
Depois de acumular 192 convocações pelas Les Bleues, Bussaglia pendurou as chuteiras em 2020.
Ex-xerife do meio-campo, ela agora comanda o time masculino do Sedan Ardennes, clube de sua cidade natal.
A lenda francesa reflete sobre sua trajetória na carreira em entrevista exclusiva à FIFA.
Enquanto Marinette Pichon abriu caminho no futebol feminino francês e Wendie Renard encarna as recompensas trazidas pela profissionalização da modalidade, Elise Bussaglia representa, melhor do que ninguém, a transição ocorrida entre essas duas fases. Nascida em Sedan, a craque é a terceira jogadora com mais convocações na história da seleção feminina da França, com 192 partidas em seu nome, atrás apenas de Sandrine Soubeyrand, com 198, e Eugenie Le Sommer, com 200.
Embora Bussaglia tenha encerrado a carreira há seis anos, seu legado continua muito vivo. Hoje, em plena ascensão como técnica principal do Sedan Ardennes, time masculino da sexta divisão, ela acompanha de perto os acontecimentos na Premiere Ligue, onde deu os primeiros passos no futebol adulto antes de se tornar uma das melhores jogadoras da divisão. Seja curtindo as emoções da competição como espectadora, seja em seu papel de comentarista de televisão, a ex-pilar do meio-campo só pode se maravilhar com o enorme potencial da liga. De fato, o cenário do futebol feminino francês está muito distante do ambiente em que Bussaglia deu os primeiros passos no Saint-Memmie Olympique, um clube praticamente desconhecido entre torcedores com menos de 30 anos.
“Joguei futebol misto por muitos anos lá na minha terra, nas Ardenas. Havia muito poucas meninas na minha região que jogavam futebol, então eu treinava com os meninos. Joguei no Saint-Memmie, e meus pais tinham que me levar de um lado para o outro”, relembrou Bussaglia, cujo talento em campo logo foi percebido pelos observadores de Clairefontaine, o celeiro nacional de futuras estrelas, onde ela continuou seu desenvolvimento antes de se juntar ao FCF Juvisy, uma das joias da coroa do futebol feminino nacional, que hoje compete sob o nome de Paris FC.
Quando Bussaglia fez sua estreia na primeira divisão francesa, ainda adolescente, em 2005, os clubes pioneiros Lyon e Montpellier apenas começavam a lançar as bases do profissionalismo no futebol feminino. “Naquela época, eu conciliava os estudos com bicos aqui e ali para pagar as contas, o aluguel e tudo o mais. Apesar de receber ajuda de custo com viagens dos meus clubes, eu não era profissional nem sequer semiprofissional.
No final, minha rotina envolvia trabalhar durante o dia e treinar à noite. Era tão desgastante fisicamente que não sei se eu teria conseguido aguentar por tantos anos.”
O ponto de virada na carreira de Buss veio em 2012, quando ela trocou o Paris Saint-Germain pelo Lyon, hoje Lyonnes, onde finalmente conseguiu viver do futebol. A ex-armadora de jogo do Montpellier, Wolfsburg e Barcelona compartilhou sua satisfação com o fato de que hoje as coisas são muito mais fáceis para as jogadoras de elite, numa era em que o profissionalismo se tornou a regra, e não a exceção: “Uma parte de mim pensa: ‘Finalmente!’ Embora as coisas ainda não sejam totalmente profissionais, um número cada vez maior de jogadoras se profissionalizou. Mas acho que demorou tempo demais para acontecer.”
Além das melhorias na vida das jogadoras, Bussaglia testemunhou uma grande transformação na cobertura da mídia que o futebol feminino recebe em seu país. Enquanto a estreia da França no palco da Copa do Mundo Feminina FIFA™, em 2003, atraiu pouca atenção, a campanha que Bussaglia e companhia construíram para chegar às semifinais da edição global na Alemanha, oito anos depois, marcou uma virada genuína.
“Acho que a Copa do Mundo Feminina de 2011 foi um divisor de águas na França, tanto em termos de interesse da torcida quanto de atenção da mídia. De certa forma, aquele torneio nos levou a um novo patamar.”
A edição de 2011 do principal evento feminino da FIFA projetou as integrantes da seleção francesa para os holofotes, com nomes como Soubeyrand, Laura Georges, Gaetane Thiney, Louisa Necib e, claro, Bussaglia ganhando destaque praticamente da noite para o dia. O clima positivo em torno do futebol feminino francês foi reforçado depois pelas campanhas da seleção no Torneio Olímpico de Futebol Feminino de Londres 2012 e nas edições de 2015 e 2019 da Copa do Mundo Feminina FIFA, com a versátil virtuose francesa, que deixou de lado a carreira de professora para se dedicar ao futebol, brilhando nos três eventos.
Um ano após a grande vitrine mundial em casa, em 2019, enquanto Bussaglia atuava pelo Dijon, a pandemia de COVID-19 antecipou seus planos de aposentadoria em vários meses. Ainda assim, o amor duradouro da ex-maestrina do meio-campo pelo futebol fez com que ela não conseguisse se afastar dele por completo. Quando a nativa de Sedan recebeu a chance de assumir o comando do time masculino do clube de sua cidade natal, em julho de 2024, ela não pensou duas vezes, tornando-se uma das poucas mulheres a ocupar um banco de reservas no futebol masculino francês.
“Estou sendo fiel a mim mesma”, afirmou Bussaglia, totalmente focada na busca do clube pelo acesso à quinta divisão, depois de tê-lo conduzido à sexta divisão na temporada passada. “Tento adotar a mesma abordagem no comando técnico que tinha quando jogava: sempre dar 110 por cento e fazer o que for preciso para vencer.”
Depois de mostrar seu talento em campos amadores no início da carreira antes de brilhar nos estádios de tirar o fôlego do futebol de elite, Bussaglia não apenas testemunhou a ascensão do futebol feminino francês, como foi uma de suas grandes protagonistas. Com a atual geração de estrelas das Les Bleues disputando a classificação para a Copa do Mundo e prestes a escrever o próximo capítulo, sua história é um lembrete de que o progresso alcançado até agora no futebol feminino é, em si, nada menos que um triunfo retumbante.
Publicado originalmente pela FIFA em 10/04/2026: A jornada épica de Bussaglia, da base à grandeza →