
As jogadoras da seleção da Austrália fizeram da Women's Super League (WSL), a primeira divisão do futebol feminino inglês, sua segunda casa: 12 Matildas jogam na liga e outras quatro na WSL 2, mostrou análise publicada nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026, pelo Goal. A migração começou depois da Copa do Mundo de 2019 e coincide com as duas melhores campanhas da história da seleção.
A presença é tão grande que Jack Sharkey, responsável pelo desempenho físico da seleção, trabalha baseado na Inglaterra. Ellie Carpenter, Steph Catley e Mary Fowler estão entre as estrelas australianas da liga.
Durante anos, a NWSL, liga dos Estados Unidos, foi o destino preferido das australianas, porque o calendário encaixava com o da liga nacional, a A-League, então chamada W-League. Na Copa do Mundo de 2019, 13 das 23 convocadas jogavam nos Estados Unidos.
O preço era um ciclo sem pausa: temporada americana de março a novembro, volta para casa até janeiro ou fevereiro e, logo depois, de novo os Estados Unidos, com jogos da seleção no meio. Alanna Kennedy, hoje no London City Lionesses, foi uma das que viveram essa rotina e avalia que ela deixou de ser sustentável. Catley, ao assinar com o Arsenal em 2020, disse que o desgaste fazia jogadoras chegarem aos grandes torneios e terem problemas físicos rapidamente.
Clare Wheeler, meio-campista do Everton com 46 jogos pela seleção, contou que esse calendário a afastou da ideia. Sua primeira experiência fora foi no Fortuna Hjørring, da Dinamarca, em 2021, justamente para disputar uma temporada europeia completa.
A virada veio logo depois do Mundial de 2019, quando Sam Kerr assinou com o Chelsea. No ano seguinte chegaram Catley, Mackenzie Arnold, Caitlin Foord e Kennedy. A pandemia de covid-19 ajudou: a temporada 2020 da NWSL não foi disputada por inteiro, enquanto a WSL 2020-21 foi jogada até o fim.
Pesou também a profissionalização. Fowler, que chegou ao Manchester City em 2022, cita salários, cobertura de imprensa e espaço para as jogadoras opinarem sobre os rumos da competição. "Para mim, a Inglaterra tem a melhor liga do mundo", disse ao Goal.
Há ainda o fator cultural. Kennedy diz que o jeito das pessoas lembra o da Austrália, menos o clima, e Wheeler lembra que, a cerca de 16 mil quilômetros de casa, as australianas se unem mais num país pequeno e fácil de percorrer.
Nos Jogos Olímpicos de 2021, a Austrália chegou à semifinal, até então sua melhor campanha num grande torneio, com 18 das 22 convocadas jogando na Europa, oito delas na Inglaterra. Na Copa do Mundo de 2023, em casa, igualou a marca: 19 das 23 atuavam na Europa, 11 na WSL.
A assistente técnica Emily Husband afirma que a experiência fora acelera o desenvolvimento das atletas e cita a UEFA Champions League como o melhor torneio que elas podem disputar. Com o fim do ciclo entre dois hemisférios, caiu também o risco de lesão por cansaço apontado por Catley.
No relatório mais recente da FIFPRO, referente à temporada 2024-25, as quatro jogadoras que mais viajaram no mundo eram australianas. Sharkey explica que ficar na Inglaterra facilita o contato com os clubes pelo fuso horário. A comissão usa meias de compressão feitas sob medida a partir de imagens em 3D, além de controlar exposição à luz, cafeína e melatonina na chegada.
A Football Australia passou a levar treinos para a Europa. Na data de outubro, a seleção enfrentou a Alemanha em Karlsruhe e o Haiti na França, e só duas convocadas viajaram desde a Austrália. As jogadoras chegaram numa segunda-feira e treinaram no gramado já na terça.
O movimento segue: Alexia Apostolakis, Alana Murphy, Leticia McKenna, Tori Tumeth, Leah Davidson, Hana Lowry e Holly McNamara, que ganhou a Chuteira de Ouro da A-League em duas temporadas seguidas e assinou com o Everton, saíram do país pela primeira vez em 2026.
A seleção ganha, mas a A-League perde as Matildas que davam nível e visibilidade ao campeonato, em meio a uma disputa salarial entre a liga e as atletas. Ellie Carpenter, do Chelsea, criticou a situação em agosto, pediu mais investimento e disse esperar encerrar a carreira na Austrália dentro de cinco a oito anos. Husband lembra que a liga ainda é onde jogadoras de 16 a 23 ou 24 anos ganham minutos no profissional, e é dela que sai a próxima geração da seleção.
São 12 Matildas na WSL e mais quatro na WSL 2, a segunda divisão inglesa.
Depois da Copa do Mundo de 2019, com Sam Kerr no Chelsea, seguida por Catley, Arnold, Foord e Kennedy no ano seguinte.
As duas melhores campanhas da Austrália, a semifinal olímpica de 2021 e a do Mundial de 2023, vieram com a maioria do elenco jogando na Europa.