
— Long reflete sobre identidade, sacrifício e marcos históricos com as cores das Filipinas — Ela espera inspirar a próxima geração de jogadoras de futebol feminino no país — A zagueira falou com exclusividade à FIFA antes da campanha classificatória para o Brasil 2027 Para Hali Long, vestir a camisa das Filipinas nunca foi só futebol.
Trata-se de família, identidade, sacrifício e, no fim, legado.
Nascida em Cape Girardeau, no Missouri, Long cresceu geograficamente distante das Filipinas, mas profundamente enraizada em sua herança.
Criada por uma mãe solteira ao lado das duas irmãs, com a lola (avó) e a tita (tia) morando sob o mesmo teto, sua casa de infância nos Estados Unidos era inconfundivelmente filipina.
“Éramos basicamente seis mulheres filipinas em casa, na América, então eu nunca senti que era diferente”, disse Long à FIFA.
“Nossa casa era bem pinoy, só que ficava na América.” Esses primeiros anos moldaram, silenciosamente, seu senso de pertencimento.
Só mais tarde memórias simples ganharam um sentido mais profundo, como levar sinigang, tinola ou maçã verde com bagoong para a escola, coisas que ela nunca considerou estranhas na época. “Só percebi bem depois que eu era a criança na escola que levava a ‘comida de cheiro forte’. Naquela época, era completamente normal para mim.”
Esse mesmo senso de normalidade se estendeu ao futebol. O esporte era sua paixão, mas nunca algo que ela via como certeza para o futuro. Quando surgiu a primeira oportunidade de participar de uma concentração da seleção feminina das Filipinas, ainda na adolescência, Long recusou, priorizando os estudos por respeito aos sacrifícios da mãe.
Quando finalmente entrou para a seleção, em junho de 2016, a experiência estava longe de ser glamurosa. Os primeiros anos de Long na seleção foram marcados mais pelas dificuldades do que pelos holofotes. Recursos limitados, estrutura modesta e sacrifício pessoal constante faziam parte da base do time.
“Não tínhamos uniformes de treino e lavávamos as roupas à mão”, recordou a atleta, hoje com 31 anos. “Eu voltava para os Estados Unidos para trabalhar enquanto era estudante em tempo integral e atleta, só para conseguir participar das concentrações.”
Tempo, dinheiro e conforto foram sacrificados em nome da crença. E essa crença, aos poucos, se tornou algo mais forte do que a própria estrutura. “Sacrifiquei muito para jogar. Mas cada sacrifício valeu a pena. Eu faria tudo de novo, por tudo o que a seleção me deu.”
A virada aconteceu em 2022, quando as Filipinas sediaram, e venceram, o Campeonato Feminino da AFF. Foi a primeira final alcançada pela equipe, e conquistá-la em casa tornou o momento ainda mais poderoso.
“Foi a primeira vez que chegamos a uma final de campeonato, e fazer isso em casa foi incrível”, disse Long. “Física e emocionalmente, foi um dos desafios mais difíceis que já vivi.” Uma agenda apertada, viagens longas e expectativas crescentes testaram o elenco.
Elas se firmaram não só como campeãs, mas como sérias candidatas.
O embalo seguiu para os Jogos do Sudeste Asiático, onde uma derrota na estreia e problemas de saúde no elenco voltaram a testar a resiliência do time. “Perdemos a partida de estreia, e isso foi difícil porque sabíamos que deveríamos ter vencido. Mas isso nos impulsionou.”
Gols nos minutos finais, momentos decisivos e a recusa em se contentar levaram, por fim, à medalha de ouro, e a uma mudança de mentalidade. “Já passamos da fase de só ficar gratas por estar ali. Temos que acreditar que pertencemos a esse nível.”
Depois veio o ponto de virada: a Copa do Mundo Feminina da FIFA Austrália/Nova Zelândia 2023™. Para Long, a experiência trouxe uma mistura de orgulho, pressão e reflexão. “Foi cheio de emoção, boas e ruins. Acho que dava para ver isso nas fotos e nos vídeos. Às vezes essas emoções tomavam conta.”
A história se fez com a primeira participação, o primeiro gol e a primeira vitória das Filipinas em uma Copa do Mundo Feminina. Ainda assim, essas conquistas só impulsionaram o time a ir além. “Alcançamos muitos ‘primeiros’, mas, no fundo, não conseguimos, de fato, o que tínhamos como objetivo.”
Agora com mais de 100 convocações internacionais, a trajetória de Long atravessa gerações da seleção. Questionada sobre seu crescimento pessoal, ela desvia a atenção dos próprios marcos. “Minha carreira... eu não gosto muito de falar sobre mim. Prefiro olhar para como cresci dentro do time. Como pessoa, e claro, fisicamente também.”
Como uma das jogadoras mais experientes, zagueira central e capitã, seu foco está na consistência e na responsabilidade. “Sou uma das jogadoras mais velhas agora. Só quero dar o tipo de exemplo que as companheiras mais velhas me deram um dia. O time está bem diferente agora, mas meu papel é passar adiante o que aprendi. É isso que significa fazer parte da seleção.”
Esse senso de responsabilidade molda o próximo desafio. As Filipinas vão disputar a Copa Asiática Feminina da AFC de 1 a 21 de março, no Grupo A, ao lado de Austrália, Irã e Coreia do Sul. O torneio volta a servir como caminho classificatório para a Copa do Mundo Feminina da FIFA Brasil 2027™.
Desta vez, porém, as Filipinas chegam com história para contar. Na edição anterior, alcançaram a melhor campanha de sua história, chegando às semifinais, a colocação mais alta já obtida pelo país na Copa Asiática.
Long, que hoje joga na Tailândia pelo College of Asian Scholars, encara a tarefa com realismo e convicção discreta. “Nem consigo ficar parada pensando nisso, porque é sempre uma missão muito difícil. A Copa Asiática tem tanta variedade de estilo. Ásia Oriental, Ásia Ocidental, Sudeste Asiático, todo mundo disputando o mesmo prêmio.” Para Long, a diversidade da Ásia torna a competição excepcionalmente exigente.
Cada partida apresenta um desafio diferente, e cada ponto precisa ser conquistado. “É extremamente difícil. Todo time está se esforçando, e claro que queremos voltar à Copa do Mundo.”
Para as jovens jogadoras filipinas que acompanham de Manila, de Mindanao ou de comunidades da diáspora ao redor do mundo, a trajetória de Long é prova de que o sacrifício pode moldar o sucesso, e de que a crença pode levar uma nação mais longe do que se espera.
“Sou imensamente grata por esta oportunidade. Por representar meu país, minha família e todos os nossos kababayan [conterrâneos filipinos] pelo mundo.”
Publicado originalmente pela FIFA em 28/02/2026: Long: cada sacrifício valeu a pena →