Em maio de 2014, Rilany Silva estava no banco numa final de Champions League. O Tyresö, da Suécia, perdeu para o Wolfsburg por 4 a 3, num jogo que muita gente ainda chama de clássico. Ela não entrou. Poucas semanas depois, o clube estava insolvente, expulso do campeonato sueco, e todas as jogadoras viraram agentes livres. A final mais importante da carreira dela foi, também, o último capítulo daquele time.
É um bom ponto de partida para entender uma treinadora que desconfia de certezas e aposta em processo.
A lateral que rodou o mundo
Rilany nasceu em Jacareí, no interior paulista, e fez da lateral direita seu ofício. Passou por Santos, Botucatu, Foz Cataratas, Ferroviária e Iranduba, defendeu a Seleção principal entre 2013 e 2018 (10 jogos) e ainda cruzou o Atlântico: Suécia, Islândia, Espanha, Portugal. Em 2018 assinou com o Atlético de Madrid, mas o contrato foi cancelado em outubro, sem ela entrar em campo. Dois meses depois, desembarcou no Benfica.
Foi em Lisboa que a carreira virou. Ela jogou ali, ajudou o clube a levar a segunda divisão e a Taça de Portugal em 2018/19 e, em 2019, assumiu o Sub-17 feminino, onde ficou até março de 2024. Passou pelo Sub-17 do Corinthians, fez uma breve passagem como auxiliar no time adulto do Cruzeiro e, em 2025, a CBF a anunciou como técnica da Seleção Sub-17.
O método: o pequeno para o grande
O que ela trouxe de Portugal não foi um esquema tático, foi uma forma de olhar. "Foi uma metodologia baseada na autonomia, na percepção do jogo, sobre espaço, sobre desenvolver individualidades dentro de um coletivo", resume.
Na prática, ela inverte a lógica clássica: "Olhar o jogo não do grande para o pequeno, e sim do pequeno para o grande." Primeiro a escolha da jogadora, depois o desenho da equipe.
A regra de convivência é igualmente direta: "máxima liberdade e máxima responsabilidade. Ninguém tá proibido de nada e ninguém é obrigado a nada." Fora de campo, tem resenha. No treino, tem seriedade. A virada de chave é tão nítida que as atletas a chamam de "bipolar", apelido que ela aceita como parte do processo.
Há, nessa fórmula, um recado para quem lida com adolescentes de 16 e 17 anos: confiança vem antes de controle. E uma ambição declarada de longo prazo, a de construir "um DNA da seleção brasileira" que atravesse as categorias.
Os números que provam a tese
Em 2025, no primeiro ano de trabalho, o Brasil fez a melhor campanha da história da Sub-17 em Copas do Mundo: quarto lugar, eliminado na semifinal pela Coreia do Norte, que levou o título. Em 2026, veio o troféu. No Paraguai, o Brasil passou invicto pelo Sul-Americano (cinco vitórias e um empate) e fechou o hexacampeonato com um 3 a 2 sobre a Argentina.
A final mostrou o lado humano do método. O Brasil vencia por 3 a 1, "com tudo na mão", e, nas palavras dela, "em uma bola a gente se desconecta". Veio a pressão argentina. A resposta, segundo a treinadora, foi o que ela vem ensinando: "elas tiveram clareza do que estava acontecendo e tiveram o talento individual para resolver situações." Ela tinha batizado cada jogo do torneio de "missão". Terminou o campeonato dizendo: "cumprimos nossas seis missões."
Quem não está no radar
Rilany diz que quer ampliar a descoberta de talentos para além dos grandes centros, com jogadoras "de todos os estados". A prática acompanha o discurso. Ela testa muito, rodou dezenas de nomes em cada convocação, e a lista de 2026 deixou de fora boa parte do grupo do ano anterior. Para este Mundial, chamou 28 atletas à Granja Comary e saiu de lá com a lista final.
O Marrocos e a conta que falta
A delegação embarcou no domingo (4) para o Marrocos. A estreia na Copa do Mundo Sub-17 é em 17 de outubro, no Grupo C, ao lado de Canadá, Noruega e Gana. A Seleção chega como campeã sul-americana e semifinalista da edição passada, com uma treinadora que já disse não acreditar numa explicação única para o próprio sucesso: "Não que isso tenha me levado à Seleção, acho que foi uma série de fatores."
Quem passou por uma final perdida, um clube que acabou e uma vaga que não se concretizou sabe que nada disso é linear. Em outubro, ela leva ao Marrocos um grupo de adolescentes que ela deixou livre pra decidir. A conta final vai ser feita dentro de campo.