
O Aterro do Flamengo, na Marina da Glória, foi inaugurado em 1965. Não muito depois, nasceu ali a pelada dos garçons. Sempre de madrugada, sempre depois de um dia inteiro em pé servindo comida na zona sul carioca. Não existe pelada mais raiz do que essa. É fome de bola disputando espaço com o cansaço, e vencendo.
As mulheres só chegaram ao gramado décadas depois. Fazia sentido: o Brasil proibiu por lei que mulheres jogassem futebol entre 1941 e 1979, quase 40 anos de decreto. As peladeiras do Aterro só ocuparam o espaço na década de 80. E eu só soube que aquilo existia em 2007. Na época, eu morava na Glória, a cinco minutos a pé do Aterro, e trabalhava como repórter cobrindo o cotidiano da cidade e casos de violência urbana. Foi assim, sentada numa calçada em frente a uma delegacia, no meio da cobertura de uma invasão policial em comunidade, que a repórter Gabriela Moreira me convidou para jogar. Toda segunda-feira, das 23h à meia-noite. Antes que os garçons chegassem para o turno deles, um grupo de mulheres tomava o gramado.
Era véspera dos Jogos Pan-Americanos do Rio. As atletas já deviam estar concentradas, treinando, se ambientando ou, talvez, entediadas. Isso explicaria uma craque no auge da carreira aparecer numa pelada de madrugada no Aterro. Fizemos um círculo em torno dela. Animadas e com medo, em doses iguais. Medo de machucar Formiga com a nossa falta de habilidade. Não tiramos foto, pois na época não tínhamos celular com câmera. Lembro dela sorrindo, brincando, dando risada. Ela não conseguiu jogar bem porque nós éramos ruins demais.
“Semanas depois, em 26 de julho de 2007, Formiga era bicampeã pan-americana, goleando os Estados Unidos por 5 a 0 no Maracanã”
Semanas depois, em 26 de julho de 2007, Formiga era bicampeã pan-americana, goleando os Estados Unidos por 5 a 0 no Maracanã, o mesmo estádio que vai receber a final da Copa do Mundo Feminina de 2027, a primeira sediada pelo Brasil. Naquele julho, era só o começo de uma carreira que viria a somar sete Copas do Mundo, sete Olimpíadas, mais de 230 jogos pela seleção, vice-campeonato mundial em 2007 e vice-olímpico em 2004 e 2008. Recorde de participações em Mundiais que nenhum jogador ou jogadora do planeta tem. Formiga se despediria da seleção só em novembro de 2021, aos 43 anos, contra a Índia. Uma carreira comprida o bastante para caber, ali no meio, uma pelada de segunda-feira que ninguém documentou. Só minha memória. Naquela noite, a maior recordista de Copas do Mundo da história foi, por uma hora, só mais uma peladeira como eu.