Gabriela Borges

O futebol feminino também se desenha

Gabriela Borges
Ilustração.
Arte: GINGA36

Tem uma coisa que aprendi em dez anos garimpando quadrinhos feitos por mulheres: o que não é desenhado quase não é lembrado. A imagem é onde a gente passa a existir antes de existir de fato, no coletivo. Por isso, quando o GINGA36 me chamou pra pensar o futebol feminino no traço, caiu a ficha na hora. Não é enfeite de página. É disputa de imaginário.

Vale lembrar de onde a gente vem. O futebol feminino foi proibido por lei no Brasil por quase quatro décadas. Menina não podia jogar bola, e quem é proibida também é apagada da imagem: não tinha figurinha, não tinha pôster, não tinha personagem, não tinha quem desenhasse. A ausência no papel é filha da ausência no campo. As duas caminham juntas.

Agora a maré virou, e o desenho vira ferramenta. Cada tira que a gente publica aqui, toda semana, é um gesto pequeno e teimoso: colocar essas jogadoras na cultura visual do país, com nome, com rosto, com gesto. Fazer curadoria e fazer quadrinho, pra mim, sempre foi a mesma intenção, escolher o que mostrar e como mostrar, porque é aí que o público aprende a enxergar.

E olha o presente que a gente tem em mãos: uma Copa do Mundo em casa, em 2027, um ano inteiro pra encher os olhos do Brasil com essas mulheres. Vamos desenhar cada uma delas. Não como enfeite, mas como memória e como afirmação.

Porque contar as nossas histórias, no texto ou no traço, é uma forma de disputar o presente e desenhar futuros possíveis. E o recado do desenho é simples: nós sempre estivemos aqui. Agora ninguém mais desvia o olhar.

Gabriela Borges, no GINGA36

Gabriela Borges