Poucas jogadoras estão mais associadas à Copa do Mundo Feminina Sub-20 da FIFA™ do que o ícone canadense Christine Sinclair. Sinclair já era uma peça estabelecida da seleção principal quando foi escolhida para jogar pelas Canucks no primeiro Campeonato Mundial Feminino Sub-19 da FIFA, hoje conhecido como Copa do Mundo Feminina Sub-20, disputado em solo canadense em 2002. Ela começou com tudo, marcando cinco gols na fase de grupos, incluindo dois gols contra o Japão e dois contra a Nigéria. Mas foi nas quartas de final que Sinclair chamou a atenção do mundo com uma atuação notável de cinco gols contra a Inglaterra. No total, Sinclair marcou dez gols, o que segue sendo recorde do torneio, empatado com o da alemã Alexandra Popp, e lhe garantiu tanto a Chuteira de Ouro adidas quanto a Bola de Ouro, enquanto o Canadá terminou como vice-campeão. Sinclair seguiu para ter uma carreira lendária, disputando incríveis seis Copas do Mundo Femininas da FIFA™ e quatro Jogos Olímpicos, nos quais conquistou um ouro e dois bronzes. Em uma carreira de 25 anos, Sinclair marcou 190 gols em 331 partidas pela seleção principal do Canadá, tornando-se a maior artilheira do futebol internacional, tanto no masculino quanto no feminino. Antes da participação do Canadá no torneio Sub-20 na Polônia, Sinclair falou à FIFA sobre sua atuação icônica contra a Inglaterra, sobre como a experiência do torneio a preparou para uma brilhante carreira principal e sobre seu novo documentário animado Christine Sinclair: Kind of a Big Deal.
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FIFA: Como a expectativa cresceu no Canadá durante a primeira Copa do Mundo Feminina Sub-20 da FIFA? Christine Sinclair: Para nós, jogadoras, foi um baita acontecimento. A sensação era de “o mundo inteiro está vindo para o Canadá, isso vai ser incrível”. Em termos de agitação pelo país, quando começou e a gente engrenou, foi só crescendo e crescendo. A gente estava baseada em Edmonton, e a cidade esteve totalmente do nosso lado desde o primeiro dia. Foi bem especial no jogo de abertura e só foi crescendo a partir daí.
Quão confiante você estava do sucesso, tanto individual quanto coletivo? Individualmente, eu sabia que estava pronta. Eu já jogava pela seleção principal havia dois anos. Eu sabia mais ou menos do que era capaz, mas obviamente não esperava que o torneio fosse tão bem assim para mim pessoalmente. Como equipe, sabíamos que iríamos competir. Sabíamos que tínhamos chance de fazer um bom torneio, principalmente na reta final da preparação, já que estávamos invictas. Havia muita qualidade naquele time, com jogadoras que já haviam defendido a seleção [principal], então sabíamos que tínhamos potencial para ir bem. Antes do torneio, nosso objetivo era vencer, e eu não acho que isso estivesse fora de cogitação. Sabíamos que, se jogássemos bem, poderíamos vencer praticamente qualquer adversária.
Parece que você se apresentou ao mundo com seus cinco gols contra a Inglaterra. Essa foi uma das suas maiores atuações na carreira internacional? Como atacante e artilheira, seu sucesso e seu fracasso, aos olhos de quem está de fora, são julgados basicamente por você colocar a bola na rede ou não. Aquele jogo contra a Inglaterra foi um daqueles jogos que, de vez em quando, uma jogadora tem, em que tudo que você toca vira gol, tudo parece dar certo para você e para o seu time... Não sei se dá para chamar isso de estar “no embalo”. Como atacante, você não marca cinco gols sem suas companheiras de time, e jogamos muito bem naquele jogo. Olhando para trás, marquei alguns gols bonitos. Alguns foram sorte... outra jogadora estava numa jogada de contra-ataque, acertou a trave e, claro, a bola sobrou para mim. Foi só um daqueles jogos em que tudo deu certo, e foi tipo “oi, eu sou a Christine Sinclair e eu faço gols”. Como atacante, você não tem muitos jogos assim, e foi bom ter um deles em um campeonato mundial.
Mesmo com a derrota do Canadá na final, o sucesso daquele torneio pareceu um ponto de virada para o futebol feminino no país? Acho que esperávamos que fosse. Éramos só umas garotas, e naquele momento não estávamos pensando no futuro do esporte feminino. Mas você espera que aquilo mude as coisas... não estávamos trazendo uma liga profissional para o Canadá em 2002, isso não era uma realidade, mas esperávamos que as coisas mudassem para o programa da seleção em termos de mais apoio. Demorou muito tempo até vermos mudanças significativas, e acho que isso veio com a Copa do Mundo Feminina principal sediada [em 2015]. Mas acho que o que aquele torneio fez foi criar uma geração de jovens torcedoras de futebol no país, especialmente meninas, e inspirar um grupo de jogadoras que já estavam jogando. Acho que esse foi o maior impacto; não acho que estávamos tentando mudar o mundo naquele momento.
De que maneiras o torneio Sub-20 ajudou a prepará-la para o sucesso na carreira e para atuar na Copa do Mundo Feminina principal da FIFA? Esses torneios de base não são a mesma coisa que uma Copa do Mundo principal de verdade, mas você tem uma prévia do que é disputar um torneio e enfrentar outros países um atrás do outro, ficar tanto tempo viajando e morando em hotéis, além das expectativas e da pressão de desempenho. Claro que, com o torneio sendo no Canadá, você sente aquela pressão e aquele estresse a mais de jogar na frente de amigos e família, da mídia e de coisas do tipo. Foi minha primeira experiência com esse lado do jogo, então isso ajudou em 2003, na Copa do Mundo Feminina, já que eu tinha vivido, obviamente em uma escala menor, um pouco daquilo.
O que você acha das chances do Canadá na Polônia 2026? Elas estão em um grupo difícil, com Inglaterra e Brasil, mas vão se sair bem. O futebol de base no país está evoluindo e mudando rápido, com a [Northern Super League] e jogadoras agora em academias profissionais e sistemas de base, onde as atletas chegam à seleção principal e às seleções de base por mérito, e não por acaso. [A técnica principal, Casey Stoney,] está trabalhando muito para construir esses caminhos... Vai ser difícil, mas tenho total confiança de que elas vão se sair bem.
Por fim, você lançou recentemente um curta documentário animado sobre sua carreira. O que te atraiu nesse projeto e nesse formato específico? Eu sou bem tímida, e com o fim da minha carreira as pessoas ficavam dizendo que eu deveria fazer um documentário. A ideia de uma equipe de filmagem me seguindo por um ano me assustava, e eu disse que de jeito nenhum. Através de um curta animado, baseado na ideia de Dear Basketball, do Kobe Bryant, veio a inspiração. Uma forma de alcançar um público diferente e continuar inspirando crianças. O futebol foi uma parte importante da minha vida, mas também conseguir incorporar um pouco do mundo real, com minha família e minha mãe, foi muito importante para mim. Era importante que as pessoas reconhecessem que as atletas passam pela vida como todo mundo, que existem dificuldades e desafios, e que nem tudo é sempre tranquilo. E ter alguém como o Ryan Reynolds vindo narrar levou tudo a um outro nível. Ele é um torcedor de futebol tão grande, e era o número um da nossa lista de canadenses icônicos para narrar, e quando ele disse que sim foi inacreditável. É um projetinho divertido e muito legal de ver.