
Clarinha já tinha corrido muito em campo naquela tarde, no Estádio de Bielsko-Biala, quando decidiu correr mais alguns metros para encontrar uma pessoa. Depois de ajudar o Brasil a vencer o Canadá por 3 a 0 e ser eleita Jogadora da Partida VISA, ela subiu as escadas da arquibancada para encontrar alguém que havia feito um esforço muito maior para estar ali: 11.897 quilômetros e cinco trechos de viagem em uma cadeira de rodas.
No fim do caminho estava André, padrinho e primo da jogadora do Benfica. Os dois se abraçaram e comemoraram a realização de um sonho que começou muito antes da Copa do Mundo Feminina Sub-20 da FIFA Polônia 2026™ e ficou marcada na pele – literalmente – do homem de 46 anos, mas, acima de tudo, no coração dos dois.
“É meu padrinho, André. Tê-lo aqui é muito importante para mim. Ele prometeu que, se eu viesse para a Copa do Mundo, viria me ver jogar na Polônia, e deu um jeito de vir”, contou Clarinha à FIFA após a partida.
André cumpriu a promessa. Saiu de Goiânia e passou por Brasília, São Paulo, Berlim e Cracóvia antes de finalmente chegar a Bielsko-Biala. Foram 11.897 quilômetros desde a cidade onde mora até o palco dos primeiros jogos da afilhada em uma Copa do Mundo.
A viagem teve uma dificuldade adicional. Em 1997, aos 16 anos, André sofreu um acidente ao mergulhar em águas rasas: a lesão medular foi irreversível e resultou em uma tetraparesia que o faz usar cadeira de rodas desde então. Para Clarinha, porém, essa sempre foi uma simples característica do padrinho que conheceu durante toda a vida.
“O acidente foi antes de ela nascer, então foi assim que ela me conheceu. O padrinho dela é assim”, explicou André à FIFA. “Com a Clarinha, isso nunca foi um tabu, um obstáculo. O que nós dois temos é uma afinidade de outras vidas, e ela é uma pessoa incrível.”
A distância faz parte da história dos dois há quase tanto tempo quanto o futebol, já que Clarinha vive em Portugal com os pais desde os quatro anos de idade, enquanto André permaneceu no Brasil. Isso impediu que ele acompanhasse presencialmente boa parte da formação da afilhada, mas nunca diminuiu a proximidade ou a torcida por ela.
“O sonho da Ana [Clarinha é apelido de Ana Clara] começou muito cedo e, em função da distância, foi uma fase que presencialmente eu não acompanhei de pertinho. Mas, mentalmente, sempre. Em contato e na torcida pelo sonho dela, porque quando a gente gosta de uma pessoa quer que o sonho dela se realize”, acrescentou.
Os pais de Clarinha também estão na Polônia acompanhando o Mundial, mas partiram de Portugal. André fez o caminho sozinho desde o Brasil, incluindo um voo de aproximadamente 11 horas do Brasil à Alemanha. Na verdade, a jornada toda foi de mais de 24 horas: Goiânia, Brasília, São Paulo, Berlim, Cracóvia e, por fim, Bielsko-Biala.
“Eu fui o único que veio do Brasil para cá, em uma cadeira de rodas, aguentando 11 horas de voo de São Paulo até a Alemanha e depois mais horas de viagem até a Polônia”, contou.
A presença da família ganhou ainda mais significado em uma noite especial para Clarinha depois de ter sido eleita Jogadora da Partida. Ao falar sobre o reconhecimento, porém, a meio-campista preferiu dividi-lo com as companheiras: “O mérito é do grupo inteiro. É claro que o individual fortalece o time, mas um time muito unido é o que mais importa.”
André acredita fielmente que a viagem da afilhada pelo futebol está apenas começando. Durante as últimas férias de Clarinha no Rio de Janeiro, os dois visitaram o lendário Maracanã, palco da abertura e da final da Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027™, e a jogadora fez uma promessa ao padrinho de que lutará para voltar ao estádio em breve.
“Ela olhou para mim e disse: ‘Padrinho, vou jogar aqui pelo Brasil’. Só de pensar positivo e lutar por isso, já tem todo o meu apoio e toda a minha torcida”, relembrou André. “Eu acredito que ela será a melhor do mundo, com toda certeza, e que vai estar na Copa do Mundo no Brasil em 2027. Vou poder acompanhar mais de perto essa trajetória. Acredito pelo talento e pela pessoa que ela é; totalmente focada no que quer.”
Por enquanto, André ainda tem mais um compromisso nas arquibancadas polonesas. Ele retornará ao Brasil no sábado (12) por causa do trabalho e, portanto, estará presente apenas durante a fase de grupos. Seu último jogo será justamente o duelo entre Brasil e Inglaterra, nesta sexta (11), que definirá a liderança do Grupo B. A Seleção Brasileira já está garantida nas oitavas de final, ainda sem adversário definido.
“Como se diz, não estarei junto fisicamente, mas o coração estará sempre”, afirmou.
A viagem já seria difícil de esquecer, mas André decidiu garantir que esse torneio de Clarinha também ficasse registrado de outra maneira. Um dia depois do jogo contra o Canadá, ele procurou um tatuador na Polônia e marcou na pele a bandeira polonesa, o nome da afilhada e o da Copa do Mundo Feminina Sub-20.
“Ela viu a tatuagem e perguntou: ‘Doeu, padrinho?’. Eu admiti que doeu, sim [risos]”, contou. “Mas eu quis fazer essa homenagem. É uma experiência única, um sentimento que não dá para explicar, é muito bonito. A Ana está colhendo os frutos que tem plantado como uma jovem mulher honesta, que luta por seus objetivos e sonhos.”
Publicado originalmente pela FIFA em 09/09/2026: Sonhos marcados na pele: Clarinha e o padrinho que viajou 11.897 km por ela →