
Patricia Mayr, da área de patrocínios e parcerias do Instituto Brasileiro de Futebol Feminino (IBFF), publicou em 14 de setembro de 2026 uma carta aberta às lideranças de marketing e patrocínio do país no Meio & Mensagem. O pedido: que as marcas deixem de patrocinar só a exposição de logo e passem a investir na base do futebol feminino brasileiro antes da Copa do Mundo Feminina 2027.
Para escrever o texto, ela conversou com duas organizações que trabalham pelo crescimento da modalidade. O ponto de partida foi o calendário: em 2027, o Brasil sedia a Copa do Mundo Feminina pela primeira vez na história, e, para a autora, muita gente ainda não tinha entendido o tamanho do que está chegando.
Segundo Patricia Mayr, os patrocínios seguiam feitos de forma antiquada, numa lógica de mídia guiada pela exposição de logo. Faltava, na avaliação dela, construção profunda de comunidade e impacto real que aumentasse a reputação da marca junto aos fandoms.
A autora viu ainda uma janela aberta pelo momento da seleção masculina, que descreveu em crise de imagem e de otimismo. Para ela, a Copa vai gerar uma nova conexão do público com o futebol.
A carta reconheceu avanços mensuráveis, mas os considerou longe de suficientes. Em 2025, segundo a FIFA, 92 marcas estamparam os uniformes das 16 equipes da primeira divisão do Brasileirão Feminino, e metade delas investia apenas na modalidade, sem repetir o patrocínio no masculino.
As buscas por futebol feminino no YouTube cresceram 200% no Brasil em cinco anos, contra 30% a 70% no mundo, a depender da fonte. A final do Brasileirão Feminino de 2025 teve renda recorde de R$ 1,24 milhão.
Os números do trabalho contam outra história. Segundo o Ministério do Esporte, citado na carta, apenas 19,2% das atletas têm vínculo profissional formal, e 47,9% não recebem salário nem ajuda de custo.
Para Patricia Mayr, a raiz do problema é a falta de base. O país não tem sequer um campeonato sub-15 feminino estruturado, e os projetos sociais bancam o que deveria ser política pública somada a investimento privado.
São esses projetos que chegam ao bairro, à cidade pequena e à periferia, e que seguram a menina entre os 12 e os 17 anos, a fase em que ela mais desiste. A carta citou a Unesco: 49% das meninas abandonam o esporte na adolescência, taxa seis vezes maior que a dos meninos. Na avaliação da autora, ninguém patrocinava de fato esse processo, só o resultado dele, quando aparece numa transmissão de TV durante um grande campeonato.
A autora apoiou o pedido na pesquisa Consumo de Futebol Feminino, feita pela Máquina do Esporte e pelas Dibradoras em 2025. Segundo o levantamento, 82% dos fãs da modalidade dizem preferir marcas que patrocinam o futebol feminino, e 86% das marcas que já investiram relataram retorno igual ou acima do esperado.
O exemplo da carta foi o Guaraná Antarctica. Quando a marca anunciou o patrocínio do Vasco feminino, o post foi tomado por comentários de homens brancos entre 45 e 55 anos dizendo que abandonariam os concorrentes, um público que, para a autora, dificilmente tinha sido mapeado como alvo.
Mesmo assim, o diagnóstico foi duro: “São poucas as marcas que investem acreditando que futebol feminino é negócio. A maioria ainda acha que está fazendo um favor”, escreveu Patricia Mayr.
Por isso, a carta não pediu favor. Apresentou uma oportunidade de gerar impacto, lembrança e significado numa janela que não vai se repetir, com audiência, estádios cheios e câmeras voltadas para a modalidade durante a Copa. A conclusão da autora foi que patrocínio sozinho não constrói o que precisa ser feito, mas saber o lugar, a forma e o poder de atuação de cada marca, sim.
A carta deslocou a conversa do patrocínio para antes do resultado: da camisa do time da primeira divisão e da transmissão da Copa para a menina de 12 a 17 anos que ainda está no projeto social. Para a torcedora e para as marcas que planejam entrar na modalidade em 2027, o recado é que o investimento que falta está na formação, num país que, segundo a autora, não tem campeonato sub-15 feminino estruturado.
Patricia Mayr, da área de patrocínios e parcerias do Instituto Brasileiro de Futebol Feminino (IBFF), no Meio & Mensagem, em 14 de setembro de 2026.
Segundo a FIFA, citada na carta, 92 marcas estamparam os uniformes das 16 equipes da primeira divisão; metade delas investia só no futebol feminino.
A falta de base: não há campeonato sub-15 feminino estruturado, e os projetos sociais que seguram as meninas na fase em que mais abandonam o esporte não têm patrocínio.