O número de técnicas caiu no Reino Unido nos últimos anos, apesar do sucesso recente do futebol feminino em competições de elite, mostrou nesta quinta-feira, 1 de outubro de 2026, a BBC Sport. Um estudo da UK Coaching, entidade independente que representa as técnicas no país, apontou queda de 6% no número geral de mulheres na função, com recuo de 10% entre as voluntárias do futebol de base, o nível mais afetado.
A entidade também identificou barreiras sistêmicas enfrentadas pelas mulheres na função, como assédio, bullying e desigualdade de oportunidades.
Dados divulgados nesta semana pela Football Association (FA), federação inglesa de futebol, em parceria com a Bloomsbury Football Foundation, mostram que metade das meninas que jogam futebol organizado diria a uma técnica algo que não contaria a um responsável, proporção que cai para uma em cada oito quando o técnico é homem. Mesmo assim, apenas 7% de quem treina futebol de base na Inglaterra são mulheres.
O levantamento também aponta que 13% das adolescentes jogam futebol organizado ao menos uma vez por semana, contra 46% dos meninos. Entre as meninas que jogam, 49% são treinadas majoritariamente por alguém do mesmo gênero, ante 85% dos meninos.
No alto nível, o cenário melhorou. Em janeiro de 2023, apenas quatro das 12 técnicas da Women's Super League (WSL), principal liga inglesa, eram mulheres. Hoje, oito das 14 técnicas no comando dos clubes da elite são mulheres.
Entre elas estão as responsáveis pelos três clubes recém promovidos à WSL: Amy Merricks, no Birmingham, Jo Potter, no Crystal Palace, e Karen Hills, no Charlton Athletic.
Uma nova cota da FIFA, que exige que as seleções femininas tenham ao menos uma mulher como técnica principal ou assistente, ajudou a equilibrar a balança no alto nível. Na base, o cenário é diferente, com o custo das licenças e a falta de apoio para cuidar dos filhos entre as principais barreiras, mesmo para ex-jogadoras da seleção inglesa.
Fara Williams, ex-jogadora da seleção inglesa, disse ao programa Women's Football Fallout, da BBC, que ficou chocada com a queda no número de técnicas. "Aquele número é um choque", afirmou.
Segundo ela, o valor investido nas licenças B e A de técnica não compensa diante dos salários e das oportunidades que vêm depois, o que a fez desistir da carreira de técnica após jogar por clubes como Everton, Liverpool e Reading. Para Williams, os três principais obstáculos à carreira (o custo entre eles) afetam homens e mulheres por igual, mas pesam mais sobre as mulheres, que já precisam se esforçar mais para ser respeitadas e correm um risco maior ao investir nas licenças.
A licença Pro da UEFA, a mais alta para treinar no futebol inglês, custa 14.000 libras e tem apenas 24 vagas por turma. Já a licença C, a mais básica, custa 650 libras, valor que pode ser subsidiado apenas para quem já está vinculada a um clube registrado na FA.
Zoe Conning concilia a função de técnica no clube comunitário Manchester Laces com o trabalho de diretora de acessibilidade do Wolverhampton Wanderers. Tem a licença B da UEFA e treina há cinco anos, incluindo uma passagem em tempo integral pelo Macclesfield.
Ela pagou 1.250 libras pela licença B, com despesas de viagem por conta própria entre Wolverhampton e Manchester, onde fez o curso. A licença A custa 4.150 libras, valor que a fez desistir, e nem cogitou o nível Pro.
[Anita Asante](/atleta/anita-asante), ex-jogadora da seleção inglesa, começou a treinar depois de pendurar as chuteiras, com passagem pelo Bristol City, da segunda divisão da WSL, e pela seleção sub-23 da Inglaterra. Ao programa Women's Football Fallout, ela contou que precisou escolher entre seguir na carreira de técnica e dedicar tempo à filha pequena, depois de anos perdendo eventos em família durante a carreira de jogadora.
Emily Handyside, ex-técnica da seleção de netball do País de Gales e hoje à frente do programa Women in Coaching da UK Coaching, afirmou que a maternidade afeta as mulheres de um jeito sem equivalente para os homens, já que são elas que engravidam. Para ela, faltam programas de compartilhamento de vaga e de meio período, e cobrou do governo britânico metas de retenção de técnicas atreladas a financiamento.
Apesar dos títulos recentes, incluindo os dois Campeonatos Europeus seguidos da seleção da [Inglaterra](/selecao/inglaterra) e a conquista da Copa do Mundo de rúgbi pelas Red Roses, em Twickenham, a ideia do futebol como domínio masculino ainda resiste no país. Conning relatou que, em um curso de licença B que fez, era uma entre três mulheres num grupo de 31 pessoas, o que torna o ambiente intimidador, especialmente nos dias de jogo, quando árbitros e técnicos costumam ser todos homens.
Para quem joga, o impacto aparece na base, onde a maioria das meninas segue treinada por homens mesmo preferindo o contrário. Para as ex-jogadoras que querem seguir como técnicas, o caminho profissional continua mais caro e mais arriscado do que para os homens, mesmo com o avanço nos clubes da elite. Para a Football Association e a UK Coaching, o desafio agora é transformar o sucesso no alto nível em acesso de verdade na base.
Oito das 14 equipes da liga têm mulheres no comando, segundo a reportagem.
Segundo Fara Williams, o retorno financeiro da carreira de técnica não compensa o investimento, e o risco pesa mais sobre quem já enfrenta mais barreiras para ser respeitada.
Uma cota que obriga cada seleção a ter ao menos uma mulher como técnica principal ou assistente.