Gabriela Borges

Gabriela Sabino: “Não falta menina querendo jogar futebol. Faltam oportunidades.”

Gabriela Borges


Em 2025, a Copa Elas Jogam levou três semanas para preencher todas as vagas. Em 2026, as inscrições da segunda edição se esgotaram em 34 minutos. Cerca de 400 meninas das categorias Sub-15 e Sub-17 entraram em campo no campeonato gratuito de futebol feminino de base, em São Paulo, e cerca de mil pessoas foram assistir ao primeiro dia de jogos. Para Gabriela Sabino, idealizadora do torneio, os números mostram que existe uma demanda reprimida na cidade: meninas querem jogar, mas não encontram onde.

Gabriela Sabino tinha menos de cinco anos quando entrou num estádio pela primeira vez, levada pelo pai. Cresceu nas arquibancadas do Canindé ao lado dele e do avô, seu Delfim, um português que fez dela torcedora da Portuguesa. Em 2022, voltou ao clube por outra porta: foi anunciada como diretora de Relações Institucionais da Lusa. Na sala, eram cinco pessoas, e ela era a única mulher.

Gabriela é jornalista, mestre em Políticas Públicas e Governo, doutoranda em Economia na FGV e autora do livro Política, substantivo feminino (2024). Depois da Copa Elas Jogam, criou o Elas Jogam Summit, realizado em agosto de 2026 no Museu do Futebol. O encontro reuniu a lateral Tamires, a comentarista Mari Pereira, a historiadora Aira Bonfim e Juliana Picoli Agatte, secretária extraordinária responsável pelos preparativos da Copa de 2027. Do debate saiu um documento técnico com propostas para o legado do Mundial, que agora está sendo encaminhado aos órgãos e às instituições responsáveis.

Com a primeira Copa do Mundo Feminina da América do Sul cada vez mais perto, Gabriela defende que o legado comece antes da bola rolar. E lembra que, em São Paulo, muitos Clubes da Comunidade ainda não têm sequer banheiro ou vestiário feminino.

"Mulheres precisam estar onde o poder está, independentemente de quem esteja dentro de campo."

A seguir, a conversa que tive com Gabriela Sabino.

Em 2022, você contou que era a única mulher entre cinco pessoas na sala da diretoria da Portuguesa. Quatro anos depois, nas salas de decisão do futebol por onde você passa, quantas mulheres você encontra? O que mudou de lá pra cá?

GABRIELA SABINO: Hoje encontro muito mais mulheres, mas também reconheço que isso tem relação com os espaços que passei a ocupar. Nos últimos anos, tenho estado cada vez mais envolvida com iniciativas e discussões voltadas ao futebol feminino, onde, naturalmente, a presença de mulheres é maior. Isso muda a nossa percepção, mas não significa necessariamente que o cenário do futebol como um todo tenha mudado na mesma proporção.

O que eu quero ver é mais mulheres tomando decisões no futebol masculino, nas diretorias dos grandes clubes, nas federações, nas confederações e em outras modalidades esportivas. Porque a nossa capacidade de gestão não pode ficar restrita ao esporte feminino. Mulheres precisam estar onde o poder está, independentemente de quem esteja dentro de campo.

Avançamos na representatividade, mas ainda precisamos avançar muito na divisão de poder. E, para mim, um dos grandes desafios da gestão esportiva brasileira é reconhecer a presença feminina como algo natural de qualquer estrutura de decisão.

“Avançamos na representatividade, mas ainda precisamos avançar muito na divisão de poder.”

A Copa Elas Jogam passou de mais de 280 atletas em 2025 para uma expectativa de cerca de 400 em 2026. Como fechou a segunda edição e o que você mudou depois de aprender com a primeira?

GS: A segunda edição reuniu cerca de 400 meninas, das categorias Sub-15 e Sub-17. Em 2025, levamos três semanas para preencher todas as vagas da competição; já em 2026, elas se esgotaram em apenas 34 minutos! Isso mostra o tamanho da demanda reprimida que existe em São Paulo por oportunidades para meninas jogarem futebol.

Outro número que nos marcou foi a presença de aproximadamente mil pessoas no primeiro dia de jogos. Eram famílias, amigas, treinadoras e pessoas da comunidade acompanhando as meninas. Isso mostra que, quando oferecemos estrutura e oportunidade, existe público, interesse e uma rede inteira disposta a apoiar o futebol feminino.

A primeira edição foi muito sobre provar que era possível realizar uma competição gratuita, organizada e de qualidade. Na segunda, entendemos que precisávamos ir além dos jogos. Foi nesse processo que nasceu o Elas Jogam Summit, reunindo diferentes setores para discutir o futuro da modalidade e, especialmente, o legado da Copa do Mundo de 2027.

A maior lição desses dois anos é que não falta menina querendo jogar futebol. Faltam oportunidades. E, se uma iniciativa independente consegue mobilizar tantas atletas e famílias em tão pouco tempo, precisamos nos perguntar por que ainda não temos políticas públicas capazes de oferecer essas oportunidades de forma permanente e em maior escala.

"Precisamos nos perguntar por que ainda não temos políticas públicas capazes de oferecer essas oportunidades de forma permanente e em maior escala."


Você diz que uma menina permanece no futebol quando tem onde treinar, quem a leve e um campeonato para disputar. Nas duas edições da Copa Elas Jogam, qual desses obstáculos mais apareceu nas conversas com treinadoras e famílias? E qual a importância de campeonatos assim para o futebol feminino brasileiro?

GS: Acredito que o maior desafio seja a continuidade. Não adianta uma menina descobrir que gosta de futebol se ela não encontra condições para continuar praticando. E essa continuidade depende de uma combinação de fatores: espaços adequados, transporte, apoio familiar, treinadoras qualificadas e competições regulares.

Existe também uma questão que considero fundamental: o tempo das famílias. Muitas dessas meninas dependem de alguém que possa acompanhá-las aos treinos e jogos. Quando falamos de meninas das periferias, estamos falando de famílias que precisam conciliar trabalho, deslocamentos e uma série de responsabilidades. O acesso ao esporte também é uma questão de desigualdade urbana e social.

É por isso que campeonatos como a Copa Elas Jogam são importantes. Para muitas meninas, disputar uma competição organizada, vestir o uniforme, entrar em campo e ter a família torcendo na arquibancada é uma experiência que ajuda a construir pertencimento e autoestima.

Mas insisto: o futebol feminino não pode ser pensado apenas como uma fábrica de futuras jogadoras profissionais. Nem toda menina será uma Marta, e tudo bem. O futebol também precisa formar mulheres que se sintam capazes de ocupar espaços, liderar, trabalhar em equipe e fazer suas próprias escolhas. Esse também é um resultado extraordinário de uma política esportiva.

“Nem toda menina será uma Marta, e tudo bem.”

O que de mais interessante saiu do Elas Jogam Summit e vai virar ação até a Copa de 2027?

GS: A principal conclusão do Summit foi que o legado da Copa do Mundo de 2027 não pode ser uma responsabilidade exclusiva de quem organiza o evento. O poder público, os clubes, as empresas, as organizações sociais, as universidades e as próprias atletas precisam participar dessa construção.

Reunimos diferentes perspectivas justamente porque o futebol feminino não enfrenta apenas problemas esportivos. Estamos falando de acesso à cidade, financiamento, formação de base, comunicação, representatividade e oportunidades profissionais.

E o mais importante é que não queríamos terminar o Summit apenas com boas fotos e discursos. O encontro serviu de base para a construção de um documento técnico com propostas para o legado da Copa do Mundo Feminina de 2027, que agora estamos encaminhando aos órgãos e instituições responsáveis.

A nossa intenção é transformar o conhecimento produzido coletivamente em propostas que possam orientar ações concretas. Porque o legado precisa começar antes da bola rolar em 2027. Se esperarmos a Copa acabar para discutir o que ela deveria ter deixado, já teremos perdido uma oportunidade histórica.

“O legado precisa começar antes da bola rolar em 2027.”


Você pergunta, em um artigo recente, o que terá mudado para uma menina da periferia quando a Copa terminar. Se pudesse escolher um único número para medir isso em 2028, qual seria? E qual será o legado da Copa no Brasil, na sua opinião?

GS: Se eu pudesse escolher um único indicador, seria o número de meninas praticando futebol regularmente, especialmente nas periferias brasileiras. Porque, para mim, o maior legado que a Copa do Mundo de 2027 pode deixar não está apenas no desenvolvimento do futebol feminino como modalidade, mas na capacidade de transformar o esporte em uma ferramenta de transformação social.

Eu acredito profundamente no esporte como política pública. Uma menina que tem acesso ao futebol está desenvolvendo autonomia, construindo relações, aprendendo a trabalhar em equipe, ocupando espaços da cidade e descobrindo possibilidades que talvez nunca tivessem sido apresentadas a ela. E isso tem um valor imenso, independentemente de ela se tornar uma atleta profissional.

Por isso, quando falamos em legado, precisamos ir além dos estádios, da audiência e dos investimentos no futebol de alto rendimento. Precisamos perguntar quantas meninas passaram a ter acesso ao esporte, quantas conseguiram permanecer nele e quantas comunidades passaram a contar com estruturas e oportunidades que antes não existiam.

O Brasil tem uma oportunidade histórica de fazer da Copa de 2027 um ponto de virada. Mas eu não quero que, em 2028, a gente tenha apenas boas lembranças de um grande evento. Quero que uma menina da periferia tenha um lugar seguro para jogar, uma competição para disputar e a possibilidade de construir novos caminhos a partir do esporte. Porque o verdadeiro legado não é apenas formar mais jogadoras de futebol. É contribuir para formar uma geração de mulheres com mais oportunidades, autonomia e liberdade de escolha.

“Eu não quero que, em 2028, a gente tenha apenas boas lembranças de um grande evento.”


Você cita a Estratégia Nacional para o Futebol Feminino e diz que existe distância entre anunciar uma política e fazê-la chegar a uma menina na periferia. Tem um exemplo concreto dessa distância, visto na Copa Elas Jogam?

GS: Acho que um dos maiores problemas das políticas públicas é que, muitas vezes, as leis e os planos são construídos dentro dos gabinetes, sem escutar quem está na ponta, especialmente os projetos sociais que convivem diariamente com os desafios de garantir o acesso ao esporte.

Vou dar um exemplo muito concreto: em São Paulo, muitos Clubes da Comunidade, os CDCs, sequer possuem banheiros ou vestiários femininos adequados para que as meninas possam se trocar. Estamos falando de algo básico, mas que diz muito sobre como os espaços esportivos ainda são pensados sem considerar a presença das mulheres. 

"Como podemos falar em ampliar o acesso ao futebol feminino se a estrutura onde essas meninas treinam não está preparada para recebê-las?"

É por isso que defendo que o legado da Copa do Mundo de 2027 precisa ser construído de baixo para cima, ouvindo treinadoras, famílias, atletas e organizações que atuam nos territórios. Não basta anunciar investimentos ou estabelecer metas nacionais se essas decisões não dialogarem com a realidade de quem mais precisa.

Garantir um banheiro feminino, melhorar a iluminação de um campo, oferecer condições seguras de treinamento e criar competições regulares também é construir legado. Pode parecer menos grandioso do que reformar um estádio, mas, para uma menina da periferia, pode ser exatamente o que determina se ela vai conseguir continuar jogando futebol.

Se essas necessidades não estiverem contempladas nos planos oficiais, corremos o risco de realizar uma Copa histórica sem produzir uma transformação real na base. E, para mim, uma política pública que não chega a quem mais precisa não pode ser considerada verdadeiramente transformadora.

“Garantir um banheiro feminino, melhorar a iluminação de um campo, oferecer condições seguras de treinamento e criar competições regulares também é construir legado.”

Copa do Mundo Feminina da FIFA · Brasil 2027

Gabriela Borges