O abandono do esporte por meninas virou o tema do patrocínio da MGEN, mutualista francesa, à Ligue féminine de football professionnel (LFFP), a liga profissional de futebol feminino da França. A estratégia foi detalhada por Clotilde Truffaut, delegada nacional da MGEN, em entrevista publicada na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, pelo Republik Group.
Segundo Truffaut, a MGEN e a presidência da liga dividem a mesma convicção: o acordo tem objetivo feminista, e a entidade assume o termo. A meta declarada é reduzir o abandono do esporte entre as meninas e fazer com que elas se sintam tão legítimas quanto os meninos para jogar futebol.
Desde os primeiros jogos, grandes tifos com o logotipo da MGEN tomaram as arquibancadas com a mensagem “14 anos é jovem demais para se aposentar do esporte”. As faixas também circulam nas redes sociais, e Truffaut afirma que a ação funciona bem.
O acordo prevê ainda que jovens jogadoras amadoras participem do pontapé inicial das partidas, para mostrar que amadoras e profissionais têm lugar em campo. Há também o troféu MGEN de melhor jogadora da partida, entregue em cada jogo transmitido pelo Canal+, que exibe o campeonato com dez partidas em sinal aberto por temporada.
A delegada justifica a escolha com os números da modalidade no país. O futebol feminino francês tem mais de 250 mil atletas registradas, total que cresce 10% ao ano, e a meta é chegar a 500 mil até 2028. Cerca de 8 mil clubes têm ao menos uma jogadora registrada, e 4 mil clubes amadores mantêm equipe feminina.
A Copa do Mundo Feminina 2027, no Brasil, entra na conta: Truffaut lembra que a seleção da França está entre as cinco melhores do mundo e espera que o torneio sustente o crescimento do esporte.
Há também uma razão interna. As mulheres são 60% dos associados da MGEN, a maior mutualista do funcionalismo público francês, de onde vêm cerca de 70% dos associados.
Truffaut diz que o patrocínio não pode ficar restrito a uma dimensão nacional e parisiense. A MGEN, que tem agências em todos os departamentos franceses, quer aproximá-las dos clubes da primeira divisão para criar ações conjuntas. Entre as ideias está um preço especial de ingresso para associados, funcionários e militantes da entidade.
A base regional inclui o programa MGEN Championnes Club, que equipou por completo 55 clubes amadores femininos de futebol, basquete e handebol na França continental e nos territórios ultramarinos. Para março, em torno do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, estão previstas ações nacionais com jogadoras profissionais.
O patrocínio se apoia numa pesquisa Kantar encomendada pela MGEN sobre o abandono do esporte entre meninas. A conclusão central: nem todas param por escolha. Para metade das que deixam o esporte, a decisão vem de pressões externas à própria vontade. A entidade trata o tema como problema de sociedade e de saúde pública.
Um segundo estudo, com treinadores, técnicos e professores de educação física, está em fase final. A ideia é verificar se a percepção deles coincide com a das meninas e adolescentes ouvidas na primeira pesquisa e, a partir do cruzamento das duas, montar um programa de formação para quem conduz o esporte de base.
Para a torcedora francesa, o estádio passa a carregar uma mensagem sobre quem fica de fora do jogo: a menina que para de jogar na adolescência. Para os clubes, a promessa é de ações locais com a patrocinadora. E para o futebol feminino como um todo, o caso mostra um patrocínio que se mede pelo que muda na base, e não só pela exposição da marca.
A Ligue féminine de football professionnel, a liga profissional de futebol feminino da França, com tifos, troféu de melhor jogadora da partida e ações nos clubes.
Que metade das meninas que abandonam o esporte faz isso por pressões externas, e não por escolha própria.
Mais de 250 mil, com crescimento de 10% ao ano e meta de 500 mil até 2028.