
O tempo estava gelado em Bielsko-Biala, mas o Brasil foi mais frio ainda em campo – e, assim, manteve aquecido um sonho que vai muito além da Copa do Mundo Feminina Sub-20 da FIFA Polônia 2026™. Com sensação térmica próxima dos 8°C, a Seleção passou boa parte da tarde de quinta-feira (11) atrás no placar contra a Inglaterra, mas exercitou sua paciência, força física e, sobretudo, resistência mental para mudar uma história desfavorável. E, curiosamente, começou a vitória de virada com um toque de frieza.
Lily Dent abriu o placar para as inglesas aos 31 minutos do primeiro tempo, mas, aos 31 da etapa final, a brasileira Clarinha foi fria ao cobrar um pênalti com uma leve cavadinha, empatou e viveu mais um momento especial na competição. Ela já tinha analisado a goleira Katie Cox com a comissão técnica e sabia que a inglesa costumava escolher um canto antes da cobrança. Resolveu esperar. “Já que o dia está frio, decidi bater com frieza”, contou à FIFA, sorrindo. “Dei uma cavadinha para colocar um friozinho a mais.”
Por trás da brincadeira, a meio-campista também encontrou uma explicação para a construção da confiança brasileira nos momentos em que o relógio avançava e o gol não aparecia: “A nossa treinadora [Camilla Orlando] faz questão de nos lembrar das nossas pessoas, da nossa família. Acho que isso é muito importante para cada uma de nós continuar forte. É uma família. É todo mundo unido, todo mundo junto”, afirmou Clarinha, cujo padrinho viajou quase 12 mil quilômetros para vê-la jogar na Polônia.
Aos 50 minutos do segundo tempo, quando o empate já parecia definitivo, Gisele completou a virada por 2 a 1 que confirmou o Brasil na liderança do Grupo B. Foi um golaço, mas a camisa 7 estava tão emocionada após a partida que ficou claro que a beleza daquele gol foi muito maior do que a técnica utilizada na jogada.
“O meu gol saiu no momento certo. Se não fossem as meninas me passando confiança assim que eu entrei, não teria acontecido”, disse Gisele. “A gente sempre fala que, quando não for na tática, vai ser na raça, na vontade. E é isso que significa o Brasil para a gente.”
O roteiro ofereceu à Seleção Brasileira uma oportunidade de colocar à prova algo que vem sendo construído muito antes de sua chegada à Polônia para a Copa do Mundo Feminina Sub-20 da FIFA 2026: do time principal à base, está em curso um trabalho conjunto entre os diferentes níveis para fortalecer a mentalidade do Brasil.
“Quebramos dois paradigmas”, resumiu a treinadora Camilla Orlando. “Primeiro, fizemos um jogo muito físico contra o Canadá e quebramos o paradigma de que o Brasil não era tão bom fisicamente. E hoje a gente também fez um jogo físico, mas veio principalmente para fazer um jogo tático e mental, para mostrar a nossa força e, ao mesmo tempo, treinar a nossa força para onde a gente quer chegar”, completou.
A resposta ajuda a explicar uma das prioridades do trabalho desenvolvido nas categorias de base brasileiras. A conexão com a Seleção principal – que disputará em casa a Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027™ – não passa necessariamente pela reprodução de um desenho tático, como fazem países como a Espanha, mas por uma tentativa de construir em diferentes níveis uma equipe capaz de se adaptar à adversidade.
No jargão do futebol, costuma-se dizer que times que “sabem sofrer” têm bons resultados.
“A nossa força vem do grupo inteiro e unido, sem exceção. A nossa força são as atletas que vêm do banco, quem começa, quem precisa se recuperar... A nossa força é o nosso grupo. Isso é muito forte não só para as atletas, mas para toda a comissão”, disse Camilla.
Foi justamente ao falar sobre essa relação que Camilla se emocionou durante a entrevista com a FIFA; ex-jogadora, a treinadora admitiu que sente muita falta de estar em campo, mas encontrou no trabalho de técnica uma maneira de continuar participando do jogo e, de quebra, realizar sonhos que não teve a chance de alcançar como atleta.
“Eu sou treinadora pelas atletas. Eu acredito na formação delas. Confesso que sinto muita falta de jogar futebol, e essa é a minha forma de jogar junto com elas, passar toda a confiança e crescer junto”, afirmou Camilla, com os olhos marejados. “Fico muito feliz e emocionada de ver isso acontecendo porque elas nos representam dentro de campo.”
O primeiro lugar do Grupo B não encerra esse processo. Enquanto se prepara para a Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027™, o Brasil segue em busca do título inédito da Copa do Mundo Feminina Sub-20 da FIFA 2026™ e enfrentará nas oitavas de final um dos terceiros colocados dos Grupos A, C ou D – ainda a ser definido.
Publicado originalmente pela FIFA em 11/09/2026: No frio, Brasil mantém o sonho aquecido e quebra seus próprios paradigmas →