
Óvulos estatais
A Espanha decidiu pagar para que suas campeãs do mundo congelem a fertilidade e joguem mais tempo. Uma medalhista olímpica chamou a ideia de machista, um sindicato a chamou de empresarial, o governo respondeu com uma frase de efeito e a Federação inaugurou o programa mesmo assim. Por trás do ruído há uma pergunta que atravessa os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, o Japão, a China e chega ao Brasil da Copa de 2027: quem deve se adaptar a quem, o corpo da atleta ao calendário ou o calendário ao corpo da atleta?
Existe uma frase que Alexia Putellas disse à revista dominical do El País no fim de agosto e que resume, melhor do que qualquer comunicado oficial, o que está em jogo. "Você está servindo ao seu país contra o seu tempo biológico, que não dá para parar, e não pode ser mãe porque precisa do seu corpo para trabalhar." Servir ao país contra o próprio tempo biológico. Precisar do corpo para trabalhar. A melhor jogadora do mundo por dois anos seguidos, aos 32, recém-transferida do Barcelona para o London City Lionesses, descrevia ali uma condição de trabalho, e a descrevia com a naturalidade de quem já a aceitou. O que ela pedia à Federação, e o que a Federação lhe deu, foi uma forma de pagar a conta dessa aceitação.
A conta chegou em 8 de setembro, numa terça-feira à noite, na Ciudad del Fútbol de Las Rozas, nos arredores de Madri. Rafael Louzán, presidente da Real Federación Española de Fútbol, apresentou o que chamou de medida "inovadora no âmbito federativo, em nível mundial": um convênio de cinco anos com a Clínica Tambre, especializada em reprodução assistida, para financiar o congelamento de óvulos e oferecer condições especiais em fertilização in vitro às jogadoras da seleção principal, às internacionais de futsal, às árbitras e assistentes da primeira divisão e, de forma limitada, a funcionários da Federação e suas famílias. Para as jogadoras, a regra de acesso é ter sido convocada ao menos duas vezes desde dezembro de 2025, quando a Espanha venceu a Liga das Nações. O acordo vale até 2029.
Ao lado de Louzán estavam Olga Carmona, autora do gol do título mundial de 2023 e hoje no Paris Saint-Germain, e Patri Guijarro, capitã do Barcelona.
“Você está servindo ao seu país contra o seu tempo biológico, que não dá para parar, e não pode ser mãe porque precisa do seu corpo para trabalhar.”
Alexia Putellas, ao El País Semanal
Carmona falou em "um passo a mais" e em "poder decidir, poder nos informar". Guijarro foi mais precisa: "Tem a ver com poder escolher ser mãe, com o quando, mas também com o fato de poder sê-lo." Inge Kormelink, CEO da Tambre, explicou por que a clínica tinha interesse no assunto: "Os anos em que as jogadoras estão atuando na elite são os mais importantes." Os mais importantes para o futebol e os mais importantes para a fertilidade. Essa coincidência é o problema inteiro.
Uma semana em que todo mundo falou
O que aconteceu entre a entrevista de Putellas e a cerimônia de Las Rozas foi uma daquelas semanas em que um país inteiro decide discutir um assunto que não sabia que tinha. A cronologia importa, porque as reações vieram antes que alguém soubesse exatamente o que estava sendo aprovado.
No dia 1º de setembro, o Marca noticiou que a RFEF ultimava o acordo.

No dia 2, a diretora do Instituto de las Mujeres, órgão do Ministério da Igualdade do governo espanhol, Cristina Hernández, deu à Europa Press uma frase que parecia neutra e não era: "O desafio da igualdade em qualquer âmbito de trabalho é adaptar as condições de trabalho e de vida para que a maternidade não penalize a carreira profissional de nenhuma mulher." O feminismo, acrescentou, não questiona as decisões das mulheres, mas as condições em que elas são tomadas. Era o governo dizendo à Federação, com toda a educação institucional, que o problema estava no lado errado da equação. No mesmo dia 2, a AFE, o sindicato histórico dos futebolistas espanhóis, anunciou um convênio próprio com a unidade de reprodução assistida do Hospital Ruber Internacional, aberto a filiadas e familiares de primeiro grau, com preservação de fertilidade, inseminação, FIV e testes genéticos. Duas instituições do futebol espanhol, em 24 horas, correndo para clínicas de fertilidade.
No dia 3, Ana Peleteiro publicou um vídeo no Instagram. No mesmo dia, o sindicato Comisiones Obreras divulgou nota. E aí o debate deixou de ser sobre futebol.
A atleta que voltou a treinar treze dias depois de parir
Ana Peleteiro tem 30 anos, é de Ribeira, na Galícia, salta triplo, tem um bronze olímpico de Tóquio e um ouro europeu indoor conquistado em março de 2025, em Apeldoorn, com a melhor marca europeia da temporada. É mãe de Lúa, nascida em dezembro de 2022, e de León, nascido em 1º de julho de 2026. Treze dias depois do segundo parto, estava de volta ao treino, e postou a pergunta que sabia que iam fazer: "É cedo? Talvez." Peleteiro é, portanto, a prova viva de que se pode ser mãe duas vezes e voltar ao topo do esporte de elite. É também a prova de quanto isso custa, e de que quase ninguém tem as condições que ela tem para pagar.
O vídeo dela começa com uma pergunta retórica. "E se uma medida que estão nos vendendo como feminista fosse, na verdade, profundamente machista?" E continua com a distinção que virou o eixo de toda a controvérsia: "Essa medida pretende facilitar que as mulheres sejam mães ou pretende facilitar que não sejam enquanto estão jogando? Porque são duas coisas muito diferentes." Ela não ataca o congelamento de óvulos em si. Ataca quem paga. "O problema não é congelar óvulos, o problema é por que essa instituição para a qual essas mulheres trabalham tem interesse em financiar que elas adiem a maternidade."
A alternativa que ela propõe é prosaica e cara: proteção contratual durante a gravidez, reincorporação garantida ao elenco, respeito aos prazos de recuperação e pós-parto, estrutura para o cuidado dos filhos. "Trata-se de conseguir, em definitivo, que ser mãe não penalize profissionalmente nenhuma atleta. Isso, sim, é conciliação." E fecha: "Não deixem que vendam essa notícia como um progresso feminista, porque a realidade está muito longe disso."
Comisiones Obreras foi na mesma direção com vocabulário de sindicato. "O que ela favorece de fato é que a jogadora possa prolongar seu tempo atuando no nível máximo e, portanto, é uma medida empresarial." A nota lembra as cláusulas antigravidez que já constaram de contratos esportivos e sugere que a proibição direta de ontem pode virar o adiamento induzido de hoje. "Nem as jogadoras, nem mulher nenhuma deveria sofrer pressão para ajustar sua maternidade às necessidades do mercado." E um alerta que os médicos repetiriam dias depois: congelar óvulos não garante maternidade futura.
“Não deixem que vendam essa notícia como um progresso feminista, porque a realidade está muito longe disso.”
Ana Peleteiro
A Federação demorou cinco dias para responder, e quando respondeu, na própria cerimônia de Las Rozas, escolheu o tom da incompreensão. Reyes Bellver, diretora de futebol feminino da RFEF, disse que "é importante conhecer a especificidade do futebol feminino", que a normativa trabalhista do setor é "muito garantista", que o futebol feminino espanhol foi pioneiro em proteção à maternidade, e que "às vezes vamos sempre à crítica e não ao pioneirismo". Louzán completou: "Já demonstramos que sabemos conciliar."
O que a medicina diz quando ninguém está torcendo
Há uma parte desse debate que não é ideológica, e ela costuma ficar de fora das manchetes. O congelamento de óvulos, tecnicamente a vitrificação de ovócitos, é um procedimento de duas semanas: nove a dez dias de injeções hormonais para estimular os ovários, controles por ultrassom, e uma punção sob sedação para aspirar os óvulos maduros.
Candela Gallardo, ginecologista do IVI Málaga ouvida pelo El Cronista, recomenda uma semana de repouso antes e outra depois da punção. Para uma jogadora de seleção, isso significa um mês fora do ritmo de competição, o que explica por que Lauren Barnes, zagueira do Seattle Reign, contou ao Yahoo Sports que congelou os óvulos quatro dias antes da pré-temporada e levou seis meses para se sentir normal.
Os números da eficácia são menos animadores do que a palavra "preservar" sugere. José María Rubio, diretor médico da Next Fertility, explicou à EFE que o ideal é guardar entre dez e quinze ovócitos maduros, que resultam em média em dois ou três embriões viáveis, com chance de gestação na faixa de 50% a 60%. José Ramón Pallás, coordenador do grupo de Saúde e Esporte da Organización Médica Colegial, acrescentou à Redacción Médica que a probabilidade de nascido vivo com óvulos vitrificados até os 35 anos é o dobro da obtida em idades posteriores. A idade que importa não é a idade em que a mulher engravida, mas a idade em que congelou. Esse é o único argumento técnico sólido para uma federação oferecer o procedimento a jogadoras de 25 anos e não esperar que elas o descubram aos 34.
Os riscos existem e Pallás os enumerou: síndrome de hiperestimulação ovariana, desconforto pélvico, torção ovariana e, detalhe que só interessa a atletas, a possibilidade de um controle antidoping positivo durante a fase hormonal, o que exige autorização de uso terapêutico. A frase dele que mais circulou foi outra: "A decisão tem que ser livre, informada e sem nenhum tipo de pressão." E a ressalva: "Se em algum momento virar um condicionante velado para minutos em campo ou convocações, deixaria de ser uma melhoria médica para se tornar um problema."
Há ainda um dado que nenhuma clínica coloca no folheto. Quando o governo metropolitano de Tóquio pesquisou 87 clínicas e hospitais em agosto de 2023, antes de lançar seu próprio subsídio ao congelamento, descobriu que apenas cerca de 8,4% das mulheres que haviam congelado óvulos chegaram a usá-los para tentar engravidar. A maioria dos óvulos congelados no mundo fica congelada. Isso não é necessariamente um fracasso, já que muitas mulheres engravidam naturalmente ou mudam de planos, mas é um lembrete de que o produto vendido é menos um bebê e mais uma sensação de controle.
Quanto custa e quem paga
Na Espanha, o custo de um ciclo de vitrificação varia entre 2.090 euros, preço de tabela da Next Fertility incluindo estimulação, controles, punção e conservação até os 40 anos, e algo entre 2.500 e 4.000 euros em clínicas de referência, segundo levantamento do portal Madres Hoy. O Correo Gallego apurou que, no convênio da RFEF, o congelamento sai "praticamente sem custo" para as jogadoras, mas a medicação não está incluída. A Redacción Médica registrou que a Federação cobre todos os gastos e a conservação por até cinco anos. As duas versões podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e a RFEF não publicou o texto do convênio. Vamos tratar o detalhe como não confirmado.
O contexto econômico espanhol ajuda a entender por que uma federação rica acha barato pagar isso. O país é uma potência mundial em reprodução assistida: em 2023, foram 168.372 ciclos de FIV, 39.555 nascimentos por técnicas de reprodução assistida (um em cada dez bebês espanhóis) e 65.805 ovócitos vitrificados, 13% a mais que no ano anterior, segundo dados da Sociedad Española de Fertilidad compilados pela EFE. A Next Fertility diz ter multiplicado por cinco as vitrificações desde 2020, e a idade média de quem procura o serviço caiu de 43,6 para 36,8 anos. A idade média da maternidade na Espanha é 32,6 anos; entre as espanholas de nascimento, 33,2. Alexia Putellas tem 32.
E há a conta do outro lado. O Banco de España calculou que a renda de uma mulher cai 11% no primeiro ano após o nascimento do primeiro filho e que, dez anos depois, a brecha em relação a quem não foi mãe chega a 28%. A socióloga Sara Lafuente, da Universidade Complutense de Madri, resumiu à EFE o que o congelamento subsidiado faz com esse problema: oferece "respostas privatizadas, individualizadas e medicalizadas" a uma questão que é estrutural. E foi franca sobre a origem da demanda: "Se é um pedido das jogadoras, que bom que o concedam."
O que a lei espanhola já garantia, e o que ela não impediu
A ironia do caso espanhol é que a Espanha tem, no papel, uma das legislações mais protetoras do futebol feminino mundial.
O segundo convênio coletivo da Liga F, analisado pela advogada trabalhista Lavinia Rentero García no portal LawAndTrends, garante à jogadora grávida na última temporada de contrato o direito de optar pela renovação por mais um ano (artigo 42) e obriga os clubes a oferecer creche e acompanhamento sanitário pós-parto (artigo 43). Por cima disso há a Constituição, o Estatuto dos Trabalhadores, a Lei de Igualdade de 2007 e a Lei de Direitos Reprodutivos de 2022. Marta Perarnau, presidente do sindicato Futpro, disse à AFP que a Espanha é "referência em garantias laborais" para gestantes.
O papel, porém, não segurou Marta Corredera. Lateral histórica da seleção, contratada pelo Real Madrid em 2020, ela anunciou a gravidez em janeiro de 2022 e deu à luz Ona em agosto. Um ano e dois meses depois, ainda sem conseguir voltar a competir por sequelas da cesárea na parede abdominal, contou ao Infobae que o clube lhe propôs cumprir o contrato ajudando as equipes de base à tarde em Valdebebas. "Não tive nenhum tipo de ajuda durante a gravidez. Me senti tão sozinha e tão desprotegida." Ela nunca voltou a jogar profissionalmente. Rentero cita ainda os casos de Melanie Leupolz, no Chelsea, e Maja Göthberg, na Lazio, em que a Corte Arbitral do Esporte identificou discriminação por gravidez. A frase dela sobre o assunto merece ser guardada: "A discriminação raramente entra no vestiário confessando seu verdadeiro nome. Costuma entrar disfarçada de decisão técnica."
Na mesma semana da cerimônia de Las Rozas, o polo aquático espanhol ofereceu um exemplo em tempo real. O Club Natació Sabadell anunciou que não renovaria com Maica García, campeã olímpica em Paris 2024, depois de 32 anos na entidade.
“A discriminação raramente entra no vestiário confessando seu verdadeiro nome. Costuma entrar disfarçada de decisão técnica.”
Lavinia Rentero García, advogada trabalhista
A AFP, na cobertura do caso dos óvulos, associou a não renovação ao retorno da maternidade. Ela assinou com o Sant Andreu. É o tipo de episódio que dá razão a Peleteiro sem que ela precise dizer nada.
E há o dado que faz tudo isso parecer menos uma discussão espanhola e mais um sintoma global. Um estudo da FIFPRO publicado em fevereiro de 2025, dentro do Drake Football Study, acompanhou 74 jogadoras profissionais em atividade. Uma era mãe. Uma em 74, cinco anos depois de a FIFA ter criado as regras de maternidade. Números levantados pelo sindicato Futpro e citados pelo El Español dizem que 40% das jogadoras espanholas pretendem adiar a maternidade por causa da carreira e 46% declaram medo de engravidar. São recortes distintos, de amostras distintas, e nenhum descreve o todo. Mas apontam para o mesmo lugar.
Estados Unidos: onde a ideia nasceu no escritório e migrou para a quadra
Nada disso é novo, e a genealogia importa.
Entre 74 jogadoras profissionais em atividade acompanhadas pela FIFPRO em 2025, uma era mãe.
Em outubro de 2014, o Facebook e a Apple anunciaram que passariam a cobrir o congelamento de óvulos de suas funcionárias, com um teto de cerca de 20 mil dólares, segundo a imprensa americana à época. A reação foi quase idêntica à espanhola de 2026, com doze anos de antecedência. A revista Time publicou uma defesa sob o título "Congelamento de óvulos corporativo é um benefício, não uma obrigação", com o argumento de que mais da metade das mulheres na tecnologia abandonava a carreira no meio e de que "as mulheres têm livre-arbítrio". O Daily Beast respondeu com "Não se deixe enganar por Apple e Facebook: congelar óvulos não é legal". A crítica central era a mesma que Peleteiro faria: uma empresa que paga para você adiar a maternidade está dizendo, sem dizer, quando é conveniente para ela que você seja mãe.
O esporte americano importou o benefício uma década depois, pela via sindical. O acordo coletivo da WNBA de 2020 criou um reembolso de 60 mil dólares para planejamento familiar (congelamento, FIV, adoção), mas só para veteranas com oito anos de liga, o que excluía a maioria numa carreira média de menos de cinco temporadas. Sue Bird e Breanna Stewart tornaram público que haviam congelado óvulos. Bird disse a frase que o Yahoo resgatou: "Isso não é estranho, não é algo que precise ser dito em sussurro."
O novo acordo, ratificado em março de 2026 por sete anos, baixou a exigência para dois anos de serviço, estendeu a cobertura a cônjuges e parceiras, garantiu 100% do salário durante a licença-maternidade, criou um subsídio de creche de até 5 mil dólares por ano e, num detalhe que diz tudo sobre como o mercado funciona, retirou o salário da jogadora grávida do cálculo do teto salarial, para que os times não tivessem incentivo financeiro para trocá-la ou dispensá-la. A grávida ganhou, na prática, uma cláusula de não troca.
No futebol, a NWSL fez o caminho clube a clube. O Racing Louisville foi o primeiro a financiar tratamentos de fertilidade, em 2021, e cobre as taxas de armazenamento, entre 500 e 1.500 dólares por ano, mesmo depois que a jogadora deixa o time. Onze clubes anunciaram parcerias com clínicas; a liga cobre para todas as atletas a assinatura da Maven Clinic, plataforma de saúde reprodutiva. Kailen Sheridan, goleira do San Diego Wave, congelou óvulos, criou embriões e a esposa gestou o filho do casal. Ali Riley, do Angel City, fez o segundo ciclo de FIV enquanto se recuperava de uma lesão nervosa, aos 37. Sydney Leroux teve dois filhos jogando. O modelo americano, portanto, não é congelamento ou proteção à maternidade. É congelamento e proteção à maternidade, negociados no mesmo contrato, pela mesma mesa sindical. É exatamente essa simultaneidade que falta ao anúncio espanhol.

Sue Bird, uma das primeiras a tornar público que havia congelado óvulos sob o acordo coletivo da WNBA de 2020.
Inglaterra: o clube que criou um fundo e o sindicato que abriu para os homens
O Chelsea foi o primeiro clube da Europa a institucionalizar o benefício, com um fundo de pelo menos 189 mil libras para congelamento de óvulos, FIV e tratamentos ginecológicos, em parceria com a Fertility Plus, de Londres, onde um ciclo de congelamento custa cerca de 7 mil libras. Amit Shah, médico da clínica, deu ao Yahoo uma observação que serve de nota de rodapé a todo o debate: "A maioria das mulheres pode voltar ao trabalho quase imediatamente. Mas com atletas é muito interessante como isso funciona." Uma advogada volta ao escritório no dia seguinte à punção; uma lateral não volta ao sprint.
Em 27 de maio de 2026, a PFA, sindicato dos jogadores ingleses, fechou com a Care Fertility a primeira parceria de fertilidade de um sindicato de futebol do mundo. Cobre atletas e ex-atletas, de ambos os sexos, com acesso a médicos, eventos educativos, avaliações e tratamentos, incluindo congelamento. O detalhe que importa: é aberta aos homens.
A fertilidade masculina também declina, jogadores também adiam a paternidade, e enquadrar o tema como saúde reprodutiva de todos, e não como um problema de mulheres, é a única versão do benefício que ninguém conseguiu chamar de machista.
Tênis: ranking congelado junto com os óvulos
A WTA resolveu o problema pelo ângulo que só um esporte individual pode usar: o ranking. Em março de 2025, com dinheiro do fundo soberano saudita PIF, criou o primeiro programa de licença-maternidade remunerada do tênis, com até doze meses de pagamento e bolsas para procedimentos de preservação da fertilidade. Em junho, acrescentou a regra que faltava: uma tenista que se afaste para congelar óvulos ou embriões recebe um Special Entry Ranking, calculado pela média de doze semanas anteriores, válido para entrar em até três torneios na volta. Sloane Stephens, campeã do US Open de 2017, chamou a regra de "revolucionária" e disse que a WTA "criou um espaço seguro para as jogadoras explorarem opções". Um mês fora não custa mais o lugar na chave. No futebol não existe ranking individual a proteger; existe um lugar no elenco, e é o técnico quem decide.
França: quando o Estado paga, a fila tem vinte meses
A França fez a escolha que nenhuma federação esportiva precisou fazer, porque o Estado a fez por todos. A lei de bioética de 2 de agosto de 2021 autorizou a autoconservação de óvulos sem indicação médica para mulheres de 29 a 37 anos, com custo integral da Seguridade Social. O resultado foi uma corrida: cerca de 20 mil solicitações até dezembro de 2023, com 1.778 punções em 2022 e 2.138 em 2023, segundo a Revue Genesis. Dos 104 centros de reprodução assistida do país, apenas 41 receberam autorização inicial. A fila média nacional era de oito meses em meados de 2023; na região de Paris, catorze, depois de ter chegado a vinte meses no fim de 2022. Deputados levaram o "alongamento alarmante dos prazos" à Assembleia Nacional. Uma jogadora da seleção francesa tem, em tese, o direito universal que a espanhola acaba de ganhar por convênio privado. Na prática, esperaria mais de um ano por ele. A universalidade estatal e o convênio corporativo têm defeitos simétricos: um é para todas e não chega; o outro chega amanhã e é para 30.
Japão e Coreia: subsídio como política demográfica
Em Tóquio, o assunto nunca foi feminismo, foi natalidade. Em outubro de 2023, o governo metropolitano passou a subsidiar com até 300 mil ienes (cerca de 2 mil dólares) o congelamento de óvulos de mulheres de 18 a 39 anos, casadas ou não, com orçamento inicial de 60 milhões de ienes, suficiente para 200 pessoas. Mais de 7 mil mulheres se inscreveram nas sessões informativas e 1.800 pediram o subsídio nos primeiros meses. A governadora Yuriko Koike ampliou a verba. O país tem taxa de fecundidade de 1,3 filho por mulher e reembolsa 70% da FIV desde 2022. Seul foi pelo mesmo caminho, com subsídios que priorizam mulheres na casa dos 20 anos e dobram o número de beneficiárias. Quando um Estado com a menor natalidade do mundo paga para que mulheres jovens congelem óvulos, não está protegendo carreiras. Está comprando tempo demográfico. O gesto é o mesmo da RFEF; a intenção declarada é outra; e o corpo que faz o trabalho é o mesmo.
China: a mulher que não pôde congelar porque não era casada
Na China, a questão não é quem paga, é quem pode. Em 2018, aos 30 anos, Xu Zaozao, conhecida no Ocidente como Teresa Xu, procurou o Hospital de Obstetrícia e Ginecologia de Pequim, ligado à Universidade Médica da Capital, para congelar óvulos. Foi recusada por não apresentar certidão de casamento. Processou o hospital em 2019, no primeiro caso do tipo no país. O tribunal de Chaoyang decidiu contra ela em 2022, e a instância superior confirmou a derrota em 2024. A defesa do hospital sustentou que o procedimento tem riscos e deveria ser reservado a mulheres com infertilidade diagnosticada, e que a gravidez tardia cria "problemas psicológicos e sociais" ligados à diferença de idade entre pais e filhos. A lei chinesa não proíbe expressamente solteiras de acessar reprodução assistida, mas fala em "marido e mulher" e os hospitais aplicam a exigência de casamento como regra. Xu chamou a derrota de "revés temporário" e disse que "certamente chegará o dia em que retomaremos a soberania sobre nossos próprios corpos". Vista de Pequim, a discussão espanhola sobre se o subsídio é feminista ou machista é um luxo de país onde a decisão, ao menos, pertence à mulher.
Brasil: 15 mães em mais de 500
Aqui o debate ainda não chegou, e vale registrar de onde partiríamos. Levantamento publicado no Ludopédio em janeiro de 2025 contou, entre mais de 500 atletas da primeira divisão do Brasileirão Feminino de 2024, quinze mães. Tamires, lateral do Corinthians e da seleção, ficou três anos fora do futebol depois de ter o filho, em 2009, num tempo em que não havia regra nenhuma. Ketlen Wiggers, do Santos, jogou até o oitavo mês de gestação e voltou rápido. Entre os dois casos há quinze anos e uma mudança de regras, não necessariamente de cultura.
A regra é a da FIFA, que desde 1º de janeiro de 2021 garante a todas as jogadoras do mundo catorze semanas de licença-maternidade remunerada com ao menos dois terços do salário, oito delas após o parto, proteção contra rescisão e o direito de voltar ao clube. A regra foi testada quase imediatamente: Sara Björk Gunnarsdóttir, capitã da Islândia, deixou de receber do Lyon ao anunciar a gravidez em 2021, levou o clube ao Tribunal do Futebol da FIFA e ganhou 82.094,80 euros mais juros em maio de 2022, na primeira decisão com base nas novas normas. "Essa história é maior do que eu. É um alerta para todos os clubes", disse. Em junho de 2024, a FIFA ampliou as regras a treinadoras, criou licença para adoção, permitiu afastamento por saúde menstrual sem corte salarial e autorizou clubes a registrar jogadoras fora das janelas para repor quem sai de licença. A CBF incorporou o padrão: a partir da temporada 2026, catorze semanas com dois terços do salário e, novidade, custeio da logística de viagem para que mães em amamentação levem os filhos às viagens oficiais.
O que não existe no Brasil é qualquer discussão sobre fertilidade. Nenhum clube, nenhuma federação, nenhum sindicato oferece ou debate congelamento de óvulos para atletas. Não é necessariamente um atraso. Peleteiro diria que é a chance de fazer a coisa na ordem certa: primeiro a proteção da mãe, depois, se as jogadoras pedirem, a preservação da fertilidade. O fato é que, a menos de um ano da Copa do Mundo em casa, a seleção brasileira convive com a mesma matemática da FIFPRO: quase nenhuma mãe em campo, e ninguém perguntando por quê.
A pergunta que fica
O IUSPORT, portal jurídico esportivo espanhol, publicou no dia 2 de setembro um editorial em defesa da Federação com um argumento que merece ser levado a sério: existe diferença entre possibilidade e obrigação, o convênio não impõe nada a ninguém, e "a verdadeira igualdade não consiste em dizer a uma mulher quando deve ser mãe, nem quando não deve". É verdade. Nenhuma jogadora será obrigada a congelar óvulos. Alexia Putellas, que pediu a medida, falou em nome de uma maioria que a apoia. Patri Guijarro disse que se sentiu escutada. Mulheres adultas, no topo da profissão, pediram uma ferramenta e a receberam. Chamar isso de machismo exige explicar por que a vontade delas conta menos que a análise de quem critica.
Mas o argumento da liberdade individual tem um limite, e Pallás o nomeou: o dia em que a ferramenta virar "condicionante velado para minutos em campo ou convocações". Ninguém precisa escrever isso num contrato. Basta que, daqui a três anos, quando duas jogadoras disputarem uma vaga e uma delas estiver grávida, o corpo técnico saiba que a outra congelou. A pressão não vem da regra, vem da existência da opção. Foi isso que as críticas de 2014 ao Facebook previram e que a WNBA, doze anos depois, tentou neutralizar por escrito, tirando o salário da grávida do teto salarial. A Espanha ofereceu o congelamento. Não ofereceu, junto, nada que impedisse o clube ou a seleção de preferir a jogadora que congelou.
Há ainda quem fique de fora do enquadramento. O convênio da RFEF cobre quem foi convocada duas vezes para a seleção principal. Rentero lembra que isso exclui as categorias inferiores e a imensa maioria das 1.500 profissionais representadas pela AFE, cujo acordo com o Ruber, por sua vez, dá acesso e não gratuidade. O benefício é para a elite da elite, para quem já tem salário, agente e advogado. As que mais precisariam de proteção à maternidade, as que ganham pouco e têm contratos curtos, não ganharam nem congelamento nem proteção. Ganharam uma semana de debate na televisão.
E há o dado bruto que nenhuma das partes discutiu. Uma em 74. Em cinco anos de regras da FIFA, com licença de catorze semanas, dois terços de salário e proibição de rescisão, o número de mães em atividade no futebol profissional feminino segue tão perto de zero que uma amostra científica encontrou uma. A conclusão honesta é que as regras de proteção, sozinhas, não bastaram, e que o congelamento, sozinho, também não bastará. O que falta é o que Peleteiro pediu e o que a WNBA escreveu: um pacote em que engravidar não custe o lugar, e em que adiar seja escolha e não estratégia de sobrevivência. A Espanha fez metade. Fez a metade mais fácil, a que se resolve com uma clínica e um contrato de cinco anos. A outra metade exige que técnicos convoquem mães, que clubes segurem vagas e que a Federação aceite que "servir ao país" não pode continuar significando servir contra o próprio corpo.
Putellas disse que a Federação entende que ela está servindo ao país contra o seu tempo biológico. Entender não é o mesmo que mudar. A frase mais dura da semana não foi de Peleteiro, nem do sindicato, nem do governo. Foi a da CEO da clínica, dita como elogio: os anos de elite são os mais importantes. Para o futebol e para a fertilidade. Alguém decidiu qual dos dois vai esperar, e não foram os óvulos.