
O Aterro do Flamengo, na Marina da Glória, foi inaugurado em 1965. Não muito depois, nasceu ali a pelada dos garçons. Sempre de madrugada, sempre depois de um dia inteiro em pé servindo comida na zona sul carioca. Não existe pelada mais raiz do que essa. É fome de bola disputando espaço com o cansaço, e vencendo.
Na época, eu morava na Glória, a cinco minutos a pé do Aterro, e trabalhava como repórter cobrindo o cotidiano da cidade e casos de violência urbana. Foi assim, sentada numa calçada em frente a uma delegacia, no meio da cobertura de uma invasão policial em comunidade, que a repórter Gabriela Moreira me convidou para jogar. Toda segunda-feira, das 23h à meia-noite. Antes que os garçons chegassem para o turno deles, um grupo de mulheres tomava o gramado.
Eu saía correndo da Rua Cândido Mendes, cruzava a Rua Russel, passava em frente ao Hotel Glória e encontrava as peladeiras no alambrado. Tinha um organizador. Ele garantia nosso horário, trazia os coletes, a bola, o apito. Em troca, ganhava uns trocados para a pinga e, talvez, algum lugar para dormir naquela noite. Foi ele quem me avisou: "Ó, hoje temos uma ilustre em campo."
Era Formiga.
Era véspera dos Jogos Pan-Americanos do Rio. As atletas já deviam estar concentradas, treinando, se ambientando ou, talvez, entediadas. Isso explicaria uma craque no auge da carreira aparecer numa pelada de madrugada no Aterro. Fizemos um círculo em torno dela. Animadas e com medo, em doses iguais. Medo de machucar Formiga com a nossa falta de habilidade. Não tiramos foto, pois na época não tínhamos celular com câmera. Lembro dela sorrindo, brincando, dando risada. Ela não conseguiu jogar bem porque nós éramos ruins demais.
Formiga se despediria da seleção só em novembro de 2021, aos 43 anos, contra a Índia. Uma carreira comprida o bastante para caber, ali no meio, uma pelada de segunda-feira que ninguém documentou. Só minha memória. Naquela noite, a maior recordista de Copas do Mundo da história foi, por uma hora, só mais uma peladeira como eu.
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