Pelada com a Nara

Grávida não joga

Pelada com a Nara
Grávida não joga
Ilustração: Axl para Ginga36

Hoje, faltam exatamente 9 meses para o Brasil dar à luz sua primeira Copa do Mundo Feminina. Em 24 de junho de 2027, vai nascer nossa chance de mudar a forma como tratamos o futebol feminino. Será nossa chance de acabar com o estereótipo, enfrentar o machismo em campo, e fora dele também. Quero acreditar que teremos mais meninas jogando bola, mais atletas se profissionalizando, mais técnicas, árbitras, mais dirigentes, mais gestoras do futebol. 

Tenho uma grande amiga que calha ser a secretária extraordinária da Copa, a Juliana Agatte. Ta aí uma mulher competente gestando as mudanças do futebol feminino. Na visão dela, a Copa é muito mais do que uma agenda de infraestrutura. É uma oportunidade para melhorarmos a vida de toda menina peladeira Brasil afora, e de toda atleta que quer investir na própria carreira. 

Garantir, por exemplo, que as jogadoras possam ter filhos, parece simples, mas não é. Desde 2021, a FIFA garante, no papel, licença-maternidade de 3,5 meses para jogadoras profissionais, sendo 2 meses depois do parto, com dois terços do salário mantido durante o afastamento

. Em 2024, a regra foi ampliada para incluir licença parental, adoção e saúde menstrual. A FIFA sempre foi ótima em escrever regra bonita, com artigo numerado e tudo. Cumprir é outro esporte. 

A islandesa Sara Björk Gunnarsdóttir precisou processar o próprio clube, o Lyon, depois que ele cortou o salário dela durante a gravidez

. E só ganhou o caso na Justiça da FIFA porque insistiu, com advogado, com tempo, com paciência que nem toda jogadora tem sobrando. Se alguém num dos clubes mais estruturados da Europa precisou ir aos tribunais para fazer uma regra internacional funcionar, dá pra imaginar o tamanho do problema para quem joga em lugares sem esse tipo de estrutura.

No Brasil, a CBF acompanha as regras da FIFA. Mas, no ano passado, deu um passo além. Em novembro de 2025, a CBF anunciou que passaria a bancar a viagem do bebê e do cuidador em competições nacionais para atletas lactantes.

Em 2026, a Ketlen, do Santos, foi uma das primeiras a usar isso na prática, levando o filho e um responsável pelos cuidados dele, com despesas pagas pela confederação. É um caso isolado e pequeno, se comparado ao tamanho do problema. Mas é a prova de que, quando alguém decide aplicar, a coisa sai do papel e viabiliza a permanência da atleta no esporte.

Tem muita coisa aí pra melhorar no futebol feminino. Só 19,2% das jogadoras têm vínculo profissional.

  Quase metade delas não recebe salário nem ajuda de custo, e 70% das profissionais têm dupla jornada, de acordo com o Ministério do Esporte. Apenas 2% dos cargos de diretoria e gestão nos maiores clubes de futebol do Brasil são ocupados por mulheres. Mesmo dentro do futebol feminino, homens ocupam 86% dos cargos de comissão técnica.

O Brasil promete uma Copa histórica, capaz de mudar a forma como o país trata o futebol feminino. Talvez a mudança mais bonita seja a melhoria dessas estatísticas.

Talvez seja mais simples: uma menina qualquer, jogando uma pelada em algum campinho de terra Brasil afora, crescendo já sabendo que dá pra ser atleta, ganhar dinheiro com isso, ser mãe se quiser, e continuar sendo escalada depois, ou virar dirigente. Nasce a Copa daqui a 9 meses. Que nasça, junto, um novo futebol feminino no Brasil. Prefiro torcer a duvidar. 

Pelada com a Nara