado às semifinais e brigado pela Copa do Mundo”, recordou o treinador. “Agora, estamos entre as quatro melhores seleções do mundo e somos a única equipe sul-americana, porque infelizmente o Brasil foi eliminado [nas quartas]. Estamos representando a Colômbia, mas também toda a América do Sul”, acrescentou.
E, de certa forma, a seleção colombiana encontrou sua redenção “em casa”, já que a torcida sul-americana fez sua voz ser ouvida nas arquibancadas do Estádio Municipal LKS Lodz – a quase 10 mil quilômetros de distância da capital colombiana Bogotá. “É incrível como há colombianos em todos os lugares”, afirmou Luisa. “Estamos muito longe de casa, mas não parece, porque estamos com eles.”
“Era importante dar à torcida essa alegria porque quando uma pessoa está longe de seu país, sente muito mais o hino, a nossa terra e essas conquistas”, concluiu Paniagua. Valerin Loboa pensou em quem estava ainda mais distante, acompanhando diretamente da Colômbia, e agradeceu por terem “encarado acordar na madrugadinha” (às 8h da manhã) para vê-las pela TV.
Publicado originalmente pela FIFA em 20/09/2026: Da dor à redenção: Colômbia faz da Europa sua casa e vive sonho tardio →