
Em 1940, uma casa no subúrbio do Rio de Janeiro era ao mesmo tempo sede de time de futebol, salão de festa e refúgio. Ali funcionava o Primavera Atlético Clube, comandado por Dona Carlota. O time atraía público, vendia jornal e negociava com o empresário Afonso Doce uma excursão internacional. Em janeiro de 1941, Dona Carlota foi presa. Segundo a diretora Lili Fialho, ela foi solta 48 horas depois, mas a sede do clube nunca mais reabriu.
Três meses após a prisão, em abril de 1941, Getúlio Vargas assinou o decreto-lei que criou o Conselho Nacional de Desportos (CND), base da proibição do futebol feminino no Brasil. A proibição durou até 1979.
Essa história está no centro de "A Casa de Dona Carlota", curta escrito e dirigido por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, que estreou na mostra Première Brasil: Curtas em Competição do Festival do Rio 2026. O argumento é de Lili Fialho, que dirigiu uma série documental sobre futebol feminino com a Federação Paulista de Futebol. Bruna Linzmeyer, que trabalha com cultura do futebol feminino com a Nike desde 2018, divide com ela o roteiro e a direção, coproduz o filme e interpreta Sally, capitã do Primavera e sobrinha de Dona Carlota. A produção é da MyMama Entertainment.
As duas chegaram à personagem pelo mesmo livro: "Futebol Feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915–1941)", da historiadora Aira Bonfim, publicado em 2023. Aira Bonfim acompanhou a escrita do roteiro.
O filme chega num momento simbólico. Em 28 de setembro de 2026, o presidente Lula sancionou a Lei 15.522, que estabelece diretrizes para o desenvolvimento do futebol feminino no país. E, em junho de 2027, o Rio de Janeiro, cidade de Dona Carlota, recebe no Maracanã a abertura e a final da Copa do Mundo Feminina 2027.
A seguir, Lili Fialho e Bruna Linzmeyer contam como imaginaram a intimidade daquela casa a partir de jornais que queriam apagá-la. E por que essa história continua acontecendo, inclusive no campo de várzea onde filmaram a cena final.
Lili Fialho: Trabalho com futebol feminino há muitos anos. Dirigi a primeira série documental sobre a modalidade junto à Federação Paulista de Futebol. O que me chamou a atenção foi perceber que, mesmo dentro do futebol, poucas pessoas conheciam a história da modalidade e os mais de 40 anos de proibição. Foi assim que encontrei o livro da Aira Bonfim e, entre tantas histórias, descobri Dona Carlota. Fiquei tão impressionada com a força dessa mulher e tão indignada com o apagamento da sua trajetória que tive certeza de que precisava fazer esse filme. Escrevi o argumento de ‘A Casa de Dona Carlota’ pensando na Bruna Linzmeyer para interpretar Sally, capitã do Primavera e sobrinha de Dona Carlota. A Mayra Faour Aud, da MyMama Entertainment, nos apresentou e descobri uma coincidência maravilhosa: a Bruna também conhecia a história de Dona Carlota. Unimos forças e começamos a desenvolver juntas o roteiro e a direção do filme.
Bruna Linzmeyer: Eu venho trabalhando com cultura do futebol feminino com a Nike desde 2018. Estive presente nas duas últimas Copas do Mundo, na França, em 2019, e na Austrália, em 2023. Cheguei até Dona Carlota pelo trabalho da historiadora Aira Bonfim, que publicou, em 2023, o livro ‘Futebol Feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915–1941)’. Quando o livro chega na Carlota, me lembro da emoção e da revolta que eu senti. Naquela época, eu já namorava a Kin (Saito, diretora executiva do Departamento de Futebol Feminino da Federação Paulista de Futebol) e comecei a perceber paralelos que me espantavam. A Carlota já reivindicava a profissionalização do futebol de mulheres e articulava a criação de uma liga. E 80 anos depois, são questões que continuam em disputa. Como uma mulher que fez tudo isso pode ser tão pouco conhecida, inclusive entre pessoas que vivem o futebol? Quando a Lili apareceu com o argumento e me convidou pra interpretar a Sally, eu fiquei imensamente feliz que alguém ia contar essa história. A gente escreveu o roteiro juntas, depois dirigimos o filme e eu ainda entrei na coprodução.
Lili Fialho: Nosso maior desafio foi contar uma história real propositalmente apagada da nossa memória. A pesquisa de Aira Bonfim foi fundamental nesse processo. A viagem internacional, a figura do empresário Afonso Doce, a relação das jogadoras com a música e o samba do bairro, tudo isso já existia. Nosso trabalho de criação foi esse exercício lindo de imaginar o cotidiano daquelas mulheres, o que acontecia dentro daquela casa, seus amores, amizades, festas e alegrias. Queríamos olhar para a intimidade e os afetos dessas personagens, para a vida que existia para além da luta e da dor.
Bruna Linzmeyer: Retratar pessoas que realmente existiram e que tiveram suas histórias tão apagadas exige, para mim, uma mistura de respeito e licença. Respeito pelo pouco que sabemos e licença para imaginar tudo aquilo que a História não guardou. A espinha dorsal da narrativa é histórica: a importância de Dona Carlota, a articulação de uma excursão internacional com Afonso Doce, a casa como um espaço de liberdade e convivência, a prisão de Carlota e a desobediência das mulheres que continuaram jogando mesmo depois da proibição. E foi muito bonito perceber como o futebol de hoje podia nos ajudar a imaginar o futebol de 85 anos atrás. Uma das falas da Carlota no filme, sobre não treinar esforço, mas tática e estratégia, veio ipsis litteris de uma coisa que o Jonas Urias disse num treino das Cabulosas, no Cruzeiro. Aquilo atravessou 85 anos e continua vivo. Dona Carlota está por aí.

Bruna Linzmeyer, co-diretora e atriz do filme ‘A Casa de Dona Carlota’.
DivulgaçãoLili Fialho: É muito simbólico que boa parte do que sabemos sobre Dona Carlota tenha sobrevivido justamente nos jornais que tentavam deslegitimá-la. Eram jornais da época, em um contexto de ditadura e repressão da Delegacia de Costumes. Foi preciso ler essas fontes de outra maneira, porque muitas vezes aquilo que era apresentado como escândalo revelava, para nós, a coragem e a liberdade dessas mulheres. Por isso acredito tanto na importância de mulheres contarem suas próprias histórias. É também uma maneira de nos defendermos e de não deixarmos que outros decidam como seremos lembradas.
Bruna Linzmeyer: Sempre existiram jornais que subestimavam Dona Carlota e o futebol de mulheres, mas houve um período, antes das campanhas de difamação, em que esses mesmos jornais celebravam e acompanhavam os jogos e as jogadoras. Tinha até concursos de beleza, as "Rainhas do Sport Menor". O futebol de mulheres crescia muito nos subúrbios, na classe trabalhadora, atraía público, vendia jornal, movimentava patrocínios... O que aconteceu para que mulheres antes celebradas passassem a ser tratadas como uma ameaça? Eram mulheres que jogavam futebol, ocupavam espaços públicos, ganhavam dinheiro, organizavam clubes, negociavam e estavam construindo um futuro profissional pra aquele esporte. Tudo isso era muito disruptivo. Para construir Dona Carlota, foi importante tentar enxergar para além dos ataques: recuperar a inteligência, a ambição, a liderança e a potência de uma mulher que estava construindo alguma coisa muito grande.
Lili Fialho: A casa é tão personagem quanto Dona Carlota e as Primaveras. Era um clube social, um espaço onde aquelas mulheres podiam se sentir acolhidas, ser quem eram, amar, beijar, dançar e se expressar livremente. Dona Carlota construiu muito mais do que um clube de futebol: construiu um refúgio. A importância daquele espaço fica ainda mais evidente quando ela é presa. Apenas 48 horas depois, é libertada, mas a sede do clube é fechada para sempre. Era um lugar onde elas tinham liberdade para existir, e isso, por si só, já era revolucionário.
Bruna Linzmeyer: Aquela casa era um espaço de liberdade, de convivência e de afeto entre mulheres. Ali elas não só treinavam e organizavam o clube, mas festejavam, dançavam, se apaixonavam, construíam amizades e um futuro através do futebol. E quando a casa é fechada, não é só o futebol que se perde. É todo esse ecossistema de liberdade, desejo e afeto que é interrompido.
Lili Fialho: Estamos falando de mulheres que queriam ocupar espaços que a sociedade dizia não pertencer a elas. Jogar futebol, usar determinadas roupas, circular pela cidade, construir amizades e decidir sobre o próprio corpo eram atitudes vistas como transgressoras. E o mais impressionante é perceber que, quase um século depois, ainda precisamos discutir e defender muitas dessas mesmas liberdades.
Bruna Linzmeyer: As jogadoras do Primavera, assim como muitas jogadoras daquela época, eram mulheres suburbanas, da classe trabalhadora, "racializadas". Elas trabalhavam e, por isso, circulavam pela cidade sem a companhia de um homem, ganhavam seu próprio dinheiro, faziam apostas no jogo do bicho e em jogos de tampinha, fumavam, bebiam, usavam calças e bermudas. No fundo, parece tudo muito básico, né? Mas essas liberdades eram uma afronta para o que se esperava de uma "moça" naquela época e são exatamente a descrição de por que a casa de Dona Carlota foi acusada de ser um "antro de perdição" pela Delegacia de Costumes da ditadura Vargas.
Lili Fialho: As jogadoras do Primavera eram mulheres extraordinárias, que desafiaram as convenções de seu tempo para fazer algo que amavam. Entre elas estavam Sally e Nicea, sobrinhas de Dona Carlota, que além de jogadoras também eram atrizes e transitavam entre o futebol e o teatro. Eram mulheres que trabalhavam, tinham suas ambições e encontravam no futebol uma forma de expressão e liberdade. Acho fundamental que o filme também devolva protagonismo a essas jogadoras, porque essa trajetória foi construída coletivamente, por muitas mulheres cujos nomes quase desapareceram da nossa memória.

Filme ‘A Casa de Dona Carlota’
DivulgaçãoLili Fialho: Tenho certeza de que Dona Carlota estaria envolvida na organização dessa Copa, provavelmente liderando alguma coisa! (risos) Ela era uma realizadora, uma mulher à frente do seu tempo. Nada apaga a violência que sofreu, mas pensar que sua luta não foi em vão é muito emocionante. Eu adoraria estar ao lado dela, abraçada, vibrando e torcendo pela nossa seleção durante a Copa do Mundo.
Bruna Linzmeyer: Olha, acho que ela ficaria feliz e orgulhosa. Certamente estará lá conosco nesse jogo de abertura.
Lili Fialho: Infelizmente, ainda reconhecemos muita coisa. O futebol feminino avançou enormemente, mas as mulheres continuam precisando lutar por espaço, investimento, reconhecimento e respeito. A história de Dona Carlota nos ajuda a entender o tamanho do caminho percorrido e o quanto ainda precisamos avançar.
Bruna Linzmeyer: Infelizmente, incontáveis coisas. O campo de terra batida onde filmamos a cena final pertencia à Soraya Marques, uma das mais importantes figuras do futebol de várzea brasileiro. Há mais de 15 anos, ela começou a cuidar daquele terreno, que antes era um lixão abandonado. Limpou, recuperou o campo, construiu ali sua casa e seu bar, transformou aquele espaço num refúgio pra mulheres, pessoas trans, "racializadas", da classe trabalhadora, além de estrangeiros refugiados. O campo da Soraya era um dos seis campos do Complexo do Campo de Marte [em São Paulo] e foi destruído por máquinas da prefeitura. É impossível não pensar na Dona Carlota. Oitenta e cinco anos depois, uma mulher que construiu com as próprias mãos um espaço de futebol, liberdade e convivência vê tudo aquilo ser destruído. E é muito doloroso perceber que a história que a gente estava contando no filme continuava acontecendo justamente no lugar onde a gente filmava.
Bruna Linzmeyer: É bonito que dirigir seja, em grande parte, escolher de onde você quer olhar pra uma história. Com ‘A Casa de Dona Carlota’, a gente podia contar essa história a partir da repressão, da prisão, da dor, da proibição. Tudo isso tá no filme e é incontornável, mas a gente escolheu conhecer essas mulheres a partir daquilo que elas construíram: do futebol que elas jogavam, das festas deliciosas que aconteciam naquela casa, do quanto elas desejavam e amavam umas às outras. Ao mesmo tempo, acho que tantos anos como atriz atravessam profundamente a diretora que estou começando a ser. Me sinto muito segura num set de filmagem e sei o quanto uma indicação pode abrir ou fechar uma cena. Eu aprendi muito fazendo um filme sobre Dona Carlota e tenho certeza de que vou levar isso sempre comigo.
Dona Carlota dirigia o Primavera Atlético Clube, um dos times de futebol feminino de maior destaque no subúrbio do Rio de Janeiro no início dos anos 1940. Por organizar times e partidas numa época em que poucas mulheres ocupavam esse lugar, ela é chamada por pesquisadoras e pela imprensa de "mãe do futebol feminino" no Brasil.
O decreto que criou o CND, o Decreto-Lei 3.199, trazia no artigo 54 a proibição, para as mulheres, de esportes "incompatíveis com as condições de sua natureza". O texto não citava o futebol, mas a regra foi usada para barrar a modalidade por quase quatro décadas. A revogação veio em 1979, e a regulamentação, só em 1983.
Para saber mais sobre esse período, visite o IMPRÓPRIAS, museu interativo do Ginga36 sobre a história do futebol feminino.