IMPRÓPRIAS

GINGA36 · RevistaIMPRÓPRIAS
O clube, a guerra e o auge: a sala 2 da exposição Impróprias, do GINGA36, com o filme Vickers de 1917, e a linha do tempo.

O clube, a guerra e o auge: a sala 2 da exposição Impróprias, do GINGA36, com o filme Vickers de 1917, e a linha do tempo.

O nome não é ironia nossa. Está no artigo 54 do decreto-lei que Getúlio Vargas assinou em 14 de abril de 1941: às mulheres não se permitiria a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza. O texto nem cita futebol. Delegou a um conselho dizer o que era impróprio, e o conselho levou 24 anos pra escrever a palavra. No meio do caminho, a proibição valeu do mesmo jeito.

A exposição começa muito antes disso. Abre numa ata da igreja de Carstairs, na Escócia, de 1628, que registra mulheres jogando bola dois séculos antes da primeira regra escrita. Passa pelo Dick, Kerr Ladies enchendo Goodison Park com 53 mil pessoas em 1920, um ano antes de a Inglaterra fechar os campos pra elas. Pelas dezoito mil de Essen, em 1956, vendo um jogo proibido no ano anterior. Pelo Araguari Atlético Clube, que lotou o Independência em 1958 e durou nove meses.

Em janeiro de 1941, três meses antes do decreto, dona Carlota, dirigente de um time carioca, já tinha sido presa. E a imprensa fazia coro: em maio de 1940, o Diário da Noite chamava o futebol delas de "um disparate sportivo que não deve proseguir". A página está na parede da sala 3, com a manchete em caixa alta, do jeito que saiu.

É um museu de verdade, só que na tela. Oito salas, cada uma com nome e período: Antes de existir a palavra, O clube, a guerra e o auge, O mundo fecha a porta, Trinta e oito anos no escuro, A volta por cima, A Copa existe, A explosão, A Copa em casa. Dentro delas, 138 peças: fotografias de arquivo, páginas de jornal, o decreto, quase trinta vídeos. Cada peça tem data, texto, fonte com link e crédito de imagem com a licença.

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Reprodução/GINGA36
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“Cada sala tem trilha própria e cada peça tem um botão de ouvir, pra quem prefere que a história seja contada em voz alta.”

Quando o dado é disputado, a etiqueta diz isso na cara, e é assim que a gente prefere: melhor uma dúvida declarada do que uma certeza inventada.

Cada sala tem trilha própria e cada peça tem um botão de ouvir, pra quem prefere que a história seja contada em voz alta. Nas duas salas de proibição, o fio da linha do tempo vira tracejado, e em certo trecho ele corre vazio: é o silêncio dos anos em que nada podia acontecer. As fotos são todas em preto e branco até que a história ganhe cor. A sala 3 não tem uma imagem colorida. A sala 7 não tem uma monocromática.

Correndo ao lado, uma segunda faixa conta o que acontecia com as mulheres fora do campo enquanto isso. O voto veio em 1932; o decreto que proibia a bola, nove anos depois. O divórcio, em 1977; a liberação do futebol, em 1979. A maratona feminina só entrou nas Olimpíadas em 1984, um ano depois de a CBF regulamentar o jogo aqui. É nesse contraste que a exposição inteira se sustenta: cada direito conquistado do lado de fora ajuda a entender por que o campo demorou tanto.

Página do Diário da Noite de 7 de maio de 1940

Página do Diário da Noite de 7 de maio de 1940

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Museu do Futebol, Contra-Ataque · Revista Tempo, SciELO