Redação GINGA36

Jogadoras do Uruguai apontam retrocesso desde 2023

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Bandeira do Uruguai.
Bandeira: domínio público

Jogadoras do Uruguai apontam retrocesso do futebol feminino no país em relação às conquistas de 2023, como informou a la diaria neste domingo, 1 de novembro de 2026. Dirigentes e a Asociación Uruguaya de Fútbol (AUF) coincidem no diagnóstico, mas não nas responsabilidades.

Enquanto o Uruguai projeta a festa da Copa do Mundo masculina de 2030, as atletas relatam falta de condições básicas.

O que se perdeu desde 2023?

Em 2023, as jogadoras se uniram para exigir condições mínimas: sair dos complexos e jogar nos estádios principais, com mais público e gramados em bom estado, além de uniforme, estrutura de treino, cobertura médica, água, fruta, bolas e acordos de televisão. A mobilização abriu negociações com a AUF e com o departamento de futebol feminino da Mutual Uruguaya de Futbolistas Profesionales (MUFP). Essas reuniões estão paradas desde 2024, e a Mutual está sem uma figura que represente o futebol feminino.

Vanina Sburlati, do Defensor Sporting, participou daquelas reuniões. Ela avalia que jogar nos estádios foi um avanço de 2023 e que as equipes voltaram aos complexos. Na televisão também vê recuo: quando muito, diz, transmitem uma partida, e de pouco apelo, como a vitória do Peñarol por 17 a 0 sobre o Juventud.

Sofía Oxandabarat, da seleção uruguaia e atualmente no Universitario, do Peru, chama aquele ano de ponto máximo e considera que o futebol feminino uruguaio está pior. Ela compara o calendário organizado do Peru com o do Uruguai, onde, no ano passado, o campeonato terminou em novembro e só recomeçou em maio. No clube peruano, os jogos passam no YouTube; no Uruguai, segundo ela, ninguém de fora consegue assistir e os clássicos têm portões fechados.

Para Oxandabarat, falta controle para que o básico seja cumprido, e isso desmotiva as jogadoras. Por isso, avalia, elas preferem sair para o exterior assim que podem.

O que aconteceu no Wanderers?

A diferença entre os clubes ficou evidente no Wanderers, que atravessou um ano difícil nas finanças e em campo. A jogadora Malú Almada conta que o elenco não recebeu ajuda de custo em todo o ano, dinheiro que cobria as passagens até o Complejo Devoto ou até o ponto do ônibus de treino. Na metade deste ano, a equipe perdeu também esse transporte e as comissões técnica e médica, e o time se desfez.

“Nos deixaram muito sozinhas”, afirmou Almada, que participou dos protestos de 2023.

Sburlati descreve uma partida contra o Wanderers em que o banco tinha só três jogadoras e não havia comissão técnica nem médica. A goleira cortou a sobrancelha e foi atendida pelo médico do Defensor.

Dayana González, presidente da Comissão de Futebol Feminino do Defensor Sporting, vê na falta de regulação uma das maiores falhas, e afirma que muitos clubes não têm água para pôr nos jogos. Ela atribui à aposta econômica o crescimento do Torque neste ano.

Quanto dinheiro chega ao futebol feminino uruguaio?

O Programa Forward da FIFA destinou a cada federação até 8 milhões de dólares no período 2023-2026. A entidade exige que uma parte vá para o futebol feminino, sem fixar o valor. A CONMEBOL declara 650 mil dólares por seleção na Liga de Naciones, e a linha CONMEBOL Evolución obriga cada associação a pôr entre 200 mil e 300 mil dólares na base feminina.

Nas contas da la diaria, o futebol feminino uruguaio deveria receber por ano entre 850 mil e 950 mil dólares, mais uma fatia não especificada dos projetos da FIFA. Nos estados financeiros de 2024, a AUF declara ter recebido 882.774 dólares de FIFA e CONMEBOL para seleções e clubes femininos.

A diferença com o futebol masculino aparece na bolsa de torneios de clubes da CONMEBOL: dos 312,5 milhões de dólares, 4 milhões, ou 1,28%, vão para a Libertadores feminina.

O que responde a AUF?

Mariana Fernández, presidente da Comissão de Futebol Feminino da AUF, afirma que nenhum pedido das jogadoras chegou diretamente a ela e confirma que as reuniões com a Mutual foram interrompidas. Sobre os fundos, diz que não são tão livres quanto parecem de fora.

No caso do Wanderers, Fernández explica que nenhum regulamento ampara uma ação, e pondera que multas puniriam meninas que querem jogar. Sobre a televisão, afirma que os jogos marcados são enviados e que a produção escolhe o que transmitir. Ela destaca ainda o trabalho de base, com três seleções em um processo inédito, num caminho que considera mais lento e menos visível.

O que muda

Para a torcedora, o quadro significa poucos jogos na tela. Para os clubes, a falta de regulamento e de fiscalização mantém a distância entre quem investe e quem não consegue garantir o básico. Para a seleção, a saída das atletas ao exterior é boa para cada uma delas, mas não fortalece a liga local.

Para entender

O futebol feminino é profissional no Uruguai?

Não, é amador, e o estatuto existente é o do futebolista masculino, aponta Graciana Ravelo, ex-advogada da Mutual. Ela lembra que, pelo critério da FIFA, é profissional quem ganha mais do que gasta, e que uma mudança no estatuto permitiria ao sindicato contemplar todas as partes.

Com quem as jogadoras assinam contrato?

Com os clubes, não com a AUF, quando há contrato. A grande maioria pode receber, ou não, ajuda de custo de 5.000 a 20.000 pesos.

Que saídas existem além do dinheiro?

As entrevistadas citam convênios com o Estado, um bilhete especial de transporte para futebolistas e rodadas duplas com o campeonato masculino, no mesmo estádio. Lucero Morandi, ex-jogadora do Danubio, defende mais representação feminina na Mutual e alerta que reclamar traz tensões e represálias.

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