A 2.600 metros de altitude, o ar é rarefeito em Toluca, mas Amandine Henry ignora o cansaço enquanto controla o meio-campo e mantém a intensidade pelos 90 minutos inteiros com as Diablas. Depois da partida, ela celebra o desempenho do time e aplaude a torcida direto do gramado. Com ou sem a braçadeira de capitã, sua tenacidade é um lembrete de sua atuação na Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2019™, quando, como capitã da seleção anfitriã, ela encerrou as esperanças do Brasil com um gol nos acréscimos que classificou a França para as quartas de final. Mas qual é a chave para o seu sucesso? Henry garante que é mais simples do que parece e que tudo se resume ao trabalho que ela coloca todos os dias. No fim das contas, é a mentalidade que ela construiu ao longo dos anos que faz a diferença. “Perder é impossível para mim. Essa palavra não existe no meu vocabulário”, ela conta à FIFA. Aposentada das seleções desde 2024, Henry agora joga pelo clube mexicano Toluca. Ela segue tão determinada quanto sempre foi, mantendo a ambição incansável que a transformou em inspiração para as jogadoras mais jovens. O atual elenco do Toluca tem um forte traço francês, com Henry dividindo o vestiário com Eugenie Le Sommer e Faustine Robert, todas sob o comando de uma comissão técnica que fala francês, liderada pelo técnico Patrice Lair. Fora de campo, ela se tornou fã da cultura local, das enchiladas verdes e do talento de jogadoras mexicanas como Lizbeth Ovalle e Charlyn Corral. Aos 36 anos, ela se vê numa posição incomum dentro do futebol feminino. Ela sabe o que é vestir a camisa de uma potência do futebol como a França, mas também testemunha como as coisas estão evoluindo no México, duas experiências que lhe dão uma perspectiva única sobre onde o futebol feminino está hoje. Na avaliação dela, a distância entre as potências do futebol feminino e as seleções em ascensão está diminuindo, graças a uma combinação de capacidade tática e um novo nível de confiança. Em entrevista à FIFA, Henry refletiu sobre sua trajetória até o topo do jogo, deu sua opinião sobre o estado atual do futebol e contou o que continua a motivá-la a competir no mais alto nível, mesmo depois de encerrar sua carreira na seleção francesa.
FIFA: Amandine, nós vemos você jogar os 90 minutos inteiros, semana após semana, se cobrando no mesmo nível das jogadoras mais jovens. Qual é o seu segredo? Amandine Henry: Não existe segredo. Eu trabalho todos os dias. Tive a sorte de jogar com algumas das melhores jogadoras do mundo no Lyon e nos Estados Unidos, onde aprendi que disciplina e atenção aos detalhes são essenciais. Para mim, perder é impossível. Eu jogo cada partida de coração e como se fosse a última da minha carreira.
O futebol moderno está cada vez mais físico e rápido. Como meio-campista, como isso mudou o seu papel em campo? É verdade que hoje o futebol tem mais atletismo e força física, mas não podemos esquecer da tática. Agora que estou mais velha, precisei adaptar o meu jogo. Não consigo cobrir tanto espaço de campo quanto antes e preciso jogar mais com a cabeça. Mas é importante manter um pouco de individualidade. Se fôssemos todas só força e velocidade, o futebol não seria o mesmo.
Você jogou duas Copas do Mundo, incluindo a de 2019, quando foi capitã. Como esses torneios mudaram a sua vida? Durante um ano inteiro, você só pensa na Copa do Mundo. Quando ela chega, você aproveita cada momento, do minuto em que acorda até a hora de dormir. E essas lembranças ficam para sempre. Quando termina, é difícil voltar para a realidade do futebol de liga, porque a Copa do Mundo é o sonho máximo, mas como profissionais, aprendemos que são os pequenos detalhes que fazem toda a diferença dali para frente. Para mim, duas lembranças de Copa do Mundo se destacam. A primeira foi o meu primeiro gol, em 2015, contra o México. Aquilo foi incrível. A segunda foi o gol contra o Brasil em 2019, quando vencemos por 2 a 1.
Você marcou aquele gol contra o Brasil no seu próprio país, na frente da sua torcida e na prorrogação. Como era o clima? Foi um sonho. Jogar uma Copa do Mundo no seu próprio país é o que há de melhor para uma jogadora de futebol. É difícil explicar a sensação, é uma enxurrada de emoções. Você quer vencer por você mesma, mas também pelos seus amigos e familiares que estão assistindo nas arquibancadas. Eles nem sempre estão presentes quando você joga fora do país, então jogar em casa te dá um enorme orgulho.
Na sua opinião, qual foi o legado que definiu aquela geração? Nós tínhamos a responsabilidade de vencer, mas também de servir de exemplo para as mulheres no esporte. Recebemos muita atenção da mídia, não só sobre o nosso futebol, mas sobre o nosso papel como mulheres. Isso foi muito importante.
Você já fez parte de vários times excelentes. Com quais companheiras você mais aprendeu? Tive a sorte de jogar ao lado de Camille Abily, Sarah Bouhaddi e, desde as categorias de base, de Eugenie Le Sommer e Wendie Renard. Aprendi muito com cada uma delas.
A França é um país de grandes expectativas. Do seu ponto de vista, qual é a mensagem principal para as jogadoras que defendem a França hoje e sonham em disputar a Copa do Mundo de 2027? Jogar pelo seu país e poder cantar o hino nacional é incrível. Quando você é jovem, tudo parece muito intenso. Com a experiência, você aprende a transformar essa pressão em algo positivo e a usá-la a seu favor dentro de campo. Eu diria para quem está tentando se classificar para aproveitar. O futebol é um jogo em que é permitido falhar, mas é o sonho delas e elas precisam aproveitar ao máximo.
Desde a Copa do Mundo de 2015, o que mais te surpreendeu na evolução do futebol feminino? O futebol feminino cresceu muito em organização, cobertura da mídia e torcida. Hoje tudo é muito mais profissional. Do lado técnico, em 2015 a gente jogava basicamente por instinto. Agora temos planos táticos para cada time e cada jogadora, então se eu enfrentasse o Brasil ou o México, eu teria todas as informações que preciso sobre as minhas adversárias no meio-campo. A atenção aos detalhes e à recuperação, como o uso da crioterapia, mudou muito o jogo.
Depois de ter conquistado tudo o que existe na Europa em nível de clubes, o que você espera do México? Tenho pensado muito no meu futuro, porque gostaria de trabalhar como diretora esportiva. Estar aqui é uma grande oportunidade de aprender dentro e fora de campo.
O que mais chamou a sua atenção desde que você começou na Liga MX Femenil? A intensidade. Toda partida é difícil e os times são muito parelhos. Você pode enfrentar o time da lanterna da liga e o resultado pode ir para qualquer lado. É um estilo de jogo muito mais aberto do que na França, e isso é algo que eu gosto muito. Também fico impressionada com o apoio da torcida. A torcida é incrivelmente acolhedora. Ela vai a todas as partidas, para cantar e para nos apoiar. É incrível.
Para encerrar, que conselho você daria às jovens jogadoras mexicanas que sonham em disputar a próxima Copa do Mundo? Continuar se esforçando. Elas têm a capacidade de chegar lá, e seria um momento incrível para o país e para o futebol feminino no México. Sim, é pressão, mas é um tipo de pressão positiva. Espero vê-las na Copa do Mundo, embora talvez não contra a França de novo! (risos).