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Mais do que mãe: Tamires luta pelo futebol e, assim, ensina o filho a sonhar

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O texto abaixo é um relato exclusivo de Tamires à FIFA.

Existem muitas Tamires dentro de mim, mas preciso fazer um desabafo: eu amo ser mãe, é muito gostoso, mas sou muito mais do que "só" mãe ou "só" atleta. Não é pouca coisa, pelo contrário! É pesado, exige disciplina e escolhas difíceis. Mas, ainda assim, a maternidade é uma das coisas mais bonitas que eu já vivi.

Sempre soube que o maior ensinamento que posso deixar para o meu filho Bernardo é o exemplo diário. Quero que ele veja que a mãe nunca desistiu do sonho de jogar futebol, mesmo quando uma parte do mundo dizia que eu deveria desistir.

Eu comecei a jogar futebol profissionalmente em 2004 e fiquei grávida em 2009, aos 21 anos. Sempre sonhei em ser mãe, mas engravidar naquele momento não foi planejado. Foi um baque, não escondo isso do meu filho. Antes de engravidar, eu só pensava em jogar futebol e, de repente, tudo mudou. Teve gente que virou para mim e falou que tinha acabado, que eu não tinha juízo, que seria impossível voltar a jogar.

A vida ensinou que ser mãe e atleta já não é fácil, mas fazer isso sozinha é impossível. A gente precisa de apoio da família, dos amigos e do clube.

Felizmente, eu tive essa rede de apoio em casa e consegui fazer tudo no tempo certo. Vivi a maternidade e voltei para o futebol sem pressa, sem abandonar quem eu era. Eu tento ensinar para o Bernardo que é possível ser feliz sem passar por cima dos outros e sem abandonar a própria essência. Hoje ele tem 16 anos, e é um menino tão legal que eu sonho até em trabalhar com adolescentes quando parar de jogar.

Falando nisso, não vou dizer que estou longe de pensar em parar. Eu acho que 2028 talvez seja um ano "limite". Mas hoje, aos 38 anos, eu ainda tenho fome de competir em alto nível, ajudar o Corinthians e a Seleção. Eu ainda quero mais, sonho em estar na Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027™ e estou trabalhando para isso.

E eu amo ser chamada de "Mãe da Fiel" no Corinthians. Eu carrego o apelido com muito orgulho. O que me incomodou durante um tempo foi perceber que era a única história contada sobre mim.

Desde que o Bernardo nasceu e até a Copa do Mundo Feminina da FIFA 2019™, quase todas as perguntas que eu recebia eram sobre maternidade: como é ser atleta sendo mãe? Com quem seu filho fica?

No começo, eu achava legal de verdade. Quando fiquei grávida, eu não tinha referência, não via outras jogadoras passando por isso e voltando a jogar em alto nível depois da gestação. Então eu quis falar sobre isso para abrir caminho e fazer parte dessa construção.

Porém, com o tempo, parecia que tinham esquecido da Tamires atleta, que treina e se cobra o tempo todo. Hoje, com mais maturidade, entendo que isso era reflexo da falta de referência da época: eu era, para muita gente, a única atleta-mãe disponível para falar. Mas o problema nunca foi falar sobre maternidade, o problema era só falarem sobre isso.

Foi por isso que, em 2019, eu decidi fazer as pessoas se lembrarem da Tamires atleta. Acho que consegui alcançar essa meta com estilo – a caneta que eu dei contra a Austrália até ficou marcada! Depois de tudo o que o futebol feminino viveu naquela Copa do Mundo, o olhar sobre mim mudou. O meu jogo virou assunto.

E o mundo melhorou em muitos aspectos: saúde da mulher, estudos sobre fisiologia, como fica o corpo de uma atleta depois de ser mãe e voltar a jogar. Ainda temos muito a evoluir, mas a situação era muito pior quando eu engravidei há 16 anos.

Alguém precisava sofrer para alguma coisa mudar, né? Se tinha de ser alguém, então que fosse eu, que consigo ver o copo meio cheio. Eu não romantizo, mas ser mãe é uma dádiva. Eu digo às atletas mais jovens que existe tempo para tudo, inclusive para desfrutar da maternidade, mas que é preciso ter apoio do clube, da família e muita disciplina.

Eu nunca fui a atleta mais habilidosa, nem a mais forte, mas sempre fui constante, disciplinada, trabalhadora. Foi a regularidade que me trouxe até aqui, mesmo sem ter todas as respostas – porque nem mesmo uma mãe sabe de tudo no mundo!

Assim como meu filho está vivendo tudo pela primeira vez, eu estou na minha primeira vida. Quando penso no meu passado, eu consigo olhar com muito carinho para aquela jovem que lutou para ser feliz. Eu sou extremamente orgulhosa de todas as versões de mim. Todas elas compõem uma só Tamires, que por acaso é atleta e mãe.

O mais importante é que meu filho viu que eu lutei pelos meus sonhos. Ele tem os objetivos pessoais dele e herdou de mim a teimosia para insistir neles. Se a minha trajetória até aqui puder ensiná-lo a lutar para realizar os próprios sonhos, como eu lutei para jogar futebol e ser mãe, ele vai sorrir muito mais do que chorar.

E eu ainda espero sorrir por mais um tempo no futebol.

Com carinho,

Tamires.

Publicado originalmente pela FIFA em 10/05/2026: Mais do que mãe: Tamires luta pelo futebol e, assim, ensina o filho a sonhar →

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