A história do futebol feminino Impróprias

Entre proibições, multidões e fronteiras, elas fizeram do futebol uma história de resistência que ainda está sendo escrita.

Antes de o futebol ter nome, regra ou dono, mulheres já jogavam. A primeira anotação disso é escocesa e data de 1628. Mais de dois séculos depois viriam as regras, os clubes, os estádios e o dinheiro.

Em 1795, as peixeiras de Fisherrow mantinham uma partida anual entre casadas e solteiras. Em 1881, mulheres da Escócia e da Inglaterra fizeram uma série de jogos diante de milhares de pessoas. A Primeira Guerra Mundial mudou o tamanho dessa história. No Boxing Day de 1920, cerca de 53 mil pessoas foram ao Goodison Park, em Liverpool, para ver as Dick, Kerr Ladies jogar. Milhares ficaram do lado de fora. Em 1921, o time faria 67 partidas diante de cerca de 900 mil pessoas. Foi nesse momento que a porta se fechou.

Em 5 de dezembro de 1921, a Football Association proibiu seus clubes de receber partidas de futebol feminino, alegando que o jogo era inadequado para mulheres. A decisão inglesa foi seguida por outras. Gales e Canadá em 1922, Itália em 1933, Iugoslávia em 1939, França e Brasil em 1941, Nigéria em 1950 e Alemanha em 1955. Enquanto o futebol masculino se organizava e crescia, mulheres eram afastadas dos campos. Em alguns lugares, a proibição vinha das federações. Em outros, do Estado. O argumento mudava, mas o resultado era o mesmo. Mas elas continuaram jogando.

Doze dias depois da decisão inglesa, 57 clubes se reuniram em Blackburn e fundaram sua própria federação. Em 1922, as Dick, Kerr Ladies atravessaram o Atlântico e disputaram partidas contra equipes masculinas nos Estados Unidos. Em 1956, um ano depois da proibição alemã, 18 mil pessoas foram ao estádio em Essen para assistir a um jogo. Em 1971, 110 mil pessoas lotaram o Estádio Azteca, no México, para assistir à final de uma Copa do Mundo que nenhuma federação reconhecia. As jogadoras voltaram para casa multadas e banidas. No Brasil, a proibição só começou a cair em 1979, e ainda assim com uma condição embutida. Em 1983, o futebol feminino voltou a ser regulamentado, mas o texto vedava expressamente o profissionalismo. Elas podiam jogar. Não podiam viver disso. A primeira Copa do Mundo oficial seria disputada em 1991. Esta história chega a 2027, quando a Copa do Mundo Feminina será disputada no Brasil, com abertura e final no Maracanã.

The Girls of the Period Playing Ball, gravura colorida publicada na Harper's Bazar em 1869, com mulheres de traje vitoriano disputando uma bola num parque

Sala 1 · 1628 a 1893

Antes de existir o esporte

Mulheres já jogavam quando o futebol ainda não tinha regra escrita, clube nem federação. Os registros mais antigos que se conhecem de mulheres jogando estão em atas de igreja escocesas do século XVII, que reclamavam não do sexo das jogadoras, mas do dia da semana.

Harper's Bazar, 1869 · Domínio público

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Antes de existir o esporte 1628 a 1893

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1628 Carstairs, Escócia

O ministro presbiteriano John Lindsay, de Carstairs, em South Lanarkshire, registrou nas atas do kirk mulheres jogando futebol em dia de sábado sagrado. A queixa dele não era o fato de serem mulheres, era o dia. É o registro documental mais antigo que se conhece de mulheres jogando bola na Escócia. Em 1656, em Lamington, outra ata descreveu homens e mulheres jogando juntos na terça-feira de carnaval e classificou o costume como supersticioso e abominável.

Igreja de Carstairs e seu entorno, em janeiro de 2011. A menção ao futebol em 1628 veio do ministro dessa paróquia; o edifício atual é posterior ao registro.

Imagem G Laird / Geograph · CC BY-SA 2.0

Fonte Scottish Football Origins · Fonte da imagem — G Laird / Geograph

1786 Lennel, Coldstream, Escócia

O Berwick Museum or Monthly Literary Intelligencer noticiou uma partida em Lennel, perto de Coldstream, disputada exclusivamente por mulheres, divididas entre casadas e solteiras como mandava o costume. O relato descreve jogadoras entusiasmadas que só pararam quando escureceu. É o registro mais antigo que se conhece de um jogo organizado apenas entre mulheres.

O rio Tweed em Coldstream, nos Borders escoceses. Lennel, onde a partida de 1786 foi noticiada, fica nesta mesma curva do rio. Do jogo não restou imagem.

Imagem Euan Nelson / Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

Fonte Scottish Football Origins

1795 Fisherrow, Inveresk, Escócia

O Old Statistical Account of Scotland, volume XVI, na entrada da paróquia de Inveresk redigida pelo reverendo Alexander Carlyle, descreve as peixeiras do porto de Fisherrow, em Musselburgh. A frase, na página 19, registra uma partida fixa de futebol na terça-feira de carnaval entre as mulheres casadas e as solteiras. A expressão standing match indica costume já consolidado em 1795, não novidade. E as casadas venciam sempre. É a fonte primária mais sólida de toda a pré-história do futebol feminino.

Na terça-feira de carnaval há uma partida fixa de futebol entre as mulheres casadas e as solteiras, na qual as primeiras são sempre vencedoras.

Old Statistical Account of Scotland, vol. XVI, 1795
Peixeiras de Newhaven, calótipo de Hill e Adamson

Imagem Cleveland Museum of Art · CC0

Fonte The Statistical Accounts of Scotland, Universidade de Edimburgo · Scottish Football Origins

1869 Estados Unidos

A Harper's Bazar, revista de moda de Nova York, publicou em 1869 a gravura colorida The Girls of the Period Playing Ball. Ela mostra mulheres de saia longa e chapéu, no meio de um parque, disputando uma bola de gomos com pernas no ar e vestido levantado. Não é registro de partida organizada, é cena de costume, e é justamente isso que a torna valiosa: para virar piada de revista de moda, a imagem de mulheres correndo atrás de uma bola já precisava ser reconhecível pelo leitor. O título brinca com a expressão girls of the period, que na imprensa da época servia para descrever a jovem que não se comportava como se esperava.

Nota A gravura documenta a prática, não a modalidade: pela imagem não há como afirmar que fosse futebol como a Football Association o havia codificado seis anos antes.

The Girls of the Period Playing Ball, gravura colorida da Harper’s Bazar, 1869

Imagem Harper’s Bazar, 1869 · Domínio público

Fonte Harper's Bazar, 1869, acervo digitalizado · Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, coleções de periódicos ilustrados

7 de maio de 1881 Easter Road, Edimburgo

No Hibernian Park, em Edimburgo, aconteceu o jogo que a imprensa da época tratou como o primeiro internacional entre mulheres. A Escócia venceu por 3 a 0 e a Scottish FA registra Lily St Clair como a primeira goleadora feminina documentada da história. Um relato descreve o uniforme escocês: camisas azuis, calções brancos, cintos vermelhos e botas de salto alto. Era o primeiro de oito jogos de uma turnê comercial que atravessaria a Escócia e a Inglaterra em dois meses.

Nota Os nomes publicados pelos jornais eram nomes de palco. A turnê era um empreendimento comercial e as jogadoras se apresentavam sob pseudônimo, o que faz a mesma jogadora aparecer com nomes diferentes em cidades diferentes.

Recorte do Glasgow Herald de 9 de maio de 1881

Imagem Glasgow Herald, via donmouth.co.uk · Domínio público

Fonte Donmouth, England v Scotland 1881 · Scottish FA, 150 anos

16 de maio de 1881 Shawfield, Glasgow

O segundo jogo da turnê terminou em invasão violenta de campo. O Glasgow Herald registrou que a polícia presente foi obrigada a sacar os cassetetes e avançar contra a multidão. O jogo estava 0 a 0 quando foi abandonado. A turnê seguiu mesmo assim, com nova interrupção por tumulto em Manchester, em 21 de junho, quando a bilheteria teria sido roubada.

Recorte do Nottinghamshire Guardian de 20 de maio de 1881

Imagem Nottinghamshire Guardian, via donmouth.co.uk · Domínio público

Fonte Donmouth

19 de setembro de 1893 Nova Zelândia no mesmo tempo, no mundo

O governador Lord Glasgow sancionou o novo Electoral Act e a Nova Zelândia se tornou o primeiro país do mundo a dar às mulheres o direito de votar em eleições nacionais. A vitória veio depois de três petições massivas ao Parlamento, organizadas em 1891, 1892 e 1893 sob a liderança de Kate Sheppard. Em dezembro daquele ano as mulheres votaram pela primeira vez. Na mesma década, na Escócia e na Inglaterra, mulheres jogavam bola diante de milhares de pessoas sem que isso constasse de nenhum registro oficial.

Kate Sheppard, líder do sufrágio na Nova Zelândia

Imagem Alexander Turnbull Library · Domínio público

Fonte NZHistory, Ministry for Culture and Heritage

Fotografia de 1895 com as onze jogadoras do time do Norte do British Ladies' Football Club posadas diante de um muro de tijolos, de blusa escura, calção e meiões, com uma bola de couro no chão

Sala 2 · 1894 a 1921

O clube, a guerra e o auge

Entre 1894 e 1921 o futebol feminino teve o maior público da sua história, e depois foi desligado no auge. O British Ladies Football Club nasceu em Londres como projeto declaradamente político, com uma fundadora que dizia querer provar ao mundo que mulheres não eram criaturas ornamentais e inúteis. A Primeira Guerra colocou milhares de operárias nas fábricas de munição, e delas saíram os times que lotaram estádios ingleses: o Dick, Kerr Ladies estreou no Natal de 1917 diante de dez mil pessoas e, em 26 de dezembro de 1920, jogou em Goodison Park para cerca de 53 mil pagantes, com milhares barrados na rua. Só em 1921 o time fez 67 jogos vistos por perto de 900 mil pessoas. No Brasil, a evidência documental de mulheres jogando bola começa em 1915. Era o pico. Faltava um ano para a queda.

Time do Norte do British Ladies' Football Club, 1895, autoria desconhecida / Wikimedia Commons. Ao fundo, Vickers Vanguards, 1917 / Imperial War Museums, IWM 434 · Domínio público

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O clube, a guerra e o auge 1894 a 1921

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Fim de 1894 Londres, Inglaterra

O clube foi criado por Alfred Hewitt Smith e por Nettie Honeyball, pseudônimo provável de Mary Hutson. Lady Florence Dixie, filha do Marquês de Queensberry, viajante, correspondente de guerra e escritora, aceitou a presidência e o financiamento com uma condição: que as moças entrassem no espírito do jogo de corpo e alma. O treinador era Bill Julian, meia-direita do Tottenham Hotspur.

Nota Nettie Honeyball era pseudônimo. A identidade real por trás do nome nunca foi estabelecida.

Gravura de H. M. Paget do primeiro jogo do British Ladies Football Club, em Alexandra Park, publicada em The Graphic de 30 de março de 1895

Imagem H. M. Paget, The Graphic, 1895 · Domínio público

Leia também Florence Dixie assume o clube

Fonte Wikipedia, British Ladies Football Club · Spartacus Educational

Fim de 1894 Londres, Inglaterra

O primeiro clube de futebol feminino da Grã-Bretanha nasce no fim de 1894 e escolhe para presidi-lo Lady Florence Dixie, filha do Marquês de Queensberry, o mesmo que deu nome às regras do boxe. Ela sustentava que o futebol fazia bem ao corpo da mulher e que o jogo era uma arma contra a roupa que a prendia: não dava para correr atrás de uma bola de espartilho e saia até o chão, e era exatamente esse o ponto. Exigiu que as jogadoras entrassem em campo de corpo e alma, e não como atração de circo. Previu que um dia o futebol seria tão popular entre meninas quanto entre meninos, o que em 1894 soava absurdo. Em 23 de março de 1895, no Alexandra Park, em Crouch End, o time do Norte venceu o do Sul por 7 a 1 diante de cerca de 10 mil pessoas.

Lady Florence Dixie sentada de perfil num sofá listrado, com um chapéu de palha ao lado, caricatura da Vanity Fair de 1884
Jogadoras do British Ladies em campo no primeiro jogo do clube, de blusa clara e saia curta, diante de uma multidão e de um policial de guarda

Imagem The Graphic, 30 de março de 1895. Gravura de H. M. Paget, The first match of the British Ladies Football Club · Domínio público

Imagem Vanity Fair, 5 de janeiro de 1884. Litografia de Vincent Brooks, Day & Son, assinada por T · Domínio público

Leia também Nasce o British Ladies · Nem ornamentais, nem inúteis

Fonte Wikipedia, British Ladies' Football Club · Wikipedia, Lady Florence Dixie · The Scots Football Historians Group

1895 Londres e Escócia

Nascida em 1876 em Bootle, Lancashire, Emma Clarke jogou pelo time do Sul naquele 23 de março de 1895 e aparece na foto oficial do clube. Em 1896 integrou o Mrs Graham's XI em turnê pela Escócia, recebendo cerca de um xelim por semana mais despesas. Por décadas sua história foi confundida com a da goleira Carrie Boustead, que pesquisa posterior confirmou ser branca. Foi o pesquisador Stuart Gibbs quem desfez a confusão, ao reexaminar uma foto da turnê escocesa.

Emma Clarke, a primeira futebolista negra de que se tem registro

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Wikipedia, Emma Clarke

Fevereiro de 1895 Londres, Inglaterra

Em entrevista à imprensa londrina, Nettie Honeyball explicou por que havia fundado o clube, e foi muito além do esporte. Disse aguardar o tempo em que as mulheres poderiam ocupar assento no Parlamento e ter voz na condução dos assuntos públicos. O clube nasceu explicitamente como projeto político, e é por isso que a reação contra ele foi tão dura.

Fundei a associação no fim do ano passado, com a resolução firme de provar ao mundo que as mulheres não são as criaturas ornamentais e inúteis que os homens pintaram.

Nettie Honeyball, 1895
Nettie Honeyball em traje de futebol, The Sketch, fevereiro de 1895

Imagem National Football Museum, via donmouth.co.uk

Leia também Florence Dixie assume o clube

Fonte Spartacus Educational

23 de março de 1895 Alexandra Park, Crouch End, Londres

O primeiro jogo do British Ladies reuniu entre 10 e 11 mil espectadores no norte de Londres. O Norte, de vermelho, venceu o Sul por 7 a 1. As jogadoras entraram de blusas largas, calções pretos, botas de couro marrom e caneleiras, inspiradas no movimento Rational Dress, sem espartilho e sem salto. Ainda assim jogavam de boné, e a partida parava se uma cabeçada deslocasse o boné ou um grampo de cabelo.

Gravura de H. M. Paget do primeiro jogo do British Ladies, The Graphic

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Wikipedia, British Ladies Football Club · Spartacus Educational

1900 Paris, França no mesmo tempo, no mundo

Os Jogos de Paris de 1900 foram os primeiros a admitir mulheres. Elas foram 2,2% dos participantes. A tenista britânica Charlotte Cooper tornou-se uma das primeiras campeãs olímpicas. Da chegada delas até a paridade de vagas entre homens e mulheres, nos Jogos de Paris de 2024, passariam-se 124 anos.

Charlotte Cooper, primeira campeã olímpica

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte ONU Mulheres

9 de junho de 1914 Barcelona, Espanha

Criado em Barcelona com fim beneficente, para levantar fundos contra a tuberculose, o Spanish Girl's Club foi organizado e treinado por Paco Brú, ex-jogador, árbitro e treinador que passara por Barcelona, Espanyol e seleção espanhola, em apenas 45 dias de preparação. O primeiro jogo foi no campo do Espanyol, entre as duas divisões internas do clube, Montserrat de branco contra Giralda de vermelho. O último foi em 29 de junho de 1914, um dia depois do assassinato do arquiduque Francisco Fernando. A turnê prevista foi cancelada e o clube desapareceu com a guerra.

O Spanish Girl's Club em campo, foto de Josep Brangulí, 1914

Imagem Arxiu Nacional de Catalunya · Domínio público

Fonte National Geographic Historia

1915 Vila Isabel, Rio de Janeiro

A primeira evidência documental de brasileiras jogando bola é de 1915, numa festa esportiva do Villa Izabel Football Club, no Rio de Janeiro. A partida aconteceu no campo do zoológico, em Vila Isabel, e foi disputada pelas próprias associadas do clube. Era ambiente de festa, com circo, comida, baile e gincanas, completamente fora do calendário das ligas: adolescentes desciam da arquibancada para experimentar o jogo, às vezes entre elas, às vezes contra os meninos. Quem fixou essa data foi a historiadora Aira Bonfim, curadora do Museu do Futebol, que reuniu pelo menos 400 fontes primárias entre 1915 e 1941, com nomes de jogadoras, posições, análises de partida, fotografias e entrevistas delas. O livro que saiu dessa pesquisa organiza o período em três circuitos: as festas dos clubes, as companhias de circo e o subúrbio carioca. Vale registrar o que a pesquisa também desmontou: o jogo de 1913, por muito tempo citado como o primeiro do país, tinha homens travestidos em campo.

Capa de Futebol Feminino no Brasil, entre festas, circos e subúrbios, uma história social de 1915 a 1941, da historiadora Aira F. Bonfim, curadora do Museu do Futebol.

Reportagem do ge sobre as brasileiras que abriram caminho no futebol feminino, das primeiras décadas do século XX em diante.

ge tv · 7:36 · carrega no clique

Imagem Reprodução da capa. Aira F. Bonfim, Futebol Feminino no Brasil

Fonte Aira Bonfim ao Portal Vermelho, História do futebol de mulheres é de resistência · Onde comprar o livro de Aira F. Bonfim · Catarinas, sobre o livro de Aira Bonfim · Museu do Futebol, CRFB

1917 Ward End e Barrow, Inglaterra no mesmo tempo, no mundo

O filme Vickers Vanguards mostra por dentro as fábricas da Vickers em 1917: a montagem de espoletas para obuses de 18 libras, o torneamento de cartuchos, o corpo das granadas saindo do metal. Quem opera as máquinas, em sua maioria, são mulheres. É esse o chão que produziu o futebol feminino inglês do período. As munitionettes jogavam entre turnos, nos pátios das próprias fábricas, e os times saíram dali para os estádios: o Dick, Kerr Ladies nasceu numa fábrica de material de guerra em Preston, e o Blyth Spartans de Bella Reay era do mesmo mundo. A guerra tirou os homens do campo e da fábrica ao mesmo tempo, e as mulheres ocuparam os dois.

Fotograma de 1917: uma operária de touca opera um torno numa fábrica de munição da Vickers, com outras mulheres trabalhando ao fundo

Trecho de Vickers Vanguards, filme de 1917 do Imperial War Museums, com mulheres operando tornos nas fábricas da Vickers. O filme completo está no acervo do IWM.

Imperial War Museums, IWM 434 · 0:21 · carrega no clique

Imagem Imperial War Museums, IWM 434

Leia também As munitionettes e Bella Reay · O Dick, Kerr estreia no Natal

Fonte Imperial War Museums Film Archive, IWM 434, Vickers Vanguards

1917 Paris, França

Como as federações masculinas recusavam filiação a clubes femininos, mulheres francesas criaram em 1917 a sua própria estrutura, a Fédération des Sociétés Féminines Sportives de France. Alice Milliat se tornaria sua figura central e a maior articuladora do esporte feminino europeu do período. O primeiro campeonato francês, em 1919, teve apenas dois clubes, o Fémina Sport e o En Avant.

Alice Milliat, presidente da federação esportiva feminina francesa

Imagem Agence Rol, via Gallica e Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Donmouth, Football Féminin

Agosto de 1917 Blyth, Northumberland, Inglaterra

Formado por trabalhadoras das docas e das fábricas de munição, o Blyth Spartans Ladies teve como craque Bella Reay, filha de mineiro e operária de munição, nascida em 23 de agosto de 1900. Na temporada de 1917 e 1918 o time fez 30 jogos, com 26 vitórias e 4 empates, e Reay marcou 133 gols. Delas saiu também a primeira competição feminina organizada de que se tem notícia, a Munitionettes' Cup, disputada entre setembro de 1917 e maio de 1918.

Bella Reay, artilheira das munitionettes

Imagem Coleção Yvonne Crawford, via donmouth.co.uk

Leia também Dentro da fábrica de munição

Fonte Wikipedia, Bella Reay

25 de dezembro de 1917 Deepdale, Preston, Inglaterra

O time se formou na fábrica Dick, Kerr & Co. de Preston, em Lancashire, que produzia material bélico. A primeira partida registrada foi no Natal de 1917, em Deepdale: 4 a 0 sobre o Arundel Coulthard Factory diante de 10 mil pessoas. As jogadoras recebiam 10 xelins por jogo, a título de despesas. A tradição da fábrica atribui a ideia a Grace Sibbert, operária cujo marido estava preso na Alemanha, e o escriturário Alfred Frankland assumiu a organização. Nos 48 anos de existência o clube arrecadaria cerca de 180 mil libras para caridade, mais de 10 milhões em valores atuais.

O Dick, Kerr Ladies em 1917, com Grace Sibbert

Cinejornal de 1921 com o Dick, Kerr Ladies em campo, no ano em que o time fez 67 jogos e foi banido pela Football Association.

British Pathé · 1:14 · carrega no clique

Imagem Arquivo Gail Newsham

Leia também Dentro da fábrica de munição · Quem salvou a memória

Fonte Wikipedia, Dick, Kerr Ladies · dickkerrladies.com

1920 Preston, Inglaterra

Nascida em 26 de abril de 1905 em St Helens, Lily Parr chegou ao Dick, Kerr aos 14 anos, vinda do St Helens Ladies, e ficou no clube até 1951. Ponta-esquerda de chute lendário, viveu com sua companheira Mary em Goosnargh e morreu em 1978. Em 2002 tornou-se a única mulher entre os indutores inaugurais do English Football Hall of Fame e, em junho de 2019, a primeira futebolista mulher a ganhar uma estátua, no National Football Museum.

Nota Os gols de Lily Parr são contados por estimativa: as somas vão de 967 a 986 na carreira, porque a maior parte daqueles jogos não tinha súmula oficial.

Lily Parr, do Dick, Kerr Ladies

O Arquivo Nacional britânico conta a trajetória de Lily Parr, a maior craque do futebol feminino inglês antes do banimento de 1921.

The National Archives UK · 2:07 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Leia também Quem salvou a memória

Fonte Wikipedia, Lily Parr

Abril de 1920 Preston, Stockport, Manchester e Londres

O Dick, Kerr Ladies recebeu uma seleção francesa montada em torno de clubes parisienses e liderada por Alice Milliat. A primeira partida, em 30 de abril de 1920, em Deepdale, diante de cerca de 25 mil pessoas, é geralmente creditada como o primeiro internacional feminino moderno. A série seguiu por Stockport, Manchester e Stamford Bridge, em Londres, onde a França venceu por 2 a 1. Na volta, em outubro e novembro, o time inglês percorreu a França e reuniu, por números do próprio clube, mais de 62 mil espectadores em quatro jogos.

A disputa no barro: jogadoras de listras e de camisa lisa correm atrás da bola num campo encharcado, na série de internacionais do começo dos anos 1920.

Imagem Fotografia de imprensa, anos 1920 / Vintage Everyday · Domínio público

Leia também O cumprimento antes do apito · O Preston volta a viajar

Fonte Donmouth · Playing Pasts

1920 Inglaterra

As duas capitãs se encontram no meio do campo antes do apito inicial, com a bola no chão entre elas. Uma veste a camisa lisa, a outra a listrada, as duas de boina, meião e chuteira de couro. A fotografia é de 1920, o ano em que o Dick, Kerr Ladies recebeu a seleção francesa de Alice Milliat e o futebol de mulheres teve os seus primeiros internacionais modernos. O gesto não era protocolo de federação, porque federação nenhuma reconhecia aqueles jogos: era protocolo delas. Enquanto a Football Association preparava o argumento de que o futebol era inadequado ao corpo feminino, elas já tinham cerimônia, uniforme, capitã, calendário e público de dezenas de milhares. Um ano e meio depois deste aperto de mão a FA fecharia os campos ingleses, e o gesto viraria contravenção.

As capitãs dos times inglês e francês se cumprimentam antes do apito, em 1920.

Imagem Fotografia de imprensa, 1920 / Vintage Everyday · Domínio público

Leia também Os primeiros internacionais modernos · A Football Association proíbe

Fonte Vintage Everyday, A Kiss Before the Women's Football Game, 1920 · Playing Pasts, The Forgotten Pioneers, international women's football in the interwar period

26 de dezembro de 1920 Goodison Park, Liverpool

No Boxing Day de 1920, o Dick, Kerr Ladies venceu o St Helens Ladies por 4 a 0 diante de cerca de 53 mil espectadores, com estimativas de 10 a 14 mil pessoas barradas do lado de fora. A renda, 3.115 libras da época, foi para o fundo de assistência a ex-combatentes desempregados. O recorde de público de um jogo de clubes femininos na Inglaterra duraria 98 anos. Onze meses depois, a Football Association usaria justamente o argumento financeiro para banir o jogo.

Nota Não havia bilheteria auditada em 1920. O National Football Museum registra pelo menos 46 mil pessoas dentro do estádio; o Lancashire Evening Post da época falou em 53 mil, número que se firmou nos registros do clube.

O Dick, Kerr Ladies de mãos dadas em roda

Imagens de arquivo de um jogo feminino inglês em 1921, no auge de público que antecedeu o banimento.

British Pathé · 0:48 · carrega no clique

Imagem efcstatto.com

Fonte National Football Museum · Wikipedia, Dick, Kerr Ladies 4-0 St Helens Ladies

1921 Inglaterra

Só em 1921 o Dick, Kerr Ladies fez 67 partidas, vistas por cerca de 900 mil pessoas, pelos registros do próprio clube. Era o momento de maior alcance popular que o futebol feminino teria por meio século. É importante fixar esse número antes de ler o marco seguinte: a Football Association não desligou um esporte fracassado. Desligou um esporte que estava crescendo rápido demais.

O elenco do Dick, Kerr Ladies

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte dickkerrladies.com

1921 Zona norte de São Paulo

Partida entre senhoritas dos bairros de Tremembé e Cantareira, no campo do Tremembé F.C., na zona norte de São Paulo. É o registro mais consolidado do futebol feminino brasileiro. O jornal A Gazeta cobriu o jogo, mas o enquadrou como atração curiosa e cômica das festas juninas, não como esporte. Esse enquadramento, o do futebol feminino como espetáculo e não como competição, é o que a modalidade levaria décadas para se livrar.

Anúncio de Tremembé x Cantareira publicado em A Gazeta em 26 de junho de 1921, página 2. Fac-símile reproduzido em pesquisa do Repositório UNESP.

Imagem A Gazeta, 26/6/1921, p. 2 / reprodução via Repositório UNESP

Leia também As vascaínas · O circo como negócio

Fonte Ludopédio · Última Divisão · Brasil de Fato, o futebol feminino surge nos anos 20 e é proibido até 79 · Fonte da imagem — A Gazeta, 26/6/1921, p. 2 / reprodução via Repositório UNESP

Jogadoras em exercício no campo, no filme Quite Unfit for Females (1921), preservado pelo BFI National Archive.

Sala 3 · 1921 a 1941

O mundo fecha a porta

Em 5 de dezembro de 1921 a Football Association inglesa declarou o futebol inadequado para mulheres e mandou seus clubes filiados recusarem os campos. Não foi caso isolado: foi o começo de um efeito dominó. País de Gales proibiu em março de 1922, o Canadá em setembro do mesmo ano, o CONI fascista fechou o primeiro clube feminino italiano em 1933, a Iugoslávia proibiu em 1939, e a França de Vichy tornou a prática ilegal em 1941. O Brasil fez a versão mais dura de todas. Aqui não foi resolução de entidade privada, foi o Decreto-Lei nº 3.199, assinado pelo presidente Getúlio Vargas em 14 de abril de 1941, cujo artigo 54 proibia às mulheres os desportos incompatíveis com as condições de sua natureza. Três meses antes, uma dirigente de time feminino carioca já havia sido presa.

Quite Unfit for Females (1921) / Topical Budget / BFI National Archive — trecho de 0:19 a 0:24

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O mundo fecha a porta 1921 a 1941

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5 de dezembro de 1921 Londres, Inglaterra

O Conselho da FA aprovou a resolução que apagaria o futebol feminino inglês por meio século, declarando o jogo inadequado para o sexo feminino e pedindo aos clubes filiados que recusassem seus campos. A resolução alegava ainda irregularidade financeira, dizendo que proporção excessiva das receitas era absorvida em despesas. A justificativa médica invocada na época incluía a opinião da doutora Mary Scharlieb, para quem o futebol era demais para a estrutura física de uma mulher. A capitã Alice Kell respondeu que as garotas tinham o direito de jogar se assim quisessem, e que jogavam por amor ao jogo.

Tendo sido feitas queixas quanto ao futebol praticado por mulheres, o Conselho se sente compelido a expressar sua firme opinião de que o jogo de futebol é bastante inadequado para o sexo feminino e não deve ser encorajado.

Conselho da Football Association, 5 de dezembro de 1921
Alice Kell, capitã do Dick, Kerr Ladies

O título do filme de arquivo do BFI é a própria frase usada pela Football Association ao banir o futebol feminino em dezembro de 1921.

BFI · 0:58 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Leia também O cumprimento antes do apito · França e Bélgica avançam · O Preston volta a viajar · O time de Granville · Jogo na neve, em Manchester

Fonte The FA, Kicking Down Barriers · Dick, Kerr Ladies, The FA Ban

17 de dezembro de 1921 Blackburn, Inglaterra

Cinco dias depois da proibição, representantes de cerca de 30 times já haviam se reunido em Liverpool. Em 17 de dezembro, em Blackburn, o encontro reuniu 57 clubes e fundou a English Ladies Football Association, presidida por Leonard Bridgett, de Stoke. A entidade organizou uma Challenge Cup em 1922 com 24 times, vencida pelo Stoke Ladies sobre o Doncaster and Bentley Ladies por 3 a 1. Durou pouco mais de um ano.

As jogadoras do Stoke Ladies com a taça da ELFA, 1922

Imagem Acervo Jayne Bridgett, via donmouth.co.uk

Fonte Wikipedia, English Ladies Football Association

1922 País de Gales e Canadá

A Football Association of Wales proibiu o futebol feminino em março de 1922, após queixas de congregações religiosas, e endureceu a redação em 1939. Em 5 de setembro de 1922, a Dominion of Canada Football Association fez o mesmo, seguindo o precedente inglês. A proibição galesa só cairia em 29 de maio de 1970, antes da inglesa. O padrão se repetiria em vários países: quando a FA bania, o resto do império e do circuito seguia.

Equipe feminina da fábrica de munições de Welshpool, no País de Gales, em 1915, antes da proibição adotada pela federação galesa em 1922.

Imagem Y Lanfa Powysland Museum / Reprodução Biblioteca Nacional do País de Gales

Fonte Wikipedia, Bans of women's association football · Fonte da imagem — Y Lanfa Powysland Museum / Reprodução Biblioteca Nacional do País de Gales

1922 Paris, França no mesmo tempo, no mundo

Depois de pedir sem sucesso que a federação internacional de atletismo admitisse mulheres, a francesa Alice Milliat fundou em 1921 a Federação Internacional de Esportes Femininos e em 20 de agosto de 1922 organizou em Paris, no Stade Pershing, os primeiros Jogos Olímpicos Femininos, com atletas de cinco países diante de cerca de 20 mil pessoas. O sucesso forçou a negociação: Milliat aceitou tirar a palavra olímpico do nome em troca da entrada do atletismo feminino nos Jogos oficiais. Houve mais três edições, em 1926, 1930 e 1934.

Alice Milliat, presidente da federação esportiva feminina francesa

Imagem Agence Rol, via Gallica e Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte World Athletics · Brasil de Fato

Setembro de 1922 Canadá e Estados Unidos

Mesmo banido na Inglaterra, o Dick, Kerr Ladies embarcou para nove semanas de turnê na América do Norte, chegando a Quebec em 22 de setembro de 1922. A federação canadense proibiu que jogassem no Canadá, o que as empurrou para os Estados Unidos. Lá, sem adversárias mulheres, enfrentaram nove times masculinos: três vitórias, três empates e três derrotas, diante de públicos de 4 a 10 mil pessoas. O goleiro do Paterson, Peter Renzulli, resumiu que eram campeões nacionais e tiveram um trabalho danado para vencê-las.

O Dick, Kerr Ladies em campo em Washington, 1922

Cinejornal de 1922, ano seguinte ao banimento, com o Dick, Kerr Ladies ainda em atividade e a caminho da turnê norte-americana.

British Pathé · 1:04 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Wikipedia, Dick, Kerr Ladies · dickkerrladies.com

1923 a 1926 Rio de Janeiro

Em 1923 o Vasco venceu o campeonato carioca com um time de negros, brancos pobres e operários, os camisas negras, e o efeito atravessou o muro do futebol masculino. Entre 1923 e 1926 formaram-se equipes de mulheres mobilizadas por aquele torneio, e as vascaínas foram jogar no campo do próprio clube. Elas vinham de outra cartografia da cidade, a que estava chegando ao subúrbio, e é essa a diferença que importa: não eram sócias de clube de elite fazendo esporte de salão, eram moças de bairro ocupando o gramado do campeão. A pesquisa da historiadora Aira Bonfim reúne esse período a partir da imprensa da época, e ele desmente a ideia de que o futebol de mulheres no Brasil começou como curiosidade isolada. Era um circuito.

Time de futebol feminino do Vasco da Gama nos anos 1920, quando o título carioca dos camisas negras mobilizou mulheres a formarem as próprias equipes.

Imagem Reprodução, anos 1920 / Acervo O Globo · Domínio público

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Fonte Aira Bonfim ao Portal Vermelho, História do futebol de mulheres é de resistência · Acervo O Globo, a proibição que sabotou o esporte no Brasil

1924 e 1925 França e Bélgica

Três anos depois de a Football Association fechar os campos ingleses, França e Bélgica disputaram em 1924 o primeiro internacional pleno em padrão moderno de que se tem registro no mundo. Não era exibição de fábrica nem atração de festa: era seleção contra seleção, com regras e calendário. No ano seguinte as duas foram além e mantiveram uma liga com times dos dois países, algo que nenhuma federação masculina havia tentado ainda. Os dois países já eram os únicos com campeonato nacional feminino. Em 1926 eram também os únicos onde o jogo seguia forte: nos outros, tinha sido reduzido a partidas ocasionais de feira. O Dick, Kerr, sem campos para jogar na Inglaterra, havia migrado para o hóquei.

O Femina Sport perfilado no Stade Élisabeth, em Paris, em abril de 1927. O clube era um dos pilares do futebol francês que seguiu adiante enquanto a Inglaterra fechava os campos.

Imagem Agence Rol, 1927 / Biblioteca Nacional da França, via Wikimedia Commons · Domínio público

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Fonte Playing Pasts, The Forgotten Pioneers, o futebol feminino internacional entre as guerras

1928 Amsterdã, Holanda no mesmo tempo, no mundo

O atletismo feminino entrou nos Jogos de 1928 como teste, com apenas cinco provas, e as atletas bateram 18 recordes mundiais. Mas a suposta exaustão das corredoras na final dos 800 metros deu ao Comitê Olímpico a desculpa para retirar a prova do programa. As mulheres só voltariam a correr 800 metros em Jogos Olímpicos em 1960, em Roma. Até 1984 a distância máxima permitida a elas foi de 1.500 metros. O argumento é exatamente o mesmo que o Brasil usaria em 1941 contra o futebol: o corpo feminino não aguenta.

A chegada da final dos 800 metros nos Jogos de Amsterdã, 1928

Imagem Spaarnestad Photo, via Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte World Athletics

1930 Frankfurt, Alemanha

Aos 19 anos, Lotte Specht, filha de açougueiro de Frankfurt, publicou um anúncio de jornal procurando jogadoras. As respondentes se reuniram na taberna Steinernes Haus e fundaram o 1. Deutscher Damenfußballclub, com dois times treinando na Seehofwiese. A reação da imprensa foi de escárnio e os espectadores homens hostilizavam as jogadoras. O clube se dissolveu em 1931, em menos de um ano. Em 2014 Frankfurt rebatizou um campo como Lotte-Specht-Park.

Lotte Specht, fundadora do primeiro clube feminino alemão

Imagem Beves Welt / Axel Hoffmann

Fonte Football Makes History · Wikipedia, Lotte Specht

Anos 1930 Rio de Janeiro e Brasil

Companhias circenses levaram times femininos por todo o Brasil nas décadas de 1920 e 1930, e foram o principal vetor de difusão nacional da modalidade antes da proibição. No Rio, formou-se um circuito suburbano com mais de 15 equipes, cobertas por grandes jornais com fotos e descrições técnicas: Casino de Realengo, Eva, Valquere, Independentes, Del Castillo, Brasil Novo, River, Primavera e outras. Moças também formaram times com as insígnias de Fluminense, Flamengo e Vasco, jogando nas festas esportivas organizadas pelos próprios clubes. O futebol feminino já esteve dentro dos grandes clubes cariocas, e foi expulso de lá.

Jogadoras do S.C. Brasileiro e do Valqueire disputando a bola

Imagem Diário da Noite, maio de 1940, via Dibradoras · Domínio público

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Fonte Ludopédio, A primavera do futebol feminino · Catarinas

Anos 1920 e 1930 Brasil

O circo não hospedava o futebol de mulheres por acaso: ele já tinha a estrutura que faltava ao esporte, bilheteria, arquibancada e um espetáculo montado para receber público. E os produtores encontraram a fórmula. O espetáculo era vendido em duas partes: primeiro as atrações conhecidas do circo, depois o torneio de futebol. O ingresso ia para a sexta, o sábado e a final no domingo, como um campeonato. Convidavam gente dos clubes, vestiam as jogadoras com as camisas e as cores da cidade e fabricavam a rivalidade dentro do próprio espetáculo. A segunda parte era vendida justamente como aquilo que o circo não tinha: algo imprevisível, cujo fim ninguém conhecia. Enquanto as ligas não ofereciam calendário a mulher nenhuma, foi o negócio do entretenimento que pagou para vê-las jogar.

A Praça Onze, no Rio de Janeiro, em bilhete postal do começo do século. Era em praças assim que o circo montava a bilheteria e a arquibancada que faltavam ao futebol de mulheres.

Imagem Bilhete postal, Ed. N. Viggiani / Wikimedia Commons · Domínio público

Leia também O circo e o subúrbio carioca · Tremembé x Cantareira, em São Paulo

Fonte Aira Bonfim ao Portal Vermelho, História do futebol de mulheres é de resistência

1932 Los Angeles, Estados Unidos no mesmo tempo, no mundo

Aos 17 anos, Maria Lenk competiu na natação nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1932, e se tornou a primeira mulher sul-americana a disputar uma Olimpíada. Em 1936, nos Jogos de Berlim, foi pioneira da técnica do nado borboleta, que só seria reconhecida como estilo olímpico em 1956. Em 8 de novembro de 1939 estabeleceu recorde mundial nos 200 metros peito, com marca superior ao recorde masculino da época, e virou a primeira atleta brasileira a bater um recorde mundial.

Maria Lenk nadando

Imagem Los Angeles Daily News, via Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Comitê Olímpico do Brasil, Hall da Fama

24 de fevereiro de 1932 Brasil no mesmo tempo, no mundo

O Decreto nº 21.076, assinado pelo governo provisório de Getúlio Vargas, instituiu o Código Eleitoral brasileiro, criou a Justiça Eleitoral e permitiu que mulheres alfabetizadas maiores de 21 anos se alistassem como eleitoras. Em maio de 1933, as mulheres votaram pela primeira vez, para a Assembleia Constituinte, e a médica Carlota Pereira de Queirós tornou-se a primeira mulher eleita para o Congresso. Nove anos depois, o mesmo governo proibiria a mulher brasileira de jogar futebol.

Carlota Pereira de Queiroz, primeira deputada federal do Brasil

Imagem Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã · Domínio público

Fonte Câmara dos Deputados, texto do decreto · Câmara dos Deputados, cronologia do voto feminino

17 de maio de 1932 Brasil no mesmo tempo, no mundo

O Decreto nº 21.417-A regulou o trabalho da mulher na indústria e no comércio. O artigo 1º é direto e vale ser lido inteiro. O decreto também proibiu o trabalho feminino entre 22h e 5h, garantiu quatro semanas de afastamento antes e depois do parto com auxílio de metade do salário, e dois descansos diários de meia hora para amamentação. No papel, o Brasil tinha igualdade salarial nove anos antes de proibir o futebol feminino.

Sem distinção de sexo, a todo trabalho de igual valor correspondente salário igual.

Decreto nº 21.417-A, artigo 1º, 1932
Getúlio Vargas em 1930. Foi ele quem assinou o decreto que pôs no papel o salário igual para trabalho de igual valor, nove anos antes de assinar o que proibiu o futebol de mulheres.

Imagem Governo do Brasil / Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Câmara dos Deputados

Fevereiro de 1933 Milão, Itália

Foi criado em Milão o Gruppo Femminile Calcistico, primeiro clube feminino organizado da Itália. Durou cerca de nove meses. O CONI, o comitê olímpico do regime fascista, interveio para impedir que o fenômeno pegasse e proibiu as mulheres de jogar. A Itália só teria uma federação feminina estruturada 35 anos depois, em 1968.

As jogadoras do Gruppo Femminile Calcistico entrando em campo em Milão, 1933

Imagem Arquivo Sorelle Boccalini

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Fonte Wikipedia, Women's football in Italy

1935 França

O Dick, Kerr Ladies, agora Preston Ladies, deixou as ilhas britânicas em 1935 para enfrentar a seleção francesa. Era a primeira viagem do time para fora do país em quinze anos, desde a série contra a França em 1920. No intervalo entre uma e outra cabe a resolução da Football Association, a perda dos campos, a migração para o hóquei e a lenta reconstrução. O contato com o Fémina Sport tinha sido retomado no começo da década e rendeu excursões entre 1932 e 1938, e times belgas cruzaram para a Grã-Bretanha em 1934 e 1939. O banimento inglês nunca conseguiu o que prometia: ele empurrou o jogo para fora do calendário, não para fora do mundo.

As capitãs Carmen Pomies, do Femina de Paris, e Florrie Redford, do Dick, Kerr de Preston, na revista argentina El Gráfico. Foram elas que mantiveram a ponte entre a Inglaterra e a França ao longo de quinze anos.

Imagem El Gráfico, Buenos Aires / Wikimedia Commons · Domínio público

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Fonte Playing Pasts, The Forgotten Pioneers, o futebol feminino internacional entre as guerras

1938 Áustria, Tchecoslováquia e Iugoslávia

Na segunda metade dos anos 1930 o eixo do futebol de mulheres deixou de ser o Canal da Mancha e passou a ser a Europa Central. Áustria e Tchecoslováquia puxaram o movimento, a Iugoslávia entrou em 1938 e os três países formaram o centro do desenvolvimento da modalidade às vésperas da guerra. A Áustria se tornou o terceiro país do mundo a disputar um campeonato nacional feminino, depois de França e Bélgica, e os jogos internacionais entre clubes eram frequentes. O florescimento durou pouco e não foi uma federação que o encerrou desta vez: foi a política. Em setembro de 1939 a Europa tinha outro assunto, e quando a guerra acabou não sobrou nem o campeonato austríaco nem a rede que o sustentava.

Jogadoras do Vindobona, com reforços do Austria, antes de uma partida em Brno. Registro publicado em 1937, anterior ao marco de 1938.

Imagem Illustrierte Kronen-Zeitung, 1/4/1937 / ANNO–Biblioteca Nacional da Áustria; reprodução via Wien Museum

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Fonte Playing Pasts, The Forgotten Pioneers, o futebol feminino internacional entre as guerras · Fonte da imagem — Illustrierte Kronen-Zeitung, 1/4/1937 / ANNO–Biblioteca Nacional da Áustria; reprodução via Wien Museum

7 de maio de 1940 Rio de Janeiro, Brasil

José Fuzeira, um cidadão sem qualquer credencial esportiva, que ele próprio admitia não ter, escreveu ao presidente argumentando que o futebol desequilibraria a balança psicológica das funções orgânicas da mulher, feita pela natureza para ser mãe. Projetou que em um ano o Brasil teria 200 clubes femininos, e chamou isso de 200 centros destruidores de saúde de 2.200 futuras mães. A carta foi publicada no Diário da Noite e é o documento mais citado como gatilho simbólico da proibição.

Duzentos centros destruidores de saúde de 2.200 futuras mães.

José Fuzeira, em carta a Getúlio Vargas, 1940

Nota A carta é de maio de 1940 e o decreto que proibiu o futebol feminino veio em abril de 1941. A pesquisa histórica trata o documento como retrato do clima da época, e não como a causa isolada da proibição.

Página do Diário da Noite de 7 de maio de 1940

Imagem Diário da Noite, via Dibradoras · Domínio público

Fonte Museu do Futebol, Contra-Ataque · Revista Tempo, SciELO

10 de maio de 1940 Rio de Janeiro, Brasil

Três dias depois da carta de Fuzeira, a jogadora Margarida Pereira, que assinava Adyragram, Margarida ao contrário, respondeu no Jornal dos Sports. Refutou os argumentos com ironia e convidou Fuzeira a assistir a um jogo. É o primeiro registro conhecido de uma jogadora brasileira defendendo publicamente o direito de jogar, e merece pelo menos tanto espaço quanto a carta que ela desmontou.

Este senhor é desconhecido do esporte, e portanto lhe faltava autoridade para discuti-lo.

Margarida Pereira, Adyragram, Jornal dos Sports, 1940

Fonte Museu do Futebol, Contra-Ataque

17 de maio de 1940 Estádio Municipal do Pacaembu, São Paulo

O S. C. Brasileiro venceu o Casino de Realengo por 2 a 0, com gols de Zizinha e Sarah, em partida preliminar de São Paulo e Flamengo que marcou a inauguração da iluminação do estádio. A repercussão nacional foi polarizada: parte da imprensa paulista celebrou, outra publicou argumentos pseudocientíficos sobre danos à saúde reprodutiva. Onze meses depois viria o decreto.

Nota Os 65 mil espectadores registrados naquele dia são do evento inteiro. O jogo das mulheres foi a preliminar.

A cobertura da estreia no Pacaembu, em maio de 1940: o jornal chama a partida de novidade e elogia o futebol de técnica apreciável das jogadoras.

Imagem Diário Paulistano, maio de 1940 / Acervo O Globo · Domínio público

Leia também O convite ao Primavera

Fonte Dibradoras · Museu do Futebol, As pioneiras do Pacaembu · Dibradoras, há 80 anos o 1º jogo de mulheres no Pacaembu · Acervo O Globo, a proibição que sabotou o esporte no Brasil

1940 Rio de Janeiro

O Primavera Athletic Club, fundado em 4 de maio de 1940 e vencedor de 15 dos seus 17 primeiros jogos, recebeu um convite para excursionar pela América Latina. Para a historiadora Aira Bonfim, é aí que está o ponto nevrálgico da proibição brasileira. O incômodo deixa de ser moças jogando bola num campo de subúrbio e passa a ser quem representa o Brasil fora dele. Quem sairia em campo com o nome do país seriam mulheres periféricas, pretas e jovens, e a seleção masculina já vinha vivendo episódios de racismo e classismo pela mesma razão nos anos 1920. Três meses depois do convite a dirigente do clube estava presa, e nove meses depois o futebol feminino era ilegal por decreto. O discurso oficial falaria em proteger o corpo da mulher; o que estava em disputa era a representação.

Jogadoras do Primavera A. C. em visita à redação de O Globo. Registro publicado em 15 de janeiro de 1941, posterior ao convite narrado neste marco.

Imagem O Globo, 15/1/1941, p. 7 / reprodução via Ludopédio

Leia também Presa antes de existir a lei · O Brasil proíbe por decreto · Elas estreiam no Pacaembu

Fonte Aira Bonfim ao Portal Vermelho, História do futebol de mulheres é de resistência · Acervo O Globo, a proibição que sabotou o esporte no Brasil · Fonte da imagem — O Globo, 15/1/1941, p. 7 / reprodução via Ludopédio

1941 França

A Fédération Française de Football já havia formalizado posição contrária em 1933. Em 1941, o regime de Vichy tornou o futebol feminino ilegal na França. A proibição só cairia em março de 1970, e ainda assim com restrições iniciais de tamanho de bola e duração de jogo. É o mesmo ano do decreto brasileiro, sob regimes autoritários diferentes, com o mesmo argumento.

Jean Borotra, comissário de esportes do regime de Vichy

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Wikipedia, Bans of women's association football

11 de janeiro de 1941 Rio de Janeiro, Brasil

D. Carlota Alves Rezende, responsável pelas jogadoras do Primavera Athletic Club, foi presa sob acusação de exploração das atletas. Em 15 de janeiro, as próprias jogadoras foram à redação de O Globo defendê-la publicamente. O episódio antecede em três meses o decreto e mostra que a repressão já operava por via policial antes de virar lei. O Primavera, fundado em 4 de maio de 1940, tinha vencido 15 dos seus primeiros 17 jogos.

A página que anunciou o fim: o time perfilado, o retrato de dona Carlota e a manchete O futebol feminino terminou na cadeia. A linha fina acusa as jogadoras de terem virado bailarinas de cabaré e informa que a polícia as levou presas, com indumentária e tudo.

Imagem Reprodução de jornal, 1941 / Acervo O Globo · Domínio público

Leia também O convite ao Primavera

Fonte Ludopédio · Acervo O Globo, a proibição que sabotou o esporte no Brasil · Museu do Futebol, Dia da Proibição do Futebol Feminino

14 de abril de 1941 Brasil

Assinado por Getúlio Vargas e por Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde, e publicado em 16 de abril, o Decreto-lei 3.199 criou o Conselho Nacional de Desportos e, no artigo 54, vedou às mulheres os desportos incompatíveis com as condições de sua natureza. Repare na engenharia jurídica: o decreto não nomeia o futebol. Delega ao CND dizer o que é incompatível. Essa delegação é o que torna 1965 decisivo. E é o que faz a proibição brasileira ser mais dura que a inglesa: aqui foi lei do Estado, não regra de entidade privada. O veto foi assinado por Getúlio Vargas e mantido por todos os presidentes que vieram depois, atravessando a redemocratização de 1945, os governos eleitos dos anos 1950 e 1960 e a ditadura militar. Não foi o ato de um governo: foi o consenso de todos eles por 38 anos.

Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.

Decreto-lei 3.199, artigo 54, 14 de abril de 1941
O Imparcial de 10 de maio de 1940 conta o caminho do protesto: a carta aberta de José Fuzeira ao chefe da nação, o encaminhamento de Getúlio Vargas ao ministro Gustavo Capanema e a aposta de que o esporte seria extinto. O decreto viria onze meses depois.

A BBC Brasil reconstrói os argumentos pseudocientíficos usados para justificar a proibição do futebol feminino no Brasil e em outros países.

BBC News Brasil · 10:33 · carrega no clique

Imagem O Imparcial, 1940, via Dibradoras / UOL · Domínio público por idade

Leia também O convite ao Primavera · O prefeito foi assistir · O centro vira a Europa Central · O time de Granville

Fonte Planalto, texto integral do decreto · Câmara dos Deputados · Arquivo S do Senado, o futebol feminino já foi proibido e a CPI pediu a legalização · Brasil de Fato, o futebol feminino surge nos anos 20 e é proibido até 79 · Memórias Reveladas, o futebol feminino já foi proibido no Brasil e a política tem tudo a ver com isso · Museu do Futebol, Dia da Proibição do Futebol de Mulheres

Manchete de jornal de 1941: Proibidas as mulheres de jogar futebol. O Conselho Nacional de Esportes aprovou as conclusões do general Newton Cavalcanti

Sala 4 · 1941 a 1970

Trinta e oito anos no escuro

A proibição brasileira durou de 1941 a 1979, e o que a tornou eficaz não foi o decreto, foi a Deliberação nº 7 do Conselho Nacional de Desportos, de 2 de agosto de 1965, já sob a ditadura militar, que finalmente nomeou o futebol na lista do que estava vedado. Nesse intervalo o esporte não desapareceu, foi empurrado para as beiradas. O Araguari Atlético Clube, de Minas Gerais, montou um time em 1958 que lotou o Independência em Belo Horizonte e foi extinto em nove meses. Na Alemanha o DFB proibiu em 30 de julho de 1955 e mesmo assim um jogo em Essen levou 18 mil pessoas em 1956. Na Inglaterra o Manchester Corinthians venceu em Berlim, em 1957, um torneio europeu que nenhuma federação reconhecia. O jogo continuou existindo. Só não podia existir oficialmente.

Diário da Manhã, setembro de 1941 / Acervo reproduzido por Dibradoras · Domínio público

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Trinta e oito anos no escuro 1941 a 1970

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Janeiro de 1942 Rio de Janeiro, Brasil no mesmo tempo, no mundo

Escrito em 1941 por Mário Lago e Ataulfo Alves e gravado em janeiro de 1942, o samba consagrou o modelo de mulher de verdade: a que lavava, passava, cozinhava e não reclamava. A canção nasceu no mesmo momento histórico em que o Estado proibia a mulher brasileira de jogar futebol, e o nome amélia virou substantivo comum para designar a mulher submissa. A Amélia real era Amélia dos Santos Ferreira, lavadeira do Encantado, no Rio, que sustentava nove ou dez filhos.

Ataulfo Alves, coautor de Ai Que Saudades da Amélia

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Jornal Opção, sobre a criação da música por Mário Lago

Setembro de 1942 Granville, Sydney, Austrália

Dezoito jogadoras do time feminino de Granville, em Sydney, perfiladas num muro contra o céu, uma delas segurando a bola de couro. A fotografia é de setembro de 1942. No mesmo ano em que o futebol de mulheres era ilegal no Brasil por decreto e proibido na Inglaterra por resolução da federação, havia times e partidas por toda a Austrália, com o país em guerra. O acervo australiano é franco sobre o limite disso: as jogadoras não eram levadas a sério, e um cinejornal de uma partida em Sydney em 1944 mostra exatamente o tom de deboche com que a imprensa as tratava. Existir não era o mesmo que ser reconhecida. Mas elas existiam, e alguém apontou uma câmera para elas.

O time feminino de Granville, em Sydney, em setembro de 1942.

Imagem Time feminino de Granville, 1942 / with the ball at HER feet

Leia também O Brasil proíbe por decreto · A Football Association proíbe · Jogo na neve, em Manchester

Fonte with the ball at HER feet, o jogo nacional nos anos 1940

1944 Fallowfield, Manchester, Inglaterra

Vinte e três anos depois de a Football Association fechar os campos ingleses, operárias de duas fábricas de aviões, a Fairey e a A. V. Roe, jogaram num gramado coberto de neve em Fallowfield, Manchester. A Fairey venceu por 6 a 0. O que faz desta partida um documento não é o placar: é quem estava lá com uma câmera. O Ministério da Informação britânico mandou um fotógrafo, registrou nove imagens e distribuiu como propaganda de moral em plena guerra. O mesmo Estado que deixara a federação declarar o jogo inadequado às mulheres agora publicava fotografias delas jogando, porque naquele momento convinha. As legendas originais trazem os nomes, o que é raro no período: a capitã da Fairey, Alice Cocker, levando o time para o campo; a capitã da A. V. Roe, Peggy Nuttall, jogando a moeda; o árbitro W. H. Dupois; o treinador O'Conner posando com as vencedoras. O banimento seguiria de pé por mais vinte e seis anos.

O time da Fairey com o treinador O'Conner, depois da vitória por 6 a 0 sobre a A. V. Roe no campo do Manchester Athletic Club, em Fallowfield.
O sorteio antes do jogo: a capitã da A. V. Roe joga a moeda enquanto o árbitro e a capitã da Fairey observam, na neve

Imagem Ministry of Information, 1944 / Imperial War Museums, via Wikimedia Commons · Domínio público

Imagem Ministry of Information, 1944 / Imperial War Museums, via Wikimedia Commons · Domínio público

Leia também A Football Association proíbe · O time de Granville · Um clube para a filha jogar

Fonte Imperial War Museums, D 23505 a D 23522, via Wikimedia Commons

1944 Brasil

Léa Campos nasceu durante os primeiros anos de proibição do futebol feminino no Brasil. Na década de 1960, entrou no jornalismo esportivo de olho em ser árbitra de futebol. Mesmo aprovada no curso da Federação Mineira de Futebol, não recebeu autorização nem da entidade nem do então presidente da CBD. Convidada para o II Campeonato Mundial de Futebol Feminino, em 1971 no México, só teve seu diploma de árbitra validado após intervenção direta do presidente da República. No Mundial, apitou a partida entre as donas da casa e a Itália. De volta ao Brasil, atuou em vários estados, além de excursionar pela América Latina e Europa. Um acidente automobilístico em fevereiro de 1974, causou-lhe fraturas nas duas pernas. O fim precoce da carreira de árbitra aos 29 anos não impediu Léa Campos de seguir militando pelo futebol feminino. Muito menos tirou seu posto de primeira mulher árbitra de futebol.

Recorte de jornal sobre a trajetória de Léa Campos como árbitra, preservado em sua coleção e apresentado pelo Museu do Futebol. O documento é posterior ao nascimento da pioneira, em 1944.

Imagem Coleção Léa Campos / Museu do Futebol

Fonte Museu do Futebol, Lea Campos, a primeira árbitra · Museu do Futebol, Google Arts & Culture

1945 São Francisco, Estados Unidos no mesmo tempo, no mundo

Na Conferência de São Francisco, que se encerrou com a assinatura da Carta das Nações Unidas em 26 de junho de 1945, mulheres eram apenas 3% dos delegados. A brasileira Bertha Lutz e a dominicana Minerva Bernardino lideraram a luta para inscrever a igualdade de gênero no texto. Foram chamadas de extremistas feministas e ouviram que citar mulheres na Carta seria vulgar. Venceram: o preâmbulo consagra a igualdade de direitos de homens e mulheres e o artigo 8º proíbe restrições à elegibilidade de mulheres em qualquer órgão da ONU.

Bertha Lutz

Imagem Arquivo Nacional, Fundo FBPF · Domínio público

Fonte International Gender Champions

5 de janeiro de 1949 Manchester, Inglaterra

Percy Ashley criou o Manchester Corinthians principalmente para que sua filha Doris pudesse jogar, já que ela vivia tentando se enfiar nos jogos dos meninos. O nome homenageia o Corinthian F.C. de Londres, símbolo do ideal amador. Até 1951 o clube já tinha oito troféus. Excursionou por Portugal em 1957 e fez uma turnê de 12 semanas pela América do Sul e pelo Caribe em 1960, com públicos de dezenas de milhares. Tudo isso enquanto o futebol feminino seguia banido na Inglaterra.

Camisa do Manchester Corinthians em vitrine do National Football Museum

Imagem National Football Museum, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Leia também Jogo na neve, em Manchester

Fonte Wikipedia, Manchester Corinthians L.F.C.

Julho de 1950 Nigéria

A administração colonial britânica proibiu o futebol feminino na Nigéria em julho de 1950, citando o precedente inglês e o risco à autoridade colonial. A proibição caiu em outubro de 1960, com a independência. É um dado precioso e pouco lembrado: a resolução da Football Association de 1921 não ficou na Inglaterra, viajou com o império.

Fonte Wikipedia, Bans of women's association football

14 de junho de 1952 São João da Boa Vista, São Paulo

Onze anos depois de o futebol feminino virar ilegal no Brasil, o jornal Última Hora abriu a página 5 com a manchete Filhas de Eva empenham-se em empolgante partida de futebol. As equipes A e B de São João da Boa Vista jogaram diante da cidade, a primeira-dama do município deu o pontapé inicial e o prefeito assistiu ao ato. O jogo tinha sido promovido pelo pároco. Na mesma página, uma coluna intitulada Futebol Proibido lembrava que o Conselho Nacional de Desportos tratava a modalidade como vedada. É o retrato do que a proibição brasileira de fato era entre 1941 e 1965: não um apagamento, mas uma ilegalidade que a cidade inteira assistia de camarote, sem federação, sem calendário e sem futuro, porque campeonato ninguém podia organizar.

Última Hora, Rio de Janeiro, 14 de junho de 1952: as equipes A e B de São João da Boa Vista perfiladas, e a primeira-dama da cidade dando o pontapé inicial.

Imagem Última Hora, 14 de junho de 1952 / Arquivo do Senado · Domínio público

Leia também O Brasil proíbe por decreto · A proibição vira literal

Fonte Arquivo S do Senado, o futebol feminino já foi proibido e a CPI pediu a legalização

30 de julho de 1955 Berlim, Alemanha

No congresso do DFB em Berlim, a federação alemã decidiu não permitir que seus clubes fundassem ou acolhessem departamentos de futebol feminino, e proibiu que cedessem instalações para jogos de mulheres. A justificativa ficou célebre pela franqueza com que dizia o que estava em jogo. O DFB alegou ainda que o esporte era essencialmente estranho à natureza da mulher e que prejudicaria a capacidade reprodutiva. A proibição duraria 15 anos.

Na disputa pela bola desaparece a graça feminina, corpo e alma sofrem inevitavelmente danos e a exibição do corpo fere o decoro e a decência.

Deutscher Fußball-Bund, 30 de julho de 1955
Christa Kleinhans em campo durante sua trajetória no futebol alemão, mantida apesar da proibição da DFB. A fonte não informa a data exata da fotografia.

Imagem Acervo Christa Kleinhans / Deutsches Fußballmuseum Dortmund; reprodução via bpb

Fonte bpb, Bundeszentrale für politische Bildung · ZDF heute · Fonte da imagem — Acervo Christa Kleinhans / Deutsches Fußballmuseum Dortmund; reprodução via bpb

23 de setembro de 1956 Essen, Alemanha

Um ano depois da proibição do DFB, um jogo em Essen atraiu 18 mil espectadores, e outro aconteceu em Munique em março de 1957. As alemãs treinavam em pastos e jogavam fora das instalações da federação. É a prova mais clara de que a proibição nunca foi sobre falta de interesse do público.

O Georg Melches Stadion, em Essen, onde dezoito mil pessoas assistiram a Alemanha e Holanda em 1956. A fotografia é de 2011, um ano antes de o estádio ser demolido.

Imagem MM1912 / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte ZDF heute

3 de novembro de 1957 Mommsenstadion, Berlim

Um torneio organizado pela International Ladies FA teve final entre a Inglaterra, que na prática era o Manchester Corinthians, e a Alemanha Ocidental. A Inglaterra venceu por 4 a 0, com três gols de Babs Large, encadernadora de 22 anos, e um de Mary Bee, operária de máquinas da mesma idade. Bert Trautmann, o goleiro alemão do Manchester City, serviu de intérprete do time. A entidade acabou soçobrando por problemas financeiros.

Nota O nome campeonato europeu é retrospectivo: era um torneio privado, sem tutela de federação nenhuma.

O Mommsenstadion, em Berlim

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Fonte Manchester City, Manchester's unofficial England European success · Wikipedia, Manchester Corinthians

19 de dezembro de 1958 Araguari, Minas Gerais

A diretora de escola Isolina França Soares e o dirigente Ney Montes organizaram uma partida de mulheres em Araguari. Mais de 40 candidatas, de 12 a 17 anos, apareceram na peneira. A estreia foi no Estádio Vasconcelos Montes, com a capitã Zalfa Nader, de 1,78 metro, virando zagueira destaque sem nunca ter jogado. O time excursionou por Uberlândia, Goiânia e Salvador lotando estádios, e em 1959 as jogadoras vestiram as camisas de Atlético-MG e América-MG num clássico feminino que lotou o Independência, em Belo Horizonte. Meses depois, denúncias de opositores levaram as autoridades a aplicar o decreto de 1941. O time durou nove meses. Havia até convite para jogar no México.

As equipes femininas de Araguari e Fluminense na partida de 19 de dezembro de 1958, em Araguari.

Imagem Antônio Gebhardt / Arquivo Ney Montes / Reprodução Pioneiras do Futebol Feminino

Fonte No Ataque · Superesportes · Fonte da imagem — Antônio Gebhardt / Arquivo Ney Montes / Reprodução Pioneiras do Futebol Feminino

18 de agosto de 1960 Estados Unidos no mesmo tempo, no mundo

O FDA aprovou o Enovid-10 como contraceptivo oral. Foi a primeira vez que uma mulher pôde separar sexo de reprodução sem depender do parceiro nem de autorização médica contínua. A pílula chegou às farmácias brasileiras em 1962, vendida inicialmente como regulador menstrual, e mudou de escala a autonomia reprodutiva, a entrada no mercado de trabalho e a presença na esfera pública.

Frasco original do Enovid, o primeiro contraceptivo oral

Imagem Digital Public Library of America · CC BY 4.0

Fonte Associação Paulista de Medicina

27 de agosto de 1962 Brasil no mesmo tempo, no mundo

A Lei nº 4.121 alterou a situação jurídica da mulher casada. Até então ela era relativamente incapaz perante a lei e precisava de autorização do marido para trabalhar, receber herança, abrir conta ou viajar. A lei acabou com essa tutela. Para situar: o Brasil estava a 17 anos do fim da proibição do futebol feminino e a 26 da Constituição de 1988.

João Goulart em 1961. A Lei 4.121, sancionada no governo dele, tirou a mulher casada da lista de relativamente incapazes do Código Civil.

A TV Senado conta o que o Estatuto da Mulher Casada mudou em 1962: a esposa deixou de depender do marido para atos da vida civil, incluindo tirar documento de identidade e trabalhar por salário próprio.

TV Senado, no Instagram · carrega no clique

Imagem Governo do Brasil / Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Planalto, Lei 4.121 · TV Senado, o Estatuto da Mulher Casada

1964 Tóquio, Japão no mesmo tempo, no mundo

Nos Jogos de Tóquio, Aída dos Santos foi a única mulher de toda a delegação brasileira e ficou em quarto lugar no salto em altura, a primeira brasileira a disputar uma final olímpica. Viajou sem treinador e sem equipamento adequado, e na cerimônia de abertura teve de usar roupa emprestada de outra modalidade porque não lhe forneceram uniforme. Aquele quarto lugar seguiu sendo o melhor resultado olímpico de uma mulher brasileira até 1996.

Aída dos Santos

Imagem Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã · Domínio público

Fonte Mídia Ninja

1965 Preston, Inglaterra

Depois de 48 anos e cerca de 833 jogos, o clube que virou Preston Ladies em 1926 fechou por falta de jogadoras. Foi seis anos antes de a Football Association formalizar a revogação do banimento. O time que lotou Goodison Park em 1920 não chegou a ver o futebol feminino voltar a ser legal na Inglaterra.

O Dick, Kerr Ladies perfilado. O clube atravessou 48 anos, arrecadou o equivalente a mais de dez milhões de libras para caridade e fechou seis anos antes de a Football Association desfazer o banimento.

Imagem Autoria desconhecida / Wikimedia Commons · Domínio público

Leia também Quem salvou a memória

Fonte dickkerrladies.com

2 de agosto de 1965 Brasil

Já sob a ditadura militar, o Conselho Nacional de Desportos cumpriu a delegação do artigo 54 de 1941 e listou o que estava vedado às mulheres. Nove modalidades. A partir daqui a proibição do futebol deixa de ser interpretação e passa a ser texto. Este é o ato que de fato matou a modalidade no Brasil por 14 anos, e é pouco citado entre os documentos da proibição. O alcance da norma, porém, era mais estreito do que a fama dela: valia para disputa em estádio, aberta ao público e organizada por clube ou federação. Jogo de várzea e de rua não estava vedado, e é por essa fresta que a modalidade atravessou os anos de banimento, encolhida e fora do calendário, mas viva.

Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, pólo, rugby, halterofilismo e baseball.

Deliberação nº 7 do Conselho Nacional de Desportos, 2 de agosto de 1965
Notas da Última Hora, 1959: a imprensa acompanhava a proibição anos antes de o Conselho Nacional de Desportos escrever a palavra futebol na lista do que era vedado às mulheres.

Documentário da TV Brasil sobre a história apagada do futebol feminino brasileiro, do circo à proibição e à retomada.

TV Brasil · 52:12 · carrega no clique

Imagem Última Hora, 1959 / Arquivo do Senado · Domínio público

Leia também O prefeito foi assistir

Fonte CEV, transcrição integral da Deliberação 7/65 · Revista Fulia, UFMG · Arquivo S do Senado, o futebol feminino já foi proibido e a CPI pediu a legalização

19 de abril de 1967 Boston, Estados Unidos no mesmo tempo, no mundo

Inscrita como K. V. Switzer, porque não havia regra escrita proibindo mulheres, ela largou na Maratona de Boston. Por volta do quilômetro 6 o diretor da prova, Jock Semple, partiu para cima dela gritando para que saísse da corrida e devolvesse o número. O namorado dela o barrou com o corpo. Switzer terminou a prova. Boston só passou a aceitar mulheres oficialmente em 1972.

Jock Semple tenta arrancar o número 261 de Kathrine Switzer

Imagem Harry Trask · Domínio público

Fonte New York Road Runners, Hall of Fame

1968 Itália

Foi criada a Federazione Italiana Calcio Femminile, e o campeonato italiano estreou com dois grupos de cinco times e final em Pisa, dando o primeiro scudetto ao A.C.F. Genova. É a primeira liga nacional feminina estruturada da Europa continental, 35 anos depois de o fascismo ter fechado o Gruppo Femminile Calcistico de Milão.

O elenco do A.C.F. Genova, 1968

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Wikipedia, Women's football in Italy

13 de dezembro de 1968 Brasil no mesmo tempo, no mundo

O Ato Institucional nº 5 fechou o Congresso, suspendeu o habeas corpus para crimes políticos, instituiu a censura prévia e autorizou cassações sem apreciação judicial. É o marco do endurecimento da ditadura militar, e o clima em que a proibição do futebol feminino atravessou os anos 1970 sem ser questionada por ninguém com poder para tanto.

A primeira folha do Ato Institucional nº 5

Imagem Arquivo Nacional · Domínio público

Fonte Câmara dos Deputados

1º de novembro de 1969 Caxton Hall, Londres

Representantes de 44 clubes se reuniram no Caxton Hall, em Londres, e fundaram a Women's Football Association inglesa, com Arthur Hobbs como primeiro secretário, sucedido por Patricia Gregory em 1972. Em 1971 a WFA criaria a primeira copa nacional de mata-mata, o Mitre Trophy, que viraria a FA Women's Cup. Nos mesmos dias, na Itália, quatro seleções disputaram a primeira Coppa Europa feminina, vencida pelas italianas sobre a Dinamarca por 3 a 1.

Caxton Hall, em Londres, onde se realizou a reunião de fundação da WFA em 1969. Fotografia de junho de 2018.

Imagem Dmitry Djouce / Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Fonte Wikipedia, Women's Football Association · Wikipedia, 1969 European Competition for Women's Football · Fonte da imagem — Dmitry Djouce / Wikimedia Commons

Cenas do documentário Copa 71: jogadoras comemorando um gol num estádio cheio e o congresso da FIFA da mesma época

Sala 5 · 1970 a 1990

A volta por cima

A reabertura veio por fora e por dentro ao mesmo tempo. Por fora, uma federação independente italiana organizou em julho de 1970 a primeira Copa do Mundo feminina não oficial, e em setembro de 1971 levou a final para o Estádio Azteca, na Cidade do México, diante de um público estimado em 110 mil pessoas, a maior audiência já reunida por um jogo de futebol feminino. Por dentro, a FIFA mandou circular às federações e a UEFA, reunida em Monte Carlo em 1971, determinou que todas as associações assumissem o futebol feminino. A Escócia foi a única a votar contra. A Football Association já havia rescindido a resolução de 1921 em 19 de janeiro de 1970, um ano antes do que quase toda cobertura repete. No Brasil a revogação veio em 21 de dezembro de 1979, mas a regulamentação de 1983 ainda proibia expressamente o profissionalismo feminino.

Cenas de Copa 71, documentário de Rachel Ramsay e James Erskine sobre o Mundial não oficial de 1971

05

A volta por cima 1970 a 1990

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19 de janeiro de 1970 Londres, Inglaterra

O Comitê Executivo da Football Association recomendou em dezembro de 1969 reclassificar o futebol feminino como filiado, e o Conselho votou por rescindir a resolução de 1921 em 19 de janeiro de 1970. A cobertura costuma dizer 1971, que é quando a mudança regulamentar foi aprovada na Assembleia Geral, em 24 de junho, permitindo jogos em campos da FA com árbitros registrados. As duas datas importam, e a primeira quase nunca aparece.

Antigo Great Western Royal Hotel, em Paddington, fotografado em julho de 2006. Ali, em junho de 1971, a FA formalizou a mudança de regras que se seguiu à decisão de 1970.

A ITV reconstitui os 50 anos de banimento do futebol feminino na Inglaterra, de 1921 até a revogação.

ITV News · 4:15 · carrega no clique

Imagem Lloyd Morgan / Flickr · CC BY-SA 2.0

Fonte The FA, Kicking Down Barriers

6 a 15 de julho de 1970 Itália

Organizada pela FIEFF, uma federação independente que a FIFA não reconhecia, a primeira Copa do Mundo feminina foi disputada em sete cidades italianas com sete seleções: Dinamarca, Itália, Inglaterra, Alemanha Ocidental, México, Áustria e Suíça. A Dinamarca venceu a Itália por 2 a 0 na final, em Turim. O patrocínio era da Martini & Rossi, que bancava hospedagem e passagens de trem. Vinte e um anos antes da primeira Copa oficial da FIFA.

Susanne Augustesen, destaque da Copa não oficial de 1970, em fotografia posterior de sua carreira. A imagem não é um registro daquele torneio.

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Wikipedia, 1970 Women's World Cup · Wikipedia, FIEFF

31 de outubro de 1970 Travemünde, Alemanha

No congresso do DFB em Travemünde, a proibição alemã caiu, 15 anos depois. Mas veio com restrições que duraram até 1982: pausa obrigatória de inverno, proibição de travas de metal, bolas menores e mais leves, e partidas encurtadas para 70 minutos. No mesmo ano a França liberou em março, o País de Gales em 29 de maio e a Bélgica no fim do ano, também com restrições de bola e duração.

Equipe feminina do FC Viktoria Odenheim por volta de 1970, quando a DFB revogou sua proibição. Registro preservado na crônica do clube.

Imagem Acervo FC Viktoria Odenheim 1910 e.V.

Fonte ZDF heute · Fonte da imagem — Acervo FC Viktoria Odenheim 1910 e.V.

1971 a 1973 Europa

Jogadoras que disputaram a Copa do México foram multadas ou banidas do futebol doméstico por terem participado de competição não sancionada. O técnico inglês Harry Batt recebeu banimento vitalício e sua liga foi excomungada. Uma Copa prevista para 1972 na Espanha foi cancelada sob pressão das autoridades espanholas, e em 1973 a UEFA decidiu boicotar as atividades da FIEFF. Elas jogaram diante de 110 mil pessoas e voltaram para casa punidas.

Programa do Mundial de 1971 e a medalha de Leah Caleb

Trailer do documentário Copa 71, dirigido por Rachel Ramsay e James Erskine, que resgatou o Mundial não oficial de 1971 e o que aconteceu com as jogadoras depois.

Dogwoof · 2:01 · carrega no clique

Imagem National Football Museum, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Leia também A matéria completa

Fonte Wikipedia, FIEFF · UEFA Academy, relatório de Jean Williams

1971 Monte Carlo, Mônaco

No Congresso Extraordinário da UEFA em Monte Carlo, o vice-presidente Sandor Barcs relatou que o futebol feminino já era praticado em 22 países europeus, mas estava sob controle das federações nacionais em apenas 8. A UEFA acordou que todas as associações deveriam assumir o controle da participação feminina. A Scottish FA registra que a votação foi de 31 a 1, e que a Escócia foi o único país a votar contra. A ironia é difícil de superar: é o mesmo país onde as peixeiras de Fisherrow jogavam anualmente desde antes de 1795.

Primeira reunião do comitê criado pela UEFA para estudar o futebol feminino, em 1971, no processo iniciado pelo Congresso de Monte Carlo.

Imagem Arquivo UEFA

Fonte UEFA Academy, relatório de Jean Williams · Scottish FA, 150 anos · Fonte da imagem — Arquivo UEFA

5 de setembro de 1971 Estádio Azteca, Cidade do México

A segunda Copa do Mundo não oficial foi disputada no México entre 15 de agosto e 5 de setembro de 1971. Na final, no Estádio Azteca, a Dinamarca venceu o México por 3 a 0 diante de um público estimado em 110 mil pessoas, a maior audiência já reunida por um jogo de futebol feminino. Susanne Augustesen, atacante dinamarquesa de 15 anos, fez os três gols e foi homenageada pela prefeita de sua cidade natal. A federação dinamarquesa não reconheceu o título. O torneio ficou apagado da história oficial por cinquenta anos, até o documentário Copa 71.

Nota As 110 mil pessoas são a estimativa da imprensa da época, feita sem bilheteria auditada. A FIFA não reconhece o torneio, organizado à revelia das federações.

A seleção mexicana do Mundial de 1971

Imagens de arquivo da agência AP, filmadas em agosto de 1971 durante a Copa do Mundo feminina não oficial no México.

AP Archive · 2:42 · carrega no clique

Imagem Balón Fútbol Mundial · Domínio público

Leia também A matéria completa

Fonte Wikipedia, 1971 Women's World Cup · Guinness World Records, sobre Copa 71

23 de junho de 1972 Estados Unidos no mesmo tempo, no mundo

Richard Nixon sancionou o Title IX das Education Amendments, que proíbe discriminação por sexo em qualquer programa educacional que receba verba federal. Como escolas e universidades são a base do esporte nos Estados Unidos, a lei virou o maior motor de crescimento do esporte feminino do século. Sem ela não existiria a seleção americana que venceria as Copas de 1991, 1999, 2015 e 2019.

Patsy Mink, coautora do Title IX

Imagem Library of Congress · Domínio público

Fonte Women's Sports Foundation

Novembro de 1972 Ravenscraig Park, Greenock, Escócia

Em 29 de fevereiro de 1972 a Football Association reconheceu formalmente a WFA. Em setembro formou-se a Scottish Women's Football Association, e em novembro a Escócia disputou seu primeiro internacional oficial contra a Inglaterra, capitaneada por Margaret McAulay Rae. A Inglaterra venceu por 3 a 2. Noventa e um anos depois do jogo de Easter Road que a imprensa de 1881 já havia chamado de internacional.

Rose Reilly com a camisa do GBC Milan, em 1976. Escocesa da mesma geração que estreou a seleção da Escócia, ela teve de atravessar a fronteira para poder jogar.

Imagem Autoria desconhecida, 1976 / Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte The FA, Kicking Down Barriers · Scottish FA, 150 anos

20 de setembro de 1973 Astrodome, Houston, Estados Unidos no mesmo tempo, no mundo

Billie Jean King, de 29 anos, venceu Bobby Riggs, ex-campeão de 55, em sets diretos diante de 30 mil pessoas no estádio, o maior público de tênis da história americana até então, e mais de 90 milhões de telespectadores no mundo. Riggs dizia publicamente que o tênis feminino era ruim. King, que naquele mesmo ano liderou a criação da WTA e a luta por premiação igual no US Open, disse depois que achava que o esporte feminino voltaria 50 anos se ela perdesse.

Billie Jean King carregada à quadra do Astrodome

Imagem Associated Press · Domínio público

Fonte Smithsonian, National Museum of American History

1977 Brasília, Brasil

Comissão parlamentar mista requerida pelo senador Nelson Carneiro investigou a discriminação contra a mulher e recomendou a revogação das normas restritivas ao esporte feminino. É o antecedente institucional direto da mudança de 1979. E há um detalhe que diz tudo sobre o tamanho do estrago: a CPI não ouviu nenhuma jogadora de futebol, porque 36 anos de clandestinidade não haviam deixado nenhuma estrela nacional para convocar. Em lugar delas, a comissão ouviu a nadadora Maria Lenk, que apresentou o número: das pessoas registradas nas federações esportivas do país, só 6% eram mulheres. Lenk atribuiu isso diretamente ao veto ao futebol, porque é pelo esporte nacional que se formam os ídolos, e menina nenhuma tinha a quem imitar. No mesmo ano, o Brasil aprovou a Lei do Divórcio, em 26 de dezembro.

A mulher não se esteriliza e não perde as suas características femininas quando pratica esporte. Pelo contrário. Se não tem saúde, músculos trabalhados, resistência física, a mulher jamais será uma boa mãe.

Maria Lenk, à CPI da Mulher, 1977
Maria Lenk, a nadadora que a CPI da Mulher ouviu em 1977 no lugar das jogadoras que a proibição não deixou existir.

Imagem Arquivo do Senado · Domínio público

Leia também Maria Lenk, a primeira sul-americana

Fonte Arquivo S do Senado, o futebol feminino já foi proibido e a CPI pediu a legalização

1979 Brasil e mundo no mesmo tempo, no mundo

O ano em que caiu a proibição do futebol feminino no Brasil foi também o da estreia de Malu Mulher na Globo, em 24 de maio, com Regina Duarte no papel de uma mulher recém-divorciada tratando de aborto, maternidade e violência doméstica em TV aberta; da posse da primeira senadora do Brasil, Eunice Michiles, em 31 de maio; da Lei da Anistia, em 28 de agosto; e da adoção da CEDAW (Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres) pela ONU, em 18 de dezembro, que virou a constituição internacional das mulheres. Não é coincidência. É a mesma maré.

Eunice Michiles recebe flores no dia de sua posse no Senado, em 31 de maio de 1979.

Imagem Arquivo pessoal / Reprodução Agência Senado

Fonte Planalto, Lei da Anistia · ACNUDH, CEDAW · Senado, posse de Eunice Michiles

21 de dezembro de 1979 Brasil

A Deliberação nº 10 do Conselho Nacional de Desportos revogou expressamente a Deliberação 7/65. Mas a permissão ficou condicionada à oficialização pela entidade internacional competente, e a FIFA ainda era reticente quanto ao futebol feminino. Resultado: o futebol feminino saiu do papel da proibição e permaneceu de fato clandestino por mais três anos, até 1983.

João Figueiredo em 1979, ano em que o Conselho Nacional de Desportos revogou a proibição que vigorava desde 1941.

Imagem Governo do Brasil / Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Revista Fulia, UFMG

1982 Rio de Janeiro, Brasil

Eurico Lira dissolveu a seção de futebol de areia do Radar Sports Club, existente desde 1932, e fundou o time de futebol feminino no Rio. Entre 1983 e 1988 o Radar ganhou seis Taças Brasil e seis Campeonatos Cariocas, e na prática era a seleção brasileira: representou o país no Mundialito de 1986 e no torneio da FIFA de 1988, com Lira bancando despesas do próprio bolso. Ele morreu em 1997, após ser ferido num assalto no clube.

A flâmula do Radar com os três títulos do time. O clube foi montado no começo dos anos 1980 pelo então presidente Eurico Lira e virou o centro do futebol de mulheres no Rio.

Imagem Rogério Alonso / Museu do Futebol, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte Wikipedia, EC Radar

Anos 1980 Rio de Janeiro, Brasil

Nascida em 19 de novembro de 1963 em Valença, no Rio, ganhou o apelido pela semelhança física com o cantor, e o locutor Luciano do Valle o oficializou nas transmissões, desafiando o público a adivinhar seu nome verdadeiro. Estreou no Radar marcando cinco gols. Conquistou o primeiro Campeonato Carioca feminino, em 1983, e a primeira Taça Brasil de Futebol feminino no mesmo ano, vencendo o Goiás por 5 a 0. Foi bicampeã carioca no ano seguinte, e também bi da Taça Guanabara, sendo uma das principais figuras do futebol feminino brasileiro na década da retomada. Segundo a própria, marcou exatos 1574 gols. Ou seja, quase 300 a mais que Pelé.

Marileia dos Santos, a Michael Jackson, em audiência sobre futebol feminino no Senado, em 27 de maio de 2015.

Imagem Geraldo Magela / Agência Senado · CC BY 2.0

Fonte Google Arts & Culture, Museu do Futebol · Fonte da imagem — Geraldo Magela / Agência Senado

1983 Brasil no mesmo tempo, no mundo

Os ares da liberação do futebol feminino no Brasil sopraram também no cinema. O filme Onda Nova, dirigido José Antonio Garcia e Ícaro Martins, conta a história do Gayvotas Futebol Clube, time fictício de mulheres às voltas com problemas pessoais e familiares, conservadorismo e questões de gênero. Estrelado por Carla Camurati, Tânia Alves e Regina Casé, com participação dos jogadores Casagrande, Wladimir e Pita, do narrador Osmar Santos e do cantor Caetano Veloso, Onda Nova foi censurado pelo regime militar logo após sua estreia na 7ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e só voltou aos cinemas 42 anos depois, em versão restaurada.

Cartaz do relançamento de Onda Nova (1983), em 2025. Material de divulgação da versão restaurada, publicado pela Cinemateca Capitólio.

Imagem Divulgação / Vitrine Filmes

Fonte CNN Brasil, Onda Nova · Wikipedia, Onda Nova · Fonte da imagem — Divulgação / Vitrine Filmes

25 de março de 1983 Brasil

A Deliberação nº 01/83, publicada em 11 de abril, permitiu a prática no desporto comunitário, submetendo a modalidade às federações estaduais e à CBF. Mas o artigo 3º vedava expressamente o profissionalismo no futebol feminino. Essa trava é a raiz estrutural do atraso econômico que a modalidade ainda carrega, e é um dado pouco divulgado. Quarenta e quatro anos depois, a CBF passaria a exigir atletas profissionais na primeira divisão a partir de 2027.

É vedada, no futebol feminino, a prática do profissionalismo.

Deliberação nº 01/83 do Conselho Nacional de Desportos, artigo 3º
O time feminino do Esporte Clube Ypiranga em 1983

Imagem Acervo do Museu do Futebol · CC BY-SA 4.0

Fonte Revista Fulia, UFMG · Senado Federal, Arquivo S

5 de agosto de 1984 Los Angeles, Estados Unidos no mesmo tempo, no mundo

Venceu a americana Joan Benoit, de 27 anos, em 2h24min52. Até aquele dia, a distância máxima permitida a uma mulher em Jogos Olímpicos era de 1.500 metros, herança da proibição dos 800 metros imposta em 1928. Benoit disse que a vitória era um triunfo do atletismo feminino, e que elas tinham provado que aguentavam as condições da maratona.

Joan Benoit em uma maratona de 1981, três anos antes de vencer a primeira maratona olímpica feminina.

Imagem David Lucas, 1981 / Digital Public Library of America, via Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte World Athletics Heritage

6 de agosto de 1985 São Paulo, Brasil no mesmo tempo, no mundo

O Decreto estadual paulista nº 23.769 criou a Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, a primeira delegacia especializada em atendimento a mulheres vítimas de violência do mundo, modelo depois copiado em toda a América Latina. Foi criada no primeiro ano do governo civil, 21 anos antes da Lei Maria da Penha.

Delegacia de Defesa da Mulher em Campinas, em fotografia de arquivo. A imagem ilustra a rede de atendimento, não a primeira unidade inaugurada em São Paulo em 1985.

Imagem Governo do Estado de São Paulo / Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Fonte Assembleia Legislativa de São Paulo

22 de julho de 1986 Jesolo, Itália

Antes da primeira Copa do Mundo Feminina, brasileiras já representavam o país em competições internacionais. Em 1986, o Radar/Pão de Açúcar levou essa representação ao Mundialito de Jesolo, na Itália. A RSSSF, entidade dedicada à pesquisa estatística do futebol, registra a partida de 22 de julho, derrota por 2 a 1 para os Estados Unidos, como a primeira da Seleção Brasileira Feminina em seu histórico. Dois dias depois, o Brasil empatou por 1 a 1 com a China. Preservar esse capítulo permite distinguir a participação de 1986 da convocação para o torneio experimental da FIFA, em 1988, e da estreia em Copas do Mundo, em 1991.

Nota Nota de apuração e independência editorial. A GINGA36 é uma publicação independente. A RSSSF registra partidas da Seleção desde 1986; em retrospectiva sobre Roseli, a CBF chama a convocação de 1988 de primeira Seleção Brasileira Feminina; 1991 marca a primeira Copa do Mundo Feminina da FIFA. Há diferentes critérios para definir o início dessa história. Explicitamos essa diferença, indicamos as fontes e revisamos o conteúdo diante de evidências verificáveis. A memória das pioneiras não se esgota em um único marco institucional.

Pelézinha, Caju e Russa, pioneiras da Seleção, no especial do Sem Censura exibido em junho de 2026. A fotografia é contemporânea, não um registro do Mundialito de 1986.

Imagem Rodrigo Peixoto / TV Brasil · Reprodução jornalística com indicação da fonte, conforme termos da EBC

Leia também Nasce o Radar, em Copacabana · O teste que criou a Copa · Elane faz o primeiro gol · A reparação das pioneiras

Fonte RSSSF Brasil, histórico da seleção desde 1986 · RSSSF, resultados do Mundialito de 1986 · Silvana Goellner, Lúcia Feitosa e o Radar, Ludopédio · CBF, Roseli e a primeira convocação de 1988 · TV Brasil, fotografia e especial com as pioneiras

1988 Brasil no mesmo tempo, no mundo

A Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988 estabeleceu no artigo 5º, inciso I, a igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações. Também estendeu o voto aos analfabetos de ambos os sexos, garantiu licença-maternidade e reconheceu direitos das trabalhadoras rurais e domésticas. O resultado veio da pressão organizada das 26 deputadas constituintes, o chamado lobby do batom.

Ulysses Guimarães ergue a Constituição de 1988

Imagem Agência Brasil · CC BY 3.0 BR

Fonte Politize

1 a 12 de junho de 1988 Província de Guangdong, China

Doze seleções disputaram em quatro cidades chinesas o torneio que a FIFA usou como estudo de viabilidade. A Noruega bateu a Suécia por 1 a 0 na final. O Brasil foi terceiro: perdeu para a Austrália, venceu a Noruega, goleou a Tailândia por 9 a 0, passou pela Holanda nas quartas, caiu na semifinal para as norueguesas e bateu a China nos pênaltis. A maioria do elenco era de jogadoras do Radar, como Elane e Michael Jackson, mais atletas de outros clubes, como Sissi, do Bahia, e Roseli, do Juventus-SP. Em retrospectiva sobre Roseli, a CBF apresenta a convocação de 1988 como a primeira Seleção Brasileira Feminina. A representação do país no Mundialito de 1986, registrada pela RSSSF, antecede esse marco institucional. Em 30 de junho de 1988 a FIFA aprovou a criação de uma Copa do Mundo Feminina oficial para 1991.

Seleção Brasileira Feminina de 1988, que disputou o Torneio Experimental da FIFA na China.

Imagem Suzana Cavalheiro / Acervo Museu do Futebol

Leia também O Brasil em campo em 1986 · A reparação das pioneiras

Fonte Wikipedia, 1988 FIFA Women's Invitation Tournament · Ludopédio, memórias do Torneio Experimental · RSSSF Brasil, histórico da seleção desde 1986 · CBF, Roseli e a primeira convocação de 1988 · Fonte da imagem — Suzana Cavalheiro / Acervo Museu do Futebol

Letreiro CHINA '91 do primeiro Mundial feminino da FIFA, com dois rapazes passando de bicicleta na frente

Sala 6 · 1991 a 2007

A Copa existe

A primeira Copa do Mundo Feminina da FIFA aconteceu na China em novembro de 1991, 61 anos depois da masculina, com jogos de 80 minutos porque a entidade achava que as atletas não aguentariam 90, e sem usar a marca World Cup no nome oficial. Oito anos depois, em 10 de julho de 1999, a final entre Estados Unidos e China no Rose Bowl de Pasadena reuniu 90.185 pessoas, na época recorde mundial de público para um evento esportivo feminino de qualquer modalidade. O Brasil chegou ao pódio três vezes nesse intervalo e viveu sua melhor campanha em 2007, quando goleou os Estados Unidos por 4 a 0 na semifinal e perdeu a final para a Alemanha. Ao voltar, as jogadoras abriram uma faixa pedindo apoio. A CBF criou o primeiro campeonato nacional feminino naquele mesmo ano.

Mundial da China, 1991, via WoSoNostalgia

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A Copa existe 1991 a 2007

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1991 China

O Brasil caiu na fase de grupos: venceu o Japão por 1 a 0, perdeu para os Estados Unidos por 5 a 0 e para a Suécia por 2 a 0. Na vitória sobre o Japão, a zagueira Elane marcou o primeiro gol brasileiro na história das Copas femininas. Após uma cobrança de escanteio de Fia Carioca, a bola sobrou na área e Elane finalizou para o gol. No mesmo ano o Brasil sediou e venceu a primeira Copa América Feminina, batendo o Chile na final, começando uma hegemonia continental que chegaria a nove títulos em dez edições.

Elane, autora do primeiro gol brasileiro em Copas do Mundo femininas, em retrato de arquivo divulgado pela CBF. Data da fotografia não identificada; não é um registro do gol de 1991.

Imagem Divulgação / CBF

Fonte Dibradoras · DFB, Japão 0 a 1 Brasil, Mundial de 1991 · Fonte da imagem — Divulgação / CBF · FIFA — fonte indicada na Checagem 02 · ge — primeiro gol da Seleção Brasileira Feminina em Copas

30 de novembro de 1991 Estádio Tianhe, Guangzhou, China

Doze seleções, três grupos de quatro, e os Estados Unidos campeões sobre a Noruega por 2 a 1 diante de 63 mil pessoas. Michelle Akers foi artilheira com 10 gols, recorde absoluto de uma única edição até hoje, e Carin Jennings foi eleita a melhor jogadora. Dois detalhes dizem tudo sobre como a FIFA tratava o torneio: todos os jogos tiveram 80 minutos, não 90, porque a entidade alegava que as atletas não aguentariam a carga, e o nome oficial nem usava a marca World Cup, era Campeonato Mundial de Futebol Feminino pela Taça M&M's. Veio 61 anos depois da primeira Copa masculina.

O estádio Tianhe, em Guangzhou, uma das sedes do primeiro Mundial feminino da FIFA, em 1991. A fotografia é posterior ao torneio.

Melhores momentos da primeira final de Copa do Mundo Feminina da história, no canal oficial da FIFA.

FIFA · 1:25 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Fonte Wikipedia, 1991 FIFA Women's World Cup

1992 Preston, Inglaterra

Gail Newsham cresceu à sombra de uma fábrica em Preston sem saber que ali tinha nascido o time mais influente da história do futebol de mulheres. As jogadoras nunca se gabaram do que haviam feito, e por isso a história estava prestes a desaparecer com elas. Newsham jogou duas semifinais de Copa da Inglaterra pelo Preston Rangers nos anos 1970 e 1980, quando o vestiário era um antigo galinheiro e o banheiro, um tambor de óleo. Em 1986 criou o Lancashire Trophy, torneio internacional que trouxe times da Suécia, Suíça, Áustria, Alemanha, Irlanda e Escócia. E em 1992, encarregada de organizar o primeiro reencontro do Dick, Kerr Ladies em mais de quarenta anos, viu uma fotografia do time jogando em Kirkham nos anos 1950 e não acreditou na quantidade de gente na beira do campo. Ela mesma resumiu o que sentiu: quando eu jogava, não aparecia ninguém. Foi ali que decidiu que alguém tinha de fazer alguma coisa antes que a história se perdesse, e passou os anos seguintes reunindo o arquivo que hoje sustenta quase tudo o que se sabe sobre aquele time.

Gail Newsham com o livro In a League of Their Own!, dedicado à história das Dick, Kerr Ladies. Retrato divulgado em seu perfil no Creative Community Group; data não informada.

Imagem Reprodução / perfil de Gail Newsham no Creative Community Group

Leia também O Dick, Kerr estreia no Natal · O Dick, Kerr fecha as portas · Lily Parr, aos catorze anos

Fonte Lancashire Evening Post, Gail Newsham sobre o Dick, Kerr Ladies · Fonte da imagem — Reprodução / perfil de Gail Newsham no Creative Community Group

12 de junho de 1994 Austrália no mesmo tempo, no mundo

O Brasil venceu a China por 96 a 87 e conquistou o Mundial de basquete feminino, com Hortência, Paula e Janeth em quadra. Na semifinal, o time havia derrubado os Estados Unidos por 110 a 107. O Brasil se tornou a terceira nação da história a ganhar o Mundial feminino, ao lado dos Estados Unidos e da União Soviética. Enquanto isso, o futebol feminino brasileiro ainda não tinha campeonato nacional.

Janeth Arcain em registro de arquivo no pódio. Integrante da seleção campeã em 1994; a fotografia não é da final daquele Mundial.

Imagem Agência Brasil · CC BY 3.0 BR

Fonte Liga Nacional de Basquete

18 de junho de 1995 Estádio Råsunda, Solna, Suécia

A Noruega venceu a Alemanha por 2 a 0 diante de 17.158 pagantes. O público total da edição, 112.213 pessoas, é o menor de todas as Copas femininas, com média de apenas 4.316 por jogo. Ann Kristin Aarønes foi artilheira com 6 gols e Hege Riise levou a Bola de Ouro. Voltou-se aos 90 minutos de jogo. Foi também a Copa em que Formiga, aos 17 anos, disputou a primeira das suas sete, um recorde que nenhum jogador ou jogadora do mundo alcançou.

Hege Riise, campeã mundial pela Noruega em 1995, em retrato posterior à conquista.

Melhores momentos da final de 1995, o único título mundial da Noruega.

FIFA · 1:27 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Fonte Wikipedia, 1995 FIFA Women's World Cup

1996 Sanford Stadium, Athens, Estados Unidos

Oito seleções disputaram o primeiro torneio olímpico feminino de futebol. Os Estados Unidos venceram a China por 2 a 1 na final, diante de 76.481 pessoas, na época o maior público da história de um jogo de futebol feminino no país. O Brasil, que entrou herdando a vaga da Inglaterra, ficou em quarto: empatou com a Noruega na estreia com gol de Pretinha no último minuto, perdeu a semifinal para a China e o bronze para as norueguesas. Pretinha dividiu a artilharia do torneio com as norueguesas Ann Kristin Aarønes e Linda Medalen, todas com 4 gols.

Medalha dos Jogos de Atlanta, 1996

Imagem Acervo do Museu do Futebol · CC BY-SA 4.0

Fonte Wikipedia, Football at the 1996 Summer Olympics

1999 Estados Unidos

Foi a melhor campanha brasileira em Copas até então: 7 a 1 no México, 2 a 0 na Itália, 3 a 3 com a Alemanha e primeiro lugar do grupo. Nas quartas, contra a Nigéria, o jogo terminou 3 a 3 no tempo normal e Sissi decidiu com um gol de falta na prorrogação, considerado um dos mais bonitos da história da modalidade. O Brasil perdeu a semifinal para os Estados Unidos e venceu a Noruega nos pênaltis pelo bronze. Sissi dividiu a artilharia do torneio com Sun Wen, com 7 gols, e levou a Bola de Prata.

Sissi na seleção brasileira em Sydney, no ano seguinte ao Mundial em que dividiu a artilharia com a chinesa Sun Wen.

Imagem Museu do Futebol / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte Fut das Minas

10 de julho de 1999 Rose Bowl, Pasadena, Estados Unidos

Estados Unidos e China empataram sem gols e os americanos venceram por 5 a 4 nos pênaltis. Brandi Chastain converteu a quinta cobrança sobre a goleira Gao Hong e comemorou tirando a camisa, virando capa de revista no mundo inteiro. Meses antes, ela havia perdido um pênalti contra a mesma China na Algarve Cup. Foi o maior público reconhecido pela FIFA em futebol feminino e, à época, recorde mundial para um evento esportivo feminino de qualquer modalidade. A transmissão americana teve média de 17,9 milhões de espectadores e pico de 40 milhões.

Ingresso da final da Copa do Mundo de 1999

A disputa de pênaltis completa da final de 1999, incluindo a cobrança decisiva de Brandi Chastain e a comemoração que virou símbolo.

FIFA · 7:12 · carrega no clique

Imagem Acervo do Museu do Futebol · CC BY-SA 4.0

Fonte Wikipedia, 1999 FIFA Women's World Cup

12 de abril de 2002 Reino Unido no mesmo tempo, no mundo

Dirigido por Gurinder Chadha, o filme sobre uma adolescente indiana em Londres que quer jogar futebol contra a vontade da família estreou no Reino Unido e arrecadou 92,2 milhões de dólares no mundo, virando na época o filme de futebol mais rentável nos Estados Unidos. A produção teve colaboração da federação inglesa. Para muita gente da geração que hoje joga, foi a primeira imagem de futebol feminino que viu numa tela grande.

Parminder Nagra

Imagem Gage Skidmore · CC BY-SA 3.0

Fonte Wikipedia, Bend It Like Beckham

12 de outubro de 2003 Home Depot Center, Carson, Estados Unidos

Originalmente marcada para a China, a Copa foi transferida para os Estados Unidos por causa do surto de SARS. Na final, a Alemanha venceu a Suécia por 2 a 1: Hanna Ljungberg abriu aos 41, Maren Meinert empatou aos 46 e a zagueira reserva Nia Künzer marcou de cabeça aos 98 minutos, o último gol de ouro da história do futebol internacional. Birgit Prinz levou Chuteira e Bola de Ouro com 7 gols, e a Alemanha virou o primeiro país a vencer as Copas masculina e feminina. Foi também a primeira Copa de Marta.

Nia Künzer, autora do gol do título mundial alemão em 2003, em retrato posterior à conquista.

Melhores momentos da final de 2003, com o gol de ouro de Nia Künzer aos 98 minutos.

FIFA · 1:26 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

Fonte Wikipedia, 2003 FIFA Women's World Cup final

2004 Atenas, Grécia

Na final contra os Estados Unidos, empate em 1 a 1 nos 90 minutos e gol de Abby Wambach no segundo tempo da prorrogação: 2 a 1 para as americanas. Foi a primeira medalha olímpica do futebol feminino brasileiro, e a primeira de três pratas, todas contra o mesmo adversário.

As jogadoras com a prata de Atenas, 2004

Imagem Acervo do Museu do Futebol · CC BY-SA 4.0

Fonte Soccerway

2006 a 2010 Mundo

Cinco prêmios FIFA consecutivos, em 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010. É recorde absoluto, não igualado por nenhum jogador ou jogadora da história: nem Messi, nem Cristiano Ronaldo, nem Pelé têm cinco seguidos. Ela venceria de novo em 2018, chegando a seis. Nascida em Dois Riachos, Alagoas, em 19 de fevereiro de 1986, Marta acumularia 118 gols pela seleção brasileira, superando os 95 de Pelé desde 2015.

Marta

O Museu do Futebol conta a trajetória de Marta, de Dois Riachos até se tornar a maior artilheira da história das Copas do Mundo.

Museu do Futebol · 13:49 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte Wikipedia, Marta

7 de agosto de 2006 Brasil no mesmo tempo, no mundo

A Lei nº 11.340 criou mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher: medidas protetivas de urgência, juizados especializados e fim das penas alternativas do tipo cesta básica. Leva o nome de Maria da Penha Maia Fernandes, cujo caso levou o Brasil a ser condenado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos por omissão.

Maria da Penha

Imagem Agência Brasil · CC BY 3.0 BR

Fonte Conselho Nacional de Justiça

2007 Rio de Janeiro, Brasil

A Seleção Brasileira chegou aos Jogos Pan Americanos Rio 2007 como favorita absoluta à medalha de ouro no futebol feminino e não decepcionou: venceu o Uruguai por 4 a 0, a Jamaica por 5 a 0, o Equador por 10 a 0 e o Canadá por 7 a 0 na primeira fase, o México por 2 a 0 na semifinal e aplicou 5 a 0 sobre os Estados Unidos na decisão diante de quase 80 mil pessoas no Maracanã. Foram 33 gols marcados, 12 deles pela artilheira Marta, e nenhum sofrido. O desempenho avassalador abriu caminho para o vice-campeonato mundial meses depois, com direito a mais uma goleada sobre os EUA na semifinal.

Jogadoras da Seleção Brasileira comemoram o ouro no Pan do Rio, no Maracanã, em 26 de julho de 2007.

Imagem Wilson Dias / Agência Brasil · CC BY 3.0 BR

Fonte ESPN, O ouro no Pan de 2007 · Fonte da imagem — Wilson Dias / Agência Brasil

27 de setembro de 2007 Hangzhou, China

Na semifinal da Copa da China, o Brasil aplicou nos Estados Unidos a maior derrota da história da seleção americana feminina até então. No caminho até ali: 5 a 0 na Nova Zelândia, 4 a 0 na China, 1 a 0 na Dinamarca e 3 a 2 na Austrália. Marta marcou naquele torneio o gol que a FIFA elegeu o segundo mais bonito de todos os tempos, e terminou com a Bola e a Chuteira de Ouro, 7 gols e 5 assistências. Na final, em Xangai, a Alemanha venceu por 2 a 0, com Nadine Angerer defendendo um pênalti de Marta e sem sofrer um único gol no torneio inteiro.

Marta comemora na vitória do Brasil por 4 a 0 sobre os Estados Unidos, na semifinal da Copa do Mundo Feminina de 2007, na China.

O gol de Marta contra os Estados Unidos na semifinal de 2007, eleito pela FIFA como um dos mais bonitos da história das Copas.

FIFA · 0:54 · carrega no clique

Imagem Divulgação / FIFA

Fonte Fut das Minas · FIFA · Fonte da imagem — Divulgação / FIFA

2007 Brasil

Depois do vice-campeonato mundial, as jogadoras da seleção protestaram abrindo uma faixa com a frase "Brasil, precisamos de apoio". A pressão levou a CBF a criar naquele mesmo ano o primeiro campeonato nacional feminino. Vale registrar a sequência: elas fizeram a melhor campanha da história do país em Copas e, para conseguir um campeonato, precisaram protestar.

Brasil, precisamos de apoio.

Faixa das jogadoras da seleção brasileira, 2007
O estádio Hongkou, em Xangai, uma das sedes do Mundial de 2007, em que o Brasil goleou os Estados Unidos por 4 a 0 na semifinal. A fotografia é posterior ao torneio.

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.5

Fonte Fut das Minas

Sala 7 · 2008 a 2023

7.196

tweets por segundo

A explosão

Em quinze anos o futebol feminino saiu da margem e virou negócio. A final de 2011 em Frankfurt bateu o recorde do Twitter da época. A de 2015 em Vancouver foi o jogo de futebol mais visto da história dos Estados Unidos. Em 2019, na entrega da taça em Lyon, com o presidente da FIFA no gramado, a torcida gritou equal pay. Em abril de 2022 o Camp Nou recebeu 91.648 pessoas para um jogo de clubes femininos e em julho Wembley teve 87.192 na final da Eurocopa, o maior público de uma final de Euro, masculina ou feminina. A Copa de 2023 na Austrália e na Nova Zelândia foi a primeira com 32 seleções, teve quase 2 milhões de pagantes e se pagou. Também foi a que terminou com o presidente da federação espanhola beijando uma jogadora sem consentimento na premiação, e caindo por isso.

Captura do tweet da conta @twitter em 17 de julho de 2011: New Tweets per second records! End of the #WWC final: 7196 TPS
@twitter · 17 de julho de 2011 · captura CNN
07

A explosão 2008 a 2023

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2008 Pequim, China

Final contra os Estados Unidos outra vez, e derrota por 1 a 0 com gol de Carli Lloyd na prorrogação. Era a segunda prata olímpica seguida do Brasil, e a segunda final perdida para o mesmo adversário no tempo extra. A terceira viria em Paris, dezesseis anos depois.

Fonte Soccerway

10 de julho de 2011 Dresden, Alemanha

O Brasil passou pela fase de grupos sem sofrer gols: 1 a 0 na Austrália, 3 a 0 na Noruega e 3 a 0 na Guiné Equatorial. Nas quartas contra os Estados Unidos, gol contra de Daiane, empate de Marta de pênalti, virada de Marta na prorrogação, e então Abby Wambach empatou de cabeça aos 122 minutos. Nos pênaltis, Hope Solo defendeu a cobrança de Daiane e os Estados Unidos venceram por 5 a 3.

Estádio de Dresden, palco das quartas de final de 2011. A fotografia registra Alemanha x Canadá em setembro de 2010, não a partida entre Brasil e Estados Unidos.

Imagem WOGERCAN10 / Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.5

Fonte Fut das Minas · Fonte da imagem — WOGERCAN10 / Wikimedia Commons

17 de julho de 2011 Commerzbank-Arena, Frankfurt, Alemanha

Estados Unidos e Japão empataram em 2 a 2 e as japonesas venceram por 3 a 1 nos pênaltis, diante de 48.817 pessoas. Alex Morgan abriu aos 69, Aya Miyama empatou aos 81, Abby Wambach recolocou os Estados Unidos na frente aos 104 e Homare Sawa empatou aos 117. Saki Kumagai bateu o pênalti decisivo. Sawa levou Chuteira e Bola de Ouro, e o Japão virou a primeira seleção asiática a ganhar uma Copa do Mundo sênior, masculina ou feminina. A final bateu o recorde do Twitter da época, com 7.196 tuítes por segundo.

O Japão campeão do mundo em 2011

A final de 2011 completa em melhores momentos, com o empate de Homare Sawa aos 117 minutos e a disputa de pênaltis.

FIFA · 6:32 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte Wikipedia, 2011 FIFA Women's World Cup final

2012 Londres, Reino Unido no mesmo tempo, no mundo

Londres 2012 foi a primeira edição em que todas as 204 delegações levaram atletas mulheres. Brunei, Catar e Arábia Saudita enviaram mulheres pela primeira vez. Foi também a primeira Olimpíada em que mulheres competiram em todos os esportes do programa, com a entrada do boxe feminino, e elas foram 44% dos atletas. Em Barcelona 1992, vinte anos antes, 35 delegações ainda eram só de homens. Na mesma edição, a final do futebol feminino levou 80.203 pessoas a Wembley, recorde olímpico da modalidade.

A seleção britânica comemora em Londres 2012

Imagem Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Fonte ONU Mulheres · Guinness World Records

2013 Brasil

A CBF fundou o Campeonato Brasileiro Feminino em 2013, inicialmente com temporada curta de três meses. Em 2017 a competição foi reestruturada e o primeiro nível passou a se chamar Série A1, com 16 times em grupo único. Setenta e dois anos depois do decreto de Vargas, o Brasil finalmente tinha uma liga nacional feminina permanente.

Jogo do Brasileirão Feminino

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Wikipedia, Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino Série A1

5 de julho de 2015 BC Place, Vancouver, Canadá

A primeira Copa com 24 seleções foi também a primeira Copa do Mundo, masculina ou feminina, disputada inteiramente em grama sintética, o que gerou uma ação judicial de jogadoras alegando discriminação de gênero. Na final, os Estados Unidos venceram o Japão por 5 a 2 com Carli Lloyd marcando aos 3, aos 5 e aos 16 minutos, sendo o terceiro do meio-campo. O gol dos 3 minutos é o mais rápido em finais de Copa feminina. A partida teve 26,7 milhões de espectadores nos Estados Unidos, o jogo de futebol mais visto da história do país.

Carli Lloyd na final da Copa de 2015

Melhores momentos da final de 2015, com o hat-trick de Carli Lloyd nos primeiros 16 minutos.

FIFA · 2:20 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

Fonte Wikipedia, 2015 FIFA Women's World Cup final

2016 Maracanã, Rio de Janeiro

A semifinal olímpica entre Brasil e Suécia, no Maracanã, registrou 70.454 espectadores, até hoje o maior público do futebol feminino no Brasil considerando jogos de seleção. O Brasil perdeu nos pênaltis e depois o bronze, terminando em quarto lugar em casa. Onze anos depois, o mesmo estádio recebe a abertura e a final de uma Copa do Mundo.

Brasil e Suécia no Maracanã, 2016

Imagem Fernando Frazão, Agência Brasil · CC BY 2.0

Fonte Soccerway

Outubro de 2017 Mundo no mesmo tempo, no mundo

A expressão Me Too foi criada em 2006 pela ativista americana Tarana Burke para apoiar sobreviventes de violência sexual. Em 15 de outubro de 2017, no rastro das denúncias contra o produtor Harvey Weinstein, a atriz Alyssa Milano pediu no Twitter que mulheres que já haviam sofrido assédio respondessem me too, e mais de 1,7 milhão de pessoas responderam. A revista TIME elegeu As Silenciadoras personalidade do ano. Seis anos depois, o caso Rubiales na final da Copa mostraria que o futebol tinha o seu próprio acerto de contas a fazer.

Tarana Burke, criadora do MeToo

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Fonte TIME, Person of the Year 2017

2018 Londres, Reino Unido

Oito anos depois do quinto, Marta venceu o The Best FIFA pela sexta vez. São seis prêmios ao todo: 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2018. Nenhum jogador ou jogadora do mundo tem tantos. Em 2018 a Islândia também se tornava o primeiro país a exigir que empresas provassem, por auditoria, que pagavam igual para trabalho de igual valor.

Marta em 2018, ano em que recebeu o sexto prêmio de melhor do mundo.

Imagem Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Fonte Wikipedia, Marta · Governo da Islândia

2019 América do Sul

Publicada em 2016 com três anos de prazo de adaptação, a regra da CONMEBOL passou a valer em 2019: todos os clubes que disputam a Série A, a Libertadores e a Sul-Americana são obrigados a manter times femininos adulto e de base, sob pena de exclusão. Naquele ano, apenas 7 dos 14 clubes brasileiros em competições continentais já cumpriam o requisito. É o vetor regulatório que explica por que Corinthians, Palmeiras, Flamengo e São Paulo têm times femininos hoje.

A final da Libertadores feminina em 2021, dois anos depois de a Conmebol passar a exigir time feminino de quem disputa a competição masculina.

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte CEV

18 de junho de 2019 Valenciennes, França

Brasil 1 x 0 Itália. Marta converteu pênalti sofrido por Debinha aos 28 minutos do segundo tempo e chegou ao 17º gol em Copas, superando os 16 de Miroslav Klose. Tornou-se recorde absoluto, entre homens e mulheres, e só foi superado por Messi e Mbappé na Copa do Mundo masculina em 2026. Depois do jogo, disse que dedicava aquilo às mulheres, porque representava todas elas.

Marta comemora o gol contra a Itália em 18 de junho de 2019, na Copa do Mundo Feminina, quando chegou a 17 gols em Mundiais.

O gol que fez de Marta a maior artilheira da história das Copas do Mundo, homens e mulheres somados.

FIFA · 2:11 · carrega no clique

Imagem Divulgação / FIFA

Fonte Agência Brasil · FIFA, artilheiros históricos após 2026 · Fonte da imagem — Divulgação / FIFA

23 de junho de 2019 Le Havre, França

França 2 x 1 Brasil na prorrogação, e a eliminação nas oitavas. Foi depois desse jogo que Marta gravou o apelo às meninas brasileiras, dizendo que o futebol feminino dependia delas para sobreviver e pedindo que chorassem no começo para sorrir no final. Virou o discurso mais reproduzido da história da modalidade no país.

Marta na Copa do Mundo de 2019, comemorando contra a Itália em 18 de junho. Imagem de contexto da mesma edição, cinco dias antes do discurso após a eliminação diante da França.

O apelo de Marta às futuras gerações de jogadoras brasileiras, gravado após a eliminação do Brasil na Copa de 2019.

FIFA · 2:56 · carrega no clique

Imagem Divulgação / FIFA

Fonte Comitê Olímpico do Brasil · Fonte da imagem — Divulgação / FIFA

7 de julho de 2019 Parc Olympique Lyonnais, Lyon, França

Estados Unidos 2 x 0 Holanda, com pênalti de Megan Rapinoe aos 61 e gol de Rose Lavelle aos 69, diante de 57.900 pessoas. Rapinoe levou Chuteira e Bola de Ouro. Mas o que ficou daquela noite foi a cerimônia: com Gianni Infantino e Emmanuel Macron no gramado, a torcida gritou equal pay em protesto contra a diferença de premiação. O torneio teve audiência global combinada de 1,12 bilhão de pessoas.

A seleção americana no pódio em Lyon, 2019

Melhores momentos da final da Copa de 2019 em Lyon, a mais assistida da história até então.

FIFA · 2:10 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte Wikipedia, 2019 FIFA Women's World Cup final

2 de setembro de 2020 Brasil

Rogério Caboclo, então presidente da CBF, anunciou em coletiva virtual a equiparação de diárias e premiações entre as seleções masculina e feminina, incluindo remuneração proporcional aos prêmios FIFA em Copas, com vigência a partir dos Jogos de Tóquio. Vale ser preciso sobre o escopo: não foram equiparados salários de clube, patrocínios nem qualquer remuneração fora do período de seleção. No mesmo dia a CBF anunciou Duda Luizelli como coordenadora da seleção feminina e Aline Pellegrino como coordenadora de competições femininas.

Nota Circula muito a data de 2019 para este anúncio. Foi 2 de setembro de 2020.

Aline Pellegrino no sorteio dos torneios olímpicos de futebol do Rio, em 14 de abril de 2016. Retrato de arquivo da ex-jogadora, quatro anos antes do anúncio de equiparação.

Imagem Tânia Rêgo / Agência Brasil · CC BY 2.0

Fonte Gazeta Esportiva · CNN Brasil · Fonte da imagem — Tânia Rêgo / Agência Brasil

2021 Yokohama, Japão

Adiada por um ano e disputada sem público por causa da pandemia, a final em Yokohama terminou 1 a 1 entre Canadá e Suécia, com as canadenses vencendo por 3 a 2 nos pênaltis. Foi o primeiro ouro olímpico do Canadá no futebol. Os Estados Unidos ficaram com o bronze. A zambiana Barbra Banda foi a artilheira, com 6 gols.

Nota Circula com frequência que os Estados Unidos ganharam o ouro em Tóquio. Foi o Canadá; os Estados Unidos ficaram com o bronze.

Christine Sinclair, capitã do Canadá

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte Wikipedia, Football at the 2020 Summer Olympics

22 de fevereiro de 2022 Estados Unidos no mesmo tempo, no mundo

A seleção feminina dos Estados Unidos e a federação americana anunciaram um acordo de 24 milhões de dólares para encerrar a ação de discriminação salarial aberta em março de 2019: 22 milhões distribuídos às jogadoras e 2 milhões num fundo pós-carreira. Mais importante que o dinheiro, a federação se comprometeu a pagar taxa igual às seleções feminina e masculina em todos os amistosos e torneios, Copa do Mundo incluída. As jogadoras pediam 66,7 milhões. Megan Rapinoe chamou o resultado de vitória monumental para o esporte feminino.

As jogadoras americanas na Casa Branca

Imagem Casa Branca · Domínio público

Fonte ESPN

22 de abril de 2022 Camp Nou, Barcelona, Espanha

Barcelona 5 x 1 Wolfsburg, na ida da semifinal da Liga dos Campeões, com 91.648 pessoas. É o maior público de qualquer jogo de futebol feminino em competição da UEFA e o recorde para partida de clubes. Menos de um mês antes, no mesmo estádio, Barcelona 5 x 2 Real Madrid havia levado 91.553 pessoas. Cento e um anos depois de a Football Association declarar o jogo inadequado para mulheres.

Alexia Putellas cobra pênalti no Camp Nou, abril de 2022

Imagem Wikimedia Commons · CC BY 3.0

Fonte UEFA

31 de julho de 2022 Wembley, Londres

Inglaterra 2 x 1 Alemanha na prorrogação, com gols de Ella Toone aos 62 e Chloe Kelly aos 110. O público de 87.192 é recorde para qualquer final de Eurocopa, masculina ou feminina. Foi o primeiro título internacional da Inglaterra desde a Copa masculina de 1966, e veio no país que baniu o futebol feminino por meio século. O torneio inteiro teve 574.875 pagantes, mais que o dobro da edição anterior, e direitos de mídia 289% acima.

A final da Euro de 2022 em Wembley

Imagem Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Fonte UEFA · Wikipedia, UEFA Women's Euro 2022 final

Dezembro de 2022 São Paulo, Brasil

Miraildes Maciel Mota encerrou a carreira pelo São Paulo. São sete Copas do Mundo, de 1995 a 2019, e sete Olimpíadas, de 1996 a 2020, marcas que nenhum atleta do mundo alcançou, homem ou mulher. Fez 151 jogos pela seleção, superando Cafu. É a jogadora mais velha a marcar numa Copa feminina, aos 37 anos, e a mais velha a disputar uma, aos 41.

Formiga

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte Wikipedia, Formiga

2023 Neo Química Arena, São Paulo

A final do Brasileirão Feminino na Neo Química Arena reuniu 42.566 pagantes, número do próprio clube, e estabeleceu novo recorde de público para um jogo de clubes femininos na América do Sul, superando marcas anteriores do próprio Corinthians e de Universitario e Alianza Lima, no Peru. No ano seguinte o próprio clube bateria a marca de novo, com 44.529 pagantes.

Jogadoras do Corinthians na Supercopa Feminina de 2023. Imagem de contexto do clube; não é um registro da partida que bateu o recorde de público.

Imagem Wikimedia Commons · Domínio público

Fonte Soccerway · Corinthians

2 de agosto de 2023 Melbourne, Austrália

O empate com a Jamaica eliminou o Brasil ainda na fase de grupos, a primeira queda na primeira fase desde 1995, 28 anos antes. Foi a última Copa do Mundo de Marta, a sexta dela. Ela resumiu dizendo que nem nos piores pesadelos imaginava aquilo. Um mês depois Pia Sundhage seria demitida e Arthur Elias assumiria a seleção, com contrato até a Copa de 2027.

Marta em fotografia de arquivo de 2023. A imagem não registra a partida contra a Jamaica.

Imagem Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Fonte CNN Brasil · Exame, sobre Arthur Elias

20 de agosto de 2023 Stadium Australia, Sydney

Espanha 1 x 0 Inglaterra, gol de Olga Carmona aos 29, diante de 75.784 pessoas. Carmona soube da morte do próprio pai logo após o jogo. A primeira Copa com 32 seleções teve 1.978.274 pagantes em 64 jogos, ocupação de 84,1%, e foi a primeira Copa feminina a se pagar, com 570 milhões de dólares de receita. Mas o que dominou a cobertura foi a premiação: o presidente da federação espanhola, Luis Rubiales, beijou Jenni Hermoso na boca sem consentimento. Ela declarou não ter esperado nem gostado, a federação divulgou nota falsa atribuindo apoio a ela, e o caso derrubou Rubiales e o técnico Jorge Vilda.

A Espanha campeã do mundo em 2023

Programa oficial do FIFA+ sobre a final de 2023 entre Espanha e Inglaterra, com os bastidores da campanha espanhola.

FIFA+ · 33:54 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte Wikipedia, 2023 FIFA Women's World Cup final · SportsPro, números de público e audiência

Rio de JaneiroSão PauloSalvadorBelo HorizonteBrasíliaRecifeFortalezaPorto AlegreBelo HorizonteSalvadorRecifeBrasíliaPorto AlegreSão PauloMaracanã, Rio de Janeiro

Sala 8 · 2024 a 2027

A Copa em casa

Em 17 de maio de 2024, no congresso da FIFA em Bangkok, o Brasil venceu por 119 votos a 78 a candidatura conjunta de Alemanha, Bélgica e Holanda e ficou com a Copa do Mundo Feminina de 2027, a primeira da América do Sul. As oito cidades-sede foram anunciadas em 7 de maio de 2025, todas com estádios da Copa masculina de 2014, com abertura e final no Maracanã. A marca foi lançada no Rio em 25 de janeiro de 2026, com o slogan Vai Ser Épico. O sorteio dos grupos está marcado para 11 de dezembro de 2026, no Museu de Arte Moderna do Rio. E há uma ironia histórica no calendário: a mesma federação que em 1983 recebeu uma norma proibindo o profissionalismo feminino agora exige que os clubes da primeira divisão tenham atletas profissionais a partir de 2027.

Cidades-sede da Copa de 2027 · Fifa/Reprodução, Pixabay e Wikimedia Commons

08

A Copa em casa 2024 a 2027

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8 de março de 2024 Cinemas, mundo

Dirigido por Rachel Ramsay e James Erskine, com produção executiva de Venus e Serena Williams e da jogadora Alex Morgan, o documentário estreou no Festival de Toronto em setembro de 2023 e nos cinemas em 8 de março de 2024. Resgata a Copa do Mundo Feminina não oficial de 1971 no México, apagada dos registros por cinco décadas. As jogadoras eram tratadas como estrelas no México e proibidas de jogar em seus próprios países.

A seleção do México no Mundial não oficial de 1971, o torneio que o documentário Copa 71 devolveu à história cinquenta anos depois.

Trailer oficial do documentário Copa 71, sobre o Mundial feminino não oficial disputado no México em 1971.

Greenwich Entertainment · 1:47 · carrega no clique

Imagem Autoria desconhecida, 1971 / Wikimedia Commons · Public domain

Leia também A matéria completa

Fonte Euronews · Wikipedia, Copa 71

17 de maio de 2024 Bangkok, Tailândia

No 74º Congresso da FIFA, em Bangkok, o Brasil venceu por 119 votos a 78 a candidatura conjunta de Alemanha, Bélgica e Holanda e ficou com a Copa do Mundo Feminina de 2027. Será a décima edição do torneio e a primeira da América do Sul. Ednaldo Rodrigues, presidente da CBF, disse que a decisão teria grande impacto positivo no futebol feminino. Oitenta e três anos depois de o Estado brasileiro proibir a mulher de jogar bola, o país foi escolhido para sediar o Mundial delas.

O plenário do 74º Congresso da FIFA, em Bangkok, no momento em que o telão anuncia o Brasil como sede da Copa do Mundo Feminina de 2027.

Cobertura do anúncio da vitória brasileira no congresso da FIFA em Bangkok, em maio de 2024.

africanews · 1:05 · carrega no clique

Imagem Fifa/Reprodução

Leia também O guia da Copa

Fonte Agência Brasil · FIFA

2024 Paris, França no mesmo tempo, no mundo

Paris 2024 foi a primeira edição dos Jogos com paridade total de vagas: 5.250 atletas homens e 5.250 mulheres. A trajetória: 2,2% de mulheres em Paris 1900, 13% em Tóquio 1964, 23% em Los Angeles 1984, 44% em Londres 2012 e 50% em Paris 2024. Foram 124 anos. Na mesma edição, Rebeca Andrade ganhou o ouro no solo em 5 de agosto e se tornou a maior medalhista olímpica da história do Brasil, com seis medalhas.

Rebeca Andrade nos Jogos de Paris

Imagem Wikimedia Commons · CC0

Fonte ONU Mulheres · CNN Brasil, sobre Rebeca Andrade

10 de agosto de 2024 Parc des Princes, Paris

Estados Unidos 1 x 0 Brasil, gol de Mallory Swanson no segundo tempo. O Brasil chegou à final eliminando a França nas quartas e a Espanha na semifinal. É a terceira prata olímpica do país, e as três finais perdidas foram para o mesmo adversário: Atenas 2004, Pequim 2008 e Paris 2024. Marta encerrou a trajetória olímpica com 13 gols, segunda maior artilheira da história do torneio, atrás apenas de Cristiane, com 14, e foi a única brasileira presente nas três campanhas de medalha.

Brasil e Espanha no torneio olímpico de Paris 2024, a caminho da terceira prata brasileira.

Imagem Eric Salard / Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

Fonte Agência Brasil

22 de setembro de 2024 Neo Química Arena, São Paulo

Corinthians 2 x 0 São Paulo na final do Brasileirão Feminino, com gols de Jaque Ribeiro e Carol Nogueira, diante de 44.529 pagantes. É o maior público da história do futebol feminino de clubes na América do Sul, e o hexacampeonato do Corinthians. Em 2025 o clube seria heptacampeão, batendo o Cruzeiro por 1 a 0 na partida final e 3 a 2 no placar agregado.

Vista aérea da Neo Química Arena, palco da final do Brasileirão Feminino de 2024. Fotografia de arquivo do estádio, não da torcida na final.

Imagem Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Fonte Corinthians

7 de maio de 2025 Brasil

A FIFA anunciou as oito cidades que receberão a Copa de 2027, todas com estádios da Copa masculina de 2014: Rio de Janeiro no Maracanã, São Paulo na Neo Química Arena, Belo Horizonte no Mineirão, Brasília no Mané Garrincha, Salvador na Fonte Nova, Fortaleza no Castelão, Recife na Arena de Pernambuco e Porto Alegre no Beira-Rio. O Maracanã recebe a abertura e a final. Doze cidades se candidataram e ficaram de fora Belém, Cuiabá, Manaus e Natal.

Nota A distribuição dos jogos por cidade e as capacidades oficiais dos estádios saem depois do sorteio.

O interior do Maracanã

Vídeo oficial da FIFA anunciando os oito estádios da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil.

FIFA · 1:30 · carrega no clique

Imagem Tânia Rêgo, Agência Brasil · uso jornalístico, pós-2017

Leia também As oito cidades-sede

Fonte Agência Brasil · CNN Brasil

2 de agosto de 2025 Quito, Equador

Empate em 3 a 3 no tempo normal, 4 a 4 na prorrogação e 5 a 4 nos pênaltis. Marta marcou dois, um no tempo normal e um na prorrogação, mas perdeu sua cobrança na disputa. A goleira Lorena foi a heroína. Marcaram também Angelina, de pênalti, e Amanda Gutierres. Pela Colômbia, Linda Caicedo, Mayra Ramírez e Leicy Santos. É o nono título brasileiro em dez edições do torneio, o quinto consecutivo, e o primeiro de Arthur Elias no comando. Marta foi eleita a melhor do torneio.

As campeãs da Copa América de 2025 recebidas em Brasília, em setembro daquele ano. Foi o nono título continental do Brasil.

Imagem Lula Oficial / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Fonte Agência Brasil · Wikipedia, 2025 Copa América Femenina final

Setembro de 2025 Brasil

O alcance na TV Brasil e na Rede Nacional de Comunicação Pública passou de 2,7 milhões de pessoas em 2024 para 3,6 milhões em 2025, alta de 41%. A audiência média da série cresceu 23%, o alcance médio domiciliar subiu 11%, de 122 mil para 135 mil lares por jogo, e o tempo médio de consumo aumentou 16%, para cerca de 28 minutos por jogo. Foram mais de 130 horas de programação a partir de mais de 30 estádios.

Laís Estevam em partida do Brasileirão Feminino, a competição cuja audiência na TV pública cresceu 41% em um ano.

Imagem Fabio Giannelli / Agência Soccer Digital, via Wikimedia Commons · Public domain

Leia também A Copa em números

Fonte Lance! Biz

24 de novembro de 2025 Brasil

Ao divulgar o calendário de 2026, a CBF confirmou a mudança estrutural: os clubes da primeira divisão terão de ter atletas profissionais a partir de 2027. O Brasileirão A1 de 2026 começa em 15 de fevereiro, com 18 clubes, e premiação de 2 milhões de reais ao campeão, 1 milhão ao vice e 720 mil de cota de participação por clube. A CBF também passou a custear despesas de viagem de mães lactantes acompanhadas de seus bebês. Vale ler isso ao lado do artigo 3º da Deliberação 01/83, que vedava expressamente o profissionalismo feminino.

A sede da CBF, na Barra da Tijuca. Foi de lá que saiu a exigência de atletas profissionais na primeira divisão a partir de 2027.

Imagem Wikimedia Commons · CC BY 3.0 br

Fonte Metrópoles

25 de janeiro de 2026 Copacabana, Rio de Janeiro

Em evento em Copacabana, a FIFA apresentou a identidade visual completa do torneio. O emblema combina as letras W e M, de women e world, mulheres e mundo, com inspiração na bandeira brasileira e na geometria do campo. O slogan oficial é Vai Ser Épico. A identidade sonora incorpora ritmos brasileiros, percussão de samba e herança afro-brasileira. Estiveram no evento Formiga, Cristiane, Ronaldo, Cafu, os técnicos Arthur Elias e Carlo Ancelotti, o presidente da CBF Samir Xaud e Gianni Infantino.

Marca oficial da Copa do Mundo Feminina da FIFA Brasil 2027, apresentada em janeiro de 2026. Arte de divulgação do torneio.

Vídeo oficial de lançamento da marca da Copa do Mundo Feminina de 2027, apresentada no Rio de Janeiro.

FIFA · 1:01 · carrega no clique

Imagem Arte: FIFA / Reprodução

Leia também O guia da Copa

Fonte CNN Brasil

1º de junho de 2026 Brasil

Em 1º de junho de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.421, publicada no dia seguinte. Ela autorizou um prêmio único de R$ 500 mil por atleta das seleções que disputaram o torneio experimental da FIFA de 1988 e a primeira Copa do Mundo Feminina, em 1991. O pagamento cabe ao Ministério do Esporte e depende da disponibilidade orçamentária e financeira. A lei também permite que sucessores legais de atletas falecidas se habilitem ao recebimento. Pelézinha, Caju e Russa celebraram o reconhecimento em entrevista à TV Brasil. O recorte de competições define quem a legislação contempla; não determina quando a Seleção começou nem resume toda a trajetória das mulheres que abriram caminho no futebol brasileiro.

Nota Apuração atualizada em 30 de setembro de 2026. A autorização legal não comprova o pagamento: em entrevista publicada em setembro, o ministro do Esporte informou previsão de desembolso para novembro. Não localizamos comprovação oficial de pagamento já realizado. Ter participado de 1986 não exclui automaticamente uma atleta que também integrou as equipes contempladas. As fontes consultadas não sustentam a alegação de exclusão coletiva daquela geração.

Pelézinha, Caju e Russa com Cissa Guimarães e Marília Arrigoni no especial do Sem Censura exibido em junho de 2026, quando as pioneiras celebraram o reconhecimento.

Imagem Rodrigo Peixoto / TV Brasil · Reprodução jornalística com indicação da fonte, conforme termos da EBC

Leia também O Brasil em campo em 1986 · O teste que criou a Copa · Elane faz o primeiro gol

Fonte Lei nº 15.421/2026, artigos 40 a 43 · Agência Brasil, depoimentos de Pelézinha, Caju e Russa · Sport Insider/Terra, previsão de pagamento em novembro · TV Brasil, fotografia e especial com as pioneiras

6 e 9 de junho de 2026 São Paulo e Fortaleza

Dois amistosos contra os Estados Unidos, em 6 de junho na Neo Química Arena e em 9 de junho na Arena Castelão, ambos estádios-sede de 2027, servindo de teste para times e infraestrutura. Arthur Elias disse que seriam jogos muito importantes para o crescimento da equipe, e que historicamente os Estados Unidos têm o melhor retrospecto contra o Brasil. A técnica americana é Emma Hayes. Em seis jogos anteriores no Brasil, o retrospecto é equilibrado: duas vitórias para cada lado e dois empates.

Vista aérea da Neo Química Arena, em São Paulo, um dos estádios previstos para os amistosos de junho de 2026. Fotografia de arquivo do local; não é um registro da partida.

Imagem Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Fonte Band

11 de dezembro de 2026 Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro

O sorteio dos grupos da Copa de 2027 acontece no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, com mais de mil convidados, incluindo as delegações classificadas e as da repescagem. Serão 32 seleções em oito grupos de quatro, com as duas primeiras de cada grupo indo às oitavas, num total de 64 jogos. A distribuição de vagas aprovada em dezembro de 2024 dá 11 à UEFA, 6 à AFC, 4 à CAF, 4 à CONCACAF, 2 à CONMEBOL mais o Brasil como país-sede e 1 à OFC, com mais 3 pela repescagem intercontinental.

Nota Potes, critérios de distribuição e horário ainda não foram divulgados pela FIFA.

O Museu de Arte Moderna do Rio, onde o sorteio dos grupos está marcado para 11 de dezembro de 2026.

A FIFA apresenta o calendário completo da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil.

FIFA · 1:13 · carrega no clique

Imagem Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Leia também Chaves e grupos · Calendário de jogos

Fonte CNN Brasil · Wikipedia, 2027 FIFA Women's World Cup qualification

24 de junho de 2027 Maracanã, Rio de Janeiro

A Copa do Mundo Feminina de 2027 vai de 24 de junho a 25 de julho, com 32 seleções e 64 jogos em oito cidades. A estreia do Brasil é no dia 24 de junho, no Maracanã, e a final em 25 de julho, no mesmo estádio. Duzentos e trinta e dois anos depois das peixeiras de Fisherrow, 106 anos depois de a Football Association declarar o jogo inadequado para mulheres, e 86 anos depois de o Estado brasileiro proibir por decreto que uma mulher jogasse bola neste país.

Nota Os adversários do Brasil dependem da conclusão das eliminatórias e do sorteio de 11 de dezembro de 2026.

Vista aérea do Maracanã, em dezembro de 2016. O estádio está previsto para receber a abertura da Copa do Mundo Feminina de 2027.

Programa oficial da FIFA marcando um ano para a Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil.

FIFA · 30:26 · carrega no clique

Imagem Diego Baravelli / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Leia também O guia da Copa · Calendário de jogos · Ingressos

Fonte GP1 · Wikipedia, 2027 FIFA Women's World Cup · Fonte da imagem — Diego Baravelli / Wikimedia Commons

Quadro de honra

Quem ganhou, e diante de quanta gente

A coluna do público é a que conta a história inteira: dezessete mil em Solna, em 1995, e noventa mil no Rose Bowl quatro anos depois. Onde o número não foi localizado em fonte confiável, está escrito que não foi. Nunca zero.

Copa do Mundo Feminina da FIFA, campeãs por edição
AnoSedeCampeãViceFinalPúblico da final
1991ChinaEstados UnidosNoruega2 a 163.000
1995SuéciaNoruegaAlemanha2 a 017.158
1999Estados UnidosEstados UnidosChina0 a 0, 5 a 4 nos pênaltis90.185
2003Estados UnidosAlemanhaSuécia2 a 1, gol de ouro26.137
2007ChinaAlemanhaBrasil2 a 031.000
2011AlemanhaJapãoEstados Unidos2 a 2, 3 a 1 nos pênaltis48.817
2015CanadáEstados UnidosJapão5 a 253.341
2019FrançaEstados UnidosHolanda2 a 057.900
2023Austrália e Nova ZelândiaEspanhaInglaterra1 a 075.784
2027Brasila disputarnão confirmado
  • Estados Unidos 4 títulos
  • Alemanha 2 títulos
  • Noruega 1 título
  • Japão 1 título
  • Espanha 1 título
  • Brasil nenhum título Um vice, em 2007
Futebol feminino olímpico, campeãs por edição
AnoSedeOuroPrataBronzePúblico da final
1996AtlantaEstados UnidosChinaNoruega76.481
2000SydneyNoruegaEstados UnidosAlemanhanão confirmado
2004AtenasEstados UnidosBrasilAlemanhanão confirmado
2008PequimEstados UnidosBrasilAlemanhanão confirmado
2012LondresEstados UnidosJapãoCanadá80.203
2016Rio de JaneiroAlemanhaSuéciaCanadánão confirmado
2021TóquioCanadáSuéciaEstados Unidos0portões fechados, pandemia
2024ParisEstados UnidosBrasilAlemanhanão confirmado
  • Estados Unidos 5 ouros
  • Noruega 1 ouro
  • Alemanha 1 ouro
  • Canadá 1 ouro
  • Brasil nenhum ouro Três pratas, em 2004, 2008 e 2024, todas perdidas para os Estados Unidos

Fontes Wikipedia, FIFA Women's World Cup, por edição · Wikipedia, Football at the Summer Olympics, women's tournament · Guinness World Records, recorde de público olímpico · SportsPro, público e audiência de 2023

Saída

A história não terminou aqui

Quatro séculos separam a ata de igreja escocesa que reclamava do dia da semana, e não do sexo de quem jogava, do Maracanã que abre a Copa em julho de 2027. No meio ficaram 143 marcos: a fábrica de munição que virou clube, as cinquenta e três mil pessoas de um Boxing Day em Liverpool, a federação inglesa fechando os campos por quase cinquenta anos, o decreto brasileiro de 1941 e os trinta e oito anos de escuro que vieram depois dele.

Nenhuma dessas portas se abriu sozinha. Cada uma cedeu porque alguém continuou jogando enquanto era proibido, e porque alguém anotou. Este museu é feito do que foi anotado, e quase tudo aqui sobreviveu por muito pouco.

A parte que falta é a maior, e está sendo escrita agora. O resto desta casa é onde ela aparece todo dia.

Maracanã / Wikimedia Commons · Domínio público

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