Gabriela Borges

HQ Time dos Sonhos: “O futebol jogado por mulheres é puro suco do feminismo.”

Gabriela Borges

Em 17 de maio de 1940, um time de mulheres entrou em campo no Pacaembu pela primeira vez, na preliminar de um amistoso entre São Paulo e Flamengo. Para parte da imprensa foi uma calamidade. Foram quase 40 anos de proibição depois disso, até o futebol feminino voltar a existir oficialmente no Brasil. Agora, o país se prepara para sediar, pela primeira vez, uma Copa do Mundo Feminina, em 2027.

É nesse intervalo, entre o apagamento e a Copa que está por vir, que a história em quadrinhos Time dos Sonhos acontece. Fruto de uma extensa pesquisa, a HQ chega às livrarias de São Paulo neste mês e conta a história de sete meninas de 12 a 15 anos que montam um time de futebol society no bairro. Cada uma carrega o nome de uma mulher apagada da história oficial: Ada, Olympe, Bartolina, Qiu, Bell, Dandara e Tarsila. Para formar o time, elas mergulham na trajetória de onze jogadoras reais que atravessaram décadas de proibição.

A HQ chega em um momento em que o tema também virou obrigação escolar. A Lei 14.986/2024 alterou a LDB, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e passou a exigir a perspectiva feminina no currículo, com a Semana de Valorização de Mulheres que Fizeram História em março, em todas as escolas públicas e privadas do país. Esse debate está também na escolha das onze jogadoras que aparecem na história. Elas somam sete estados diferentes (Pará, Bahia, Alagoas, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul) e atravessam da fase pré-proibição até a seleção atual. 

Quem assina o livro é PriWi, ilustradora e quadrinista, e Angélica Kalil, jornalista, pesquisadora e roteirista, vencedora do Prêmio Jabuti, em 2021. O livro é publicado pela Bebel Books, com produção da Agência Filtro.

"O futebol jogado por mulheres é puro suco do feminismo." 


A seguir, a conversa que tivemos com as autoras. 

Como foi o processo de trabalho entre vocês duas, a pesquisa da Angélica virando roteiro e cena, e a arte da PriWi dando corpo a isso?

ANGÉLICA KALIL: Primeiro nós pesquisamos e conversamos bastante sobre futebol feminino. Nós duas moramos em São Paulo, fomos juntas ao Museu do Futebol, por exemplo. Depois teve o dificílimo processo de escolha das onze jogadoras que iam formar o time dos sonhos das nossas personagens. Queríamos ter diversidade de regiões do Brasil e precisávamos passar por todas as fases pós-proibição através dessas atletas. Muitas ficaram de fora, mas as que estão no livro representam todas.

PRIWI: Foi decisivo para a adaptação do roteiro quando propus que o visual da história fosse um caderno de colagens que mostrasse, por meio de adesivos e interações gráficas, as camadas de tempo acontecendo: a história das jogadoras históricas, a história das protagonistas e a história da jogada que culminou no gol. Daí pra frente o roteiro se definiu como colagem, multilinear. Foi um privilégio trabalhar com a Angélica, porque além de jornalista e pesquisadora sensível, ela é feminista como eu e atenta àquilo que temos em comum e diferente. Ler o mundo, e retratá-lo, precisa passar por essas lentes. E, uma vez que passa, é impossível desver.

Como vocês escolheram quais momentos do futebol feminino virariam cena na HQ?

AK: Na fase pré-proibição, o grande momento é o Jogo do Pacaembu, disputado em 17 de maio de 1940, que eu acho que deveria ser ensinado nas escolas. As manchetes dos jornais na época são revoltantes: "Pé de mulher não foi feito para se meter em chuteira", "O futebol mata a graça da mulher", por exemplo. O futebol feminino estava enchendo estádios e gerando dinheiro. O patriarcado não suporta.

Na fase pós-proibição, os momentos foram contados pela história das próprias jogadoras. A Fanta, por exemplo, jogou no Radar, time que serviu como base para a equipe que foi ao Torneio Experimental da China, em 1988. A história delas se mistura com a da modalidade.

Como a Pri é craque e sempre assistiu muitos jogos de futebol feminino, ela sabe as jogadas e os lances decisivos. Os desenhos dessas jogadas parecem animações.

PW: Para ilustrar a infância das jogadoras, colhemos informações em entrevistas cedidas por elas ou em acervos públicos. Foi muito importante o que encontramos no livro Futebol Feminino no Brasil, de Aira Bonfim, que aceitou assinar o posfácio. Para marcar cada jogadora, escolhi cenas famosas e identificáveis, como a comemoração do gol de ouro da Sissi nas quartas de final da Copa do Mundo Feminina de 1999, contra a Nigéria, na prorrogação.


Durante a pesquisa sobre a história do futebol feminino no Brasil, teve alguma descoberta que surpreendeu vocês?

AK: Me surpreendeu perceber que o futebol feminino está totalmente ligado às ondas feministas. Quando tive esse estalo, entendi por que me arrepia tanto ver mulher jogar bola. Outra coisa que me surpreendeu foi ver que foram as adolescentes que mantiveram o futebol feminino vivo durante os quase 40 anos de proibição. Uma fase da vida cheia de emoções, difícil e divertida, e tão mal compreendida. Vivemos em um país que de tempos em tempos quer criminalizar essa faixa etária e colocar nela a responsabilidade pelo fracasso dos adultos. Então, colocar a adolescência no palco de forma positiva me fez um bem enorme. Acho que esse livro é para todas as pessoas que são ou já foram adolescentes. Nada disso poderia ficar de fora. Esses dois pontos são a estrutura do livro.

“Foram as adolescentes que mantiveram o futebol feminino vivo durante os quase 40 anos de proibição.”

PW: Fui surpreendida o tempo todo. Ainda que eu já conhecesse a proibição, tem um choque natural quando você se aprofunda na história de mulheres reais. Elas são de carne, osso e coragem. Saíram muito cedo de casa para tentar viver de um esporte que as desprezava. Como eu queria, a Priscila de 12 anos, que nossas jogadoras tivessem o destaque que o masculino, com histórias bem menos exemplares, sempre teve.

Tem muita coisa que ficou de fora, dava mais uns cinco livros. Vale um livro só sobre o Primavera, outro só sobre o Radar, o Saad, os campeonatos marginais. São tantas mulheres que mantiveram vivo o futebol feminino mesmo nos tempos mais sombrios. O futebol feminino no Brasil e na América Latina, para desgosto de muitos, viveu histórias de norte a sul, e ainda há muito para ser contado.

“O futebol feminino no Brasil e na América Latina, para desgosto de muitos, viveu histórias de norte a sul, e ainda há muito para ser contado.”

Os nomes das boleiras (Ada, Olympe, Bartolina, Qiu, Bell, Dandara, Tarsila) homenageiam mulheres apagadas da história oficial. Teve alguma homenagem que exigiu mais pesquisa visual ou cuidado na hora de desenhar?

AK: A gente escolheu os nomes primeiro pensando em qual combinava com cada personagem. As irmãs Tarsila e Dandara decidimos que teriam nomes de brasileiras. Para Bartolina e Qiu, pensamos nas nacionalidades das personagens. Olympe pela conexão da palavra com esporte e porque é uma personagem histórica que pesquiso bastante. Ada porque a Pri adora esse nome. Bell porque achamos que combinava com ela e porque adoramos a escritora. O que queríamos era que essas homenagens trouxessem luz para mais mulheres apagadas da história e que abriram caminhos para nós.

PW: Bartolina Sisa e Dandara dos Palmares são mulheres sem registros fotográficos, pinturas ou retratos nominais, como é o caso também de Olympe de Gouges. Não encontramos descrição visual delas que saísse da margem racializada. Então, escolhi imagens comumente usadas em materiais de museus e pesquisas acadêmicas como base para representá-las, adaptando ao meu traço.

Com o Brasil sediando a Copa do Mundo Feminina em 2027, o que vocês esperam que mude na forma como as meninas enxergam o futebol daqui a um ano, quando a Copa já estiver mais perto?

AK: Eu espero que mude tudo. E que isso mostre para todas nós que as mulheres não precisam ser o outro do homem. Que as meninas e adolescentes se sintam à vontade para jogar bola ou qualquer outra coisa que queiram fazer. Futebol não é território do homem. É um jogo que acompanha a história da humanidade e pertence a todas as pessoas.

“Que as meninas e adolescentes se sintam à vontade para jogar bola ou qualquer outra coisa que queiram fazer. Futebol não é território do homem.”

PW: O mais importante da Copa vai ser o legado. O modo como o futebol feminino é enxergado hoje é, no mínimo, injusto. Sem incentivo, sem apoio, sem categoria de base, elas fizeram o milagre de resistir. Queremos que meninas e mulheres possam praticar o esporte com tudo a que têm direito: base para sonhar, visibilidade para construir referência e respeito, profissões possíveis além das quatro linhas, como jornalistas, narradoras, treinadoras, preparadoras, profissionais de saúde do esporte, designers, pesquisadoras, conteudistas, mestras, doutoras, administradoras. O céu é o limite.

“O mais importante da Copa vai ser o legado.”


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