Redação GINGA | Camila Eiroa

Cuju: o jogo chinês que antecedeu o futebol e já era praticado por mulheres

Redação GINGA | Camila Eiroa
Cuju: o jogo chinês que antecedeu o futebol e já era praticado por mulheres
Ilustração: Larissa Amancio para Ginga36

Muito antes de o futebol ganhar regras oficiais, clubes e federações, pessoas de diferentes sociedades já chutavam bolas e disputavam partidas. Na China antiga, uma dessas práticas ficou conhecida como Cuju. Com mais de 2 mil anos de história, o jogo tinha diferentes modalidades e também era praticado por mulheres, como mostram poemas, pinturas e outros registros históricos.

A história do cuju ajuda a ampliar a perspectiva sobre as origens do futebol e a participação feminina nos jogos com bola. Embora não seja o mesmo esporte praticado atualmente, a modalidade mostra que chutar uma bola, desenvolver técnicas e disputar partidas são práticas muito anteriores à criação do futebol moderno.

Mulheres jogando cuju, de Du Jin, dinastia Ming (c. 1465 a 1509). Museu de Xangai.

Mulheres jogando cuju, de Du Jin, dinastia Ming (c. 1465 a 1509). Museu de Xangai.

Du Jin / Museu de Xangai, via Wikimedia Commons · Domínio público

O esporte nasceu há mais de 2 mil anos

O cuju surgiu na China antiga. As primeiras menções ao jogo na literatura chinesa são do século III a.C., no período dos Reinos Combatentes (475-221 a.C.). O nome é geralmente traduzido como “chutar a bola” e designava diferentes formas de jogar, que variaram ao longo dos séculos.

A prática ganhou espaço durante a dinastia Han (202 a.C. a 220 d.C.), quando também era usada como exercício de treinamento militar. O jogo se difundiu em outros ambientes da sociedade chinesa e passou a integrar atividades recreativas e apresentações que exigiam habilidade e controle corporal.

Não existia uma única maneira de jogar cuju. Algumas modalidades priorizavam a demonstração de destreza individual, enquanto outras envolviam equipes, passes e tentativas de marcar pontos. Essa diversidade ajuda a entender por que não se deve simplesmente equiparar a prática ao futebol atual.

Cuju: regras, bola e campo

As características do jogo mudaram ao longo do tempo. Entre os registros históricos reunidos pelo Museu da FIFA, há descrições de bolas revestidas de couro e de diferentes técnicas para controlar e chutar o objeto.

Uma das modalidades, chamada baida, não tinha como objetivo principal vencer uma equipe adversária. Os participantes precisavam demonstrar habilidade mantendo a bola no ar, com sequências de movimentos e chutes específicos. A prática podia ser individual ou coletiva, reunindo até dez pessoas.

Já a versão competitiva colocava duas equipes frente a frente. Um poema de Li You, do fim da dinastia Han, fala em seis jogadores de cada lado, gols em formato de lua posicionados um diante do outro, capitães e árbitros, o que indica um grau de organização das partidas. Séculos depois, na dinastia Song, vencia a equipe que fizesse a bola passar mais vezes por uma abertura circular.

Os jogadores precisavam dominar diferentes movimentos, coordenar os passes e controlar a trajetória da bola. Manuais dedicados ao cuju descreviam pelo menos 16 tipos básicos de chute, além de técnicas e posturas corporais, demonstrando que a prática podia exigir treinamento e precisão. Apesar desses registros, nem todos os detalhes das regras originais são conhecidos: o significado de alguns tipos de chute ainda não foi decifrado.

Mulheres também jogavam cuju

A participação feminina no cuju está documentada em diferentes períodos da história chinesa. Um dos registros mais conhecidos é o poema Gong Ci, escrito pelo poeta Wang Jian, que viveu aproximadamente entre 766 e 831, durante a dinastia Tang (618-907). O texto descreve meninas da Academia Yichun jogando cuju entre si.
A presença das mulheres também aparece em registros visuais. Um espelho de bronze da dinastia Song (960-1279) traz uma representação de um homem e uma mulher jogando juntos. Já uma pintura do artista Du Jin, produzida no século XV, retrata mulheres jogando umas contra as outras em uma cena ambientada na dinastia Tang.

Durante a dinastia Yuan (1271-1368), há registros de uma versão coletiva em que oito mulheres formavam um círculo ao redor de uma participante posicionada no centro. A bola era passada do centro para a roda e de volta, em uma dinâmica que exigia coordenação e controle.

Essas evidências mostram que as mulheres não estavam completamente afastadas das práticas com bola na China antiga. Isso não significa, porém, que todas tivessem acesso ao jogo ou que a participação feminina fosse igual à masculina em todos os contextos. Os registros indicam experiências distintas, que variavam conforme a época e o ambiente social. Muitas das jogadoras eram acrobatas e artistas, que desenvolviam a habilidade com a bola como parte de suas apresentações. Já as associações de cuju da dinastia Song não há indício de que aceitassem mulheres.

Muito campo antes do futebol

A China não é o único lugar onde registros históricos mostram mulheres participando de jogos com bola muito antes da organização do futebol moderno. Na Inglaterra, um poema escrito pelo poeta inglês Sir Philip Sidney por volta de 1580 menciona mulheres jogando futebol.

O trecho descreve uma mãe que, com a saia levantada para facilitar os movimentos, jogava com outras moças. O registro é citado pela própria Football Association, a federação inglesa de futebol, em sua retrospectiva sobre a história do futebol feminino.

Na Escócia, aparece outro registro. Em 21 de agosto de 1628, o reverendo John Lindsay anotou em documentos da igreja de Carstairs sua insatisfação com pessoas que praticavam atividades recreativas aos domingos, incluindo homens e mulheres jogando futebol. O episódio é considerado pelo Museu do Futebol Escocês uma das primeiras evidências conhecidas da participação feminina em uma atividade desse tipo na Europa.

As regras vieram depois

Esses relatos ajudam a compreender que a presença das mulheres nos jogos com bola antecede a formalização do futebol como esporte. Em diferentes sociedades, as práticas existiam antes que regras padronizadas, clubes e federações definissem a organização que conhecemos hoje.

Em 1863, a Football Association foi fundada na Inglaterra e estabeleceu um conjunto de regras para o futebol. A criação dessas normas foi um marco na consolidação do esporte moderno, mas não representou o início dos jogos com bola nem da participação feminina.

Recuperar esses registros é parte do trabalho de contar a história do futebol feminino em toda a sua complexidade. Isso significa reconhecer não apenas as atletas que entraram para a história das competições, mas também as mulheres que jogaram antes da consolidação do esporte, muitas vezes em contextos que receberam pouca atenção dos relatos oficiais.

Essa história continua no IMPRÓPRIAS

O cuju abre o  IMPRÓPRIAS, museu virtual do Ginga36 sobre a história do futebol feminino. A exposição em 3D tem 8 salas e 149 marcos, do poema chinês do século 9 à Copa do Mundo Feminina 2027, no Brasil. Na Sala 1, “Antes de existir o esporte”, você encontra também o verso de Philip Sidney, a ata da igreja de Carstairs e as peixeiras de Fisherrow, na Escócia, que em 1795 já mantinham uma partida anual entre casadas e solteiras.
Redação GINGA | Camila Eiroa