
Antes de o futebol ter regra, clube ou federação, mulheres já jogavam bola. Essa história agora tem endereço, o Impróprias, o museu virtual da Ginga36 dedicado à história do futebol feminino. Gratuita e aberta ao público, a exposição em 3D reúne 149 marcos em oito salas. O percurso começa num poema chinês do século 9 e termina na Copa do Mundo Feminina 2027, que terá abertura e final no Maracanã.
O acervo reúne recortes de jornal, decretos, fotografias, cartazes e trechos de filmes de época. Cada peça traz a fonte da informação e o crédito da imagem.
Visite o Impróprias, o museu da história do futebol feminino da Ginga36Por muito tempo, a história do futebol foi contada a partir das instituições que organizaram o esporte, dos campeonatos oficiais e dos jogadores que conquistaram espaço nos gramados. No futebol feminino, esse recorte deixa de fora as mulheres que jogaram antes de serem autorizadas, enfrentaram proibições e mantiveram a modalidade viva.
As barreiras que elas encontraram tiveram autoria: decisões de federações e de governos, sustentadas por preconceito.
Na China, pinturas da dinastia Han (202 a.C. a 220 d.C.) mostram mulheres jogando cuju, o jogo de chutar a bola que a FIFA reconhece como a forma mais antiga de futebol. O registro escrito mais antigo é um poema de Wang Jian, do século 9, que descreve meninas da corte jogando entre si.
Na Escócia, em 1628, o pastor John Lindsay, da paróquia de Carstairs, anotou na ata da igreja uma queixa contra mulheres que jogavam futebol no domingo. O incômodo dele era com o dia da semana, e o fato de serem mulheres não entrava na queixa.
No século 19, os jogos de mulheres já atraíam multidões. Em 1881, times da Escócia e da Inglaterra fizeram uma série de partidas diante de milhares de pessoas. Em 1895, o primeiro jogo do British Ladies Football Club, em Londres, reuniu cerca de 10 mil espectadores.
Em 26 de dezembro de 1920, cerca de 53 mil pessoas foram ao Goodison Park, em Liverpool, ver o Dick, Kerr Ladies, time formado por operárias de uma fábrica de material de guerra em Preston. Entre 10 mil e 14 mil ficaram do lado de fora. Só em 1921, a equipe fez 67 partidas para cerca de 900 mil pessoas.
Em 5 de dezembro de 1921, a Football Association, entidade que comanda o futebol inglês, proibiu seus clubes de ceder campos para partidas de mulheres, alegando que o jogo era inadequado para elas. Outros países seguiram o exemplo: País de Gales e Canadá em 1922, Itália em 1933, Iugoslávia em 1939, França e Brasil em 1941, Nigéria em 1950 e Alemanha em 1955.
Em 14 de abril de 1941, o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei nº 3.199. O artigo 54 vetava às mulheres os “desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. O texto não citava o futebol. Deixava para o Conselho Nacional de Desportos (CND), órgão criado pelo mesmo decreto, a tarefa de listar o que seria proibido. A lista veio em 1965, já na ditadura militar, com a Deliberação nº 7 do CND, que incluiu o futebol.
Mesmo assim, elas continuaram jogando. Em 1958, o time feminino do Araguari Atlético Clube, de Minas Gerais, lotou estádios por onde passou, até ser extinto com base no decreto, nove meses depois da estreia.
A proibição começou a cair em 1979. Em 1983, a modalidade voltou a ser regulamentada, mas o texto vetava o profissionalismo: as mulheres podiam jogar, mas não podiam viver do futebol. A primeira Copa do Mundo Feminina organizada pela FIFA só seria disputada em 1991.
Quando a prática era proibida ou desestimulada, muitas experiências ficaram sem registro. O que restou, muitas vezes por acaso, está em fotografias, jornais, documentos oficiais e relatos de quem viveu esse período.
A história do futebol feminino também é feita por pioneiras, equipes amadoras, dirigentes, árbitras e torcedoras que mantiveram o esporte vivo quando tudo jogava contra. Conhecer essas trajetórias mostra que cada conquista de hoje foi precedida por mulheres que abriram caminho e desafiaram regras.
Com a Copa do Mundo Feminina 2027 no Brasil, olhar para trás ajuda a medir o tamanho das conquistas e as desigualdades que continuam em campo.
O museu Impróprias funciona no navegador, no computador ou no celular. Dá para caminhar pelas salas em 3D, ouvir a narração de cada sala com som ambiente ou ler tudo na versão em texto, com uma página para cada sala:
Antes de existir o esporte (c. 800 a 1893) O clube, a guerra e o auge (1894 a 1921) O mundo fecha a porta (1921 a 1941) Trinta e oito anos no escuro (1941 a 1970) A volta por cima (1970 a 1990) A Copa existe (1991 a 2007) A explosão (2008 a 2023) A Copa em casa (2024 a 2027)
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