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Corral: o México respeita todo mundo, mas não teme ninguém

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— Atacante do México, Charlyn Corral fala com a FIFA — Destaque do Pachuca mira presença em sua terceira Copa do Mundo Feminina — Ela fala sobre seu crescimento dentro e fora de campo

Apesar de ser destra, Charlyn Corral balançou as redes muitas vezes com a perna esquerda ao longo da carreira que a levou a clubes de vários países e também pela seleção. A capacidade de marcar com os dois pés é a marca registrada de uma atacante que manda na área.

Além do faro de gol dentro e perto da área, a mexicana já imagina cada gol na cabeça muito antes de entrar em campo. Entre suas várias comemorações de gol, há uma em que a atacante de 34 anos bate repetidamente o dedo na têmpora, um aceno à importância que a mente tem em seus gols.

“Nas competições recentes, o lado mental tem tido um papel grande para mim”, revelou. “Acredito firmemente na visualização.”

Não há nada de sobrenatural na forma como Corral encara o jogo. A temível atacante destaca, isso sim, o autoconhecimento que ganhou com a experiência, depois de superar uma série de obstáculos desde o início da carreira no futebol.

“Aprendi que, antes de pensar no resultado, é preciso trabalhar a forma como você encara as coisas. Qual vai ser meu raciocínio se as coisas não saírem como planejado ou se eu perder uma chance clara? O que vou dizer a mim mesma para me manter focada?”

Agora na reta final da carreira, os números impressionantes de Corral falam por si. Em nada menos que cinco ocasiões, a estrela do Pachuca foi a artilheira da Liga MX Femenil, e a ex-atacante do Levante foi a maior goleadora da primeira divisão espanhola na temporada 2017-18, tornando-se a primeira jogadora nascida fora da Espanha a conquistar o título de artilharia.

Por trás desses sucessos há anos de persistência, tempo longe de casa e o desejo de crescer como pessoa e como jogadora. “Com os anos, aprendi que cada detalhe importa”, refletiu. “Como você está se sentindo fora de campo afeta seu desempenho dentro dele, e ter minha família perto de mim fez muita diferença nesse sentido. Agora estou mais focada, e isso me ajudou a aproveitar mais o futebol.”

Com Corral liderando o ataque, as comandadas do México têm os olhos postos em mostrar seu futebol na Copa do Mundo Feminina da FIFA™ do ano que vem. Para garantir vaga automática na maior competição do mundo, a seleção precisa chegar às semifinais do CONCACAF W Championship, que acontece ainda este ano.

Corral e as companheiras disputam atualmente as eliminatórias da competição continental, e a veterana atacante marcou duas vezes na vitória por 9 a 0 sobre as Ilhas Virgens Americanas no último fim de semana. O próximo compromisso é contra Porto Rico neste sábado, dia 18 de abril, quando um empate ou uma vitória garantem a vaga do México no CONCACAF W Championship, um passo mais perto da Copa do Mundo Feminina.

Corral falou com exclusividade à FIFA sobre seu momento atual, sua trajetória e os desafios que estão por vir para o El Tri.

FIFA: Você parece estar realmente aproveitando o futebol neste momento, e seus números são muito impressionantes. Você sente que está no auge da carreira?

Charlyn Corral: Acho que sim, porque finalmente tudo se encaixou para mim. Tenho que dizer que sempre fui uma jogadora competitiva, que acredita que o céu é o limite. Muitas vezes exijo ainda mais de mim mesma, mas ao mesmo tempo tenho que perceber que sou apenas humana e que os altos e baixos fazem parte do processo. Estou me sentindo muito feliz e realizada. No passado, talvez eu vivesse as coisas mais sozinha. Minha família e meus amigos no México conseguiam imaginar como eu estava indo, mas agora que eles podem ver com os próprios olhos, isso me estimula. Meu irmão sempre me diz para aproveitar o dia a dia, porque quando você faz isso, o resto se encaixa.

Você testemunhou a transformação do futebol feminino. O que você acha do fato de estar jogando em estádios lotados e em uma liga que vem se firmando cada vez mais?

Já faz muito tempo que estou no futebol, e estou vivendo o sonho de fazer o que amo. Minha paixão também se tornou minha profissão. Todo aquele esforço e todas aquelas horas passadas no campo de treino agora são recompensados por público crescente, salários melhores e estruturas melhores. Houve um tempo em que não achávamos possível ver essas coisas no futebol feminino, elas eram reservadas ao futebol masculino. Vi isso de perto com meu irmão, que é jogador profissional. Eu costumava pensar: 'Que vida boa, poder viver de futebol.' Não posso reclamar, porque o futebol abriu muitas portas para mim, como ir para a universidade e viver nos Estados Unidos. Mas ter essa oportunidade agora, no meu próprio país e em uma fase mais madura da vida, é realmente algo dos sonhos. Me sinto privilegiada, e quero aproveitar o máximo possível, porque em certo momento pensei que nunca fosse viver isso.

Você esteve na última Copa do Mundo em que o México esteve presente, em 2015. Qual você acha que foi a mudança mais significativa trazida pela profissionalização do futebol feminino mexicano na última década?

Foi feito muito trabalho para melhorar o desempenho físico e o profissionalismo das jogadoras. As coisas eram bem diferentes naquela época. Às vezes jogávamos em estádios que normalmente não recebiam partidas de futebol, e os jogos raramente eram transmitidos. Hoje isso já é a norma. O equilíbrio em relação à carga de trabalho também é melhor agora. A jogadora mexicana típica sempre foi uma competidora feroz, o que faz toda a diferença. Estou sendo marcada cada vez mais de perto, e as zagueiras estão dificultando cada vez mais minha vida. Também houve melhorias claras no aspecto técnico: o jogo é disputado em um ritmo muito maior, há muita troca de passes e movimentação, e as jogadoras estão sempre um passo à frente. Dá para ver essa evolução, e cada integrante do elenco da seleção agora tem a confiança para entrar em campo e render.

Desde que Pedro Lopez assumiu o comando da seleção, tem se falado muito sobre construir uma identidade clara. Na busca por uma vaga na Copa do Mundo, você sente que a equipe já encontrou essa identidade?

Acho que ainda estamos em busca dela. Demos passos largos, mas ainda há espaço para melhorar. Nossa vitória recente sobre o Brasil [em março] nos deu confiança e fortaleceu o vínculo dentro do grupo, mas o desafio mais difícil ainda está por vir: a classificação para a Copa do Mundo. Estamos no caminho certo, e todas sabemos que precisamos elevar nosso nível.

Como equipe, como vocês lidam com o lado mental das coisas para garantir que o sonho de chegar à Copa do Mundo funcione como motivação, e não como um peso?

Estamos muito mais acostumadas a lidar com responsabilidade agora. Como uma das jogadoras mais experientes, muitas vezes parecia que a expectativa recaía sobre mim ou sobre a Stephany Mayor para carregar o time. Isso é difícil de lidar, porque futebol é um esporte coletivo. Agora sinto que todo mundo está pronto para dividir essa responsabilidade. Até as mais jovens, principalmente as que jogam em clubes como América e Tigres, já estão acostumadas com a pressão de disputar títulos todas as temporadas, então assumir responsabilidade é algo natural para elas.

Na sua experiência, qual é a melhor parte de jogar uma Copa do Mundo?

Teria que ser saber que você está sob os holofotes. Toda vez que entro em campo, vejo isso como uma chance de provar meu valor. Jogo cada partida como se fosse a última. Numa Copa do Mundo, tudo parece diferente. A experiência inteira é muito mais intensa. Você sabe que seus amigos de infância e sua família estão assistindo, e pode até haver olheiros de olho em você. Foi o que aconteceu comigo em 2015, o torneio em que conquistei minha transferência para a Espanha. A Copa do Mundo é uma oportunidade rara de se colocar em vitrine, e pode mudar todo o rumo da sua carreira. A preparação para os jogos também parece diferente, por causa daquela sensação de expectativa sobre como as coisas vão se desenrolar. O tempo voa; antes que você perceba, já está escalada para a terceira partida da fase de grupos, calculando o que precisa fazer para avançar à fase eliminatória. É um tipo único de pressão, que desaparece no momento em que você cruza a linha branca. Se chegarmos a outra Copa do Mundo, vamos aproveitar ainda mais, porque o futebol feminino está em ascensão, e toda a ocasião vai parecer ainda maior.

Pensando no ano que vem, o que você diria que esta seleção do México é capaz de alcançar?

Respeitamos todo mundo, mas não tememos ninguém. Somos uma equipe destemida, que pode enfrentar qualquer adversária de igual para igual sem se sentir intimidada. Temos uma boa mistura de jogadoras experientes e jovens com caráter e confiança. Temer as tradicionais potências é coisa do passado. Na verdade, jogar contra seleções mais bem colocadas no ranking nos motiva ainda mais. Apesar de a história pesar, assim que você entra em campo, tudo isso vai por água abaixo.

Publicado originalmente pela FIFA em 10/04/2026: Corral: o México respeita todo mundo, mas não teme ninguém →

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