Gabriela Borges

"A Casa de Dona Carlota": o time de mulheres que a ditadura Vargas tirou de campo

Gabriela Borges
Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, co-diretoras do filme ‘A Casa de Dona Carlota’
Divulgação A Casa do Bom Conteúdo | A Casa de Dona Carlota

Em 1940, uma casa no subúrbio do Rio de Janeiro era ao mesmo tempo sede de time de futebol, salão de festa e refúgio. Ali funcionava o Primavera Atlético Clube, comandado por Dona Carlota. O time atraía público, vendia jornal e negociava com o empresário Afonso Doce uma excursão internacional. Em janeiro de 1941, Dona Carlota foi presa. Segundo a diretora Lili Fialho, ela foi solta 48 horas depois, mas a sede do clube nunca mais reabriu.

Três meses após a prisão, em abril de 1941, Getúlio Vargas assinou o decreto-lei que criou o Conselho Nacional de Desportos (CND), base da proibição do futebol feminino no Brasil. A proibição durou até 1979.

Essa história está no centro de "A Casa de Dona Carlota", curta escrito e dirigido por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, que estreou na mostra Première Brasil: Curtas em Competição do Festival do Rio 2026. O argumento é de Lili Fialho, que dirigiu uma série documental sobre futebol feminino com a Federação Paulista de Futebol. Bruna Linzmeyer, que trabalha com cultura do futebol feminino com a Nike desde 2018, divide com ela o roteiro e a direção, coproduz o filme e interpreta Sally, capitã do Primavera e sobrinha de Dona Carlota. A produção é da MyMama Entertainment.

As duas chegaram à personagem pelo mesmo livro: "Futebol Feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915–1941)", da historiadora Aira Bonfim, publicado em 2023. Aira Bonfim acompanhou a escrita do roteiro.

O filme chega num momento simbólico. Em 28 de setembro de 2026, o presidente Lula sancionou a Lei 15.522, que estabelece diretrizes para o desenvolvimento do futebol feminino no país. E, em junho de 2027, o Rio de Janeiro, cidade de Dona Carlota, recebe no Maracanã a abertura e a final da Copa do Mundo Feminina 2027.

A seguir, Lili Fialho e Bruna Linzmeyer contam como imaginaram a intimidade daquela casa a partir de jornais que queriam apagá-la. E por que essa história continua acontecendo, inclusive no campo de várzea onde filmaram a cena final.

Como a história de Dona Carlota chegou até vocês e em que momento decidiram que ela precisava virar filme?

Lili Fialho: Trabalho com futebol feminino há muitos anos. Dirigi a primeira série documental sobre a modalidade junto à Federação Paulista de Futebol. O que me chamou a atenção foi perceber que, mesmo dentro do futebol, poucas pessoas conheciam a história da modalidade e os mais de 40 anos de proibição. Foi assim que encontrei o livro da Aira Bonfim e, entre tantas histórias, descobri Dona Carlota. Fiquei tão impressionada com a força dessa mulher e tão indignada com o apagamento da sua trajetória que tive certeza de que precisava fazer esse filme. Escrevi o argumento de ‘A Casa de Dona Carlota’ pensando na Bruna Linzmeyer para interpretar Sally, capitã do Primavera e sobrinha de Dona Carlota. A Mayra Faour Aud, da MyMama Entertainment, nos apresentou e descobri uma coincidência maravilhosa: a Bruna também conhecia a história de Dona Carlota. Unimos forças e começamos a desenvolver juntas o roteiro e a direção do filme.

Bruna Linzmeyer: Eu venho trabalhando com cultura do futebol feminino com a Nike desde 2018. Estive presente nas duas últimas Copas do Mundo, na França, em 2019, e na Austrália, em 2023. Cheguei até Dona Carlota pelo trabalho da historiadora Aira Bonfim, que publicou, em 2023, o livro ‘Futebol Feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915–1941)’. Quando o livro chega na Carlota, me lembro da emoção e da revolta que eu senti. Naquela época, eu já namorava a Kin (Saito, diretora executiva do Departamento de Futebol Feminino da Federação Paulista de Futebol) e comecei a perceber paralelos que me espantavam. A Carlota já reivindicava a profissionalização do futebol de mulheres e articulava a criação de uma liga. E 80 anos depois, são questões que continuam em disputa. Como uma mulher que fez tudo isso pode ser tão pouco conhecida, inclusive entre pessoas que vivem o futebol? Quando a Lili apareceu com o argumento e me convidou pra interpretar a Sally, eu fiquei imensamente feliz que alguém ia contar essa história. A gente escreveu o roteiro juntas, depois dirigimos o filme e eu ainda entrei na coprodução.

O filme é baseado em fatos reais. Onde termina o registro histórico e onde começa a criação de vocês? Quais foram as principais escolhas?

Lili Fialho: Nosso maior desafio foi contar uma história real propositalmente apagada da nossa memória. A pesquisa de Aira Bonfim foi fundamental nesse processo. A viagem internacional, a figura do empresário Afonso Doce, a relação das jogadoras com a música e o samba do bairro, tudo isso já existia. Nosso trabalho de criação foi esse exercício lindo de imaginar o cotidiano daquelas mulheres, o que acontecia dentro daquela casa, seus amores, amizades, festas e alegrias. Queríamos olhar para a intimidade e os afetos dessas personagens, para a vida que existia para além da luta e da dor.

Bruna Linzmeyer: Retratar pessoas que realmente existiram e que tiveram suas histórias tão apagadas exige, para mim, uma mistura de respeito e licença. Respeito pelo pouco que sabemos e licença para imaginar tudo aquilo que a História não guardou. A espinha dorsal da narrativa é histórica: a importância de Dona Carlota, a articulação de uma excursão internacional com Afonso Doce, a casa como um espaço de liberdade e convivência, a prisão de Carlota e a desobediência das mulheres que continuaram jogando mesmo depois da proibição. E foi muito bonito perceber como o futebol de hoje podia nos ajudar a imaginar o futebol de 85 anos atrás. Uma das falas da Carlota no filme, sobre não treinar esforço, mas tática e estratégia, veio ipsis litteris de uma coisa que o Jonas Urias disse num treino das Cabulosas, no Cruzeiro. Aquilo atravessou 85 anos e continua vivo. Dona Carlota está por aí.

Bruna Linzmeyer, co-diretora e atriz do filme ‘A Casa de Dona Carlota’.

Bruna Linzmeyer, co-diretora e atriz do filme ‘A Casa de Dona Carlota’.

Divulgação

Quase tudo o que se sabe sobre Dona Carlota vem de jornais que a atacavam. Como foi construir uma personagem a partir de fontes que queriam apagá-la?

Lili Fialho: É muito simbólico que boa parte do que sabemos sobre Dona Carlota tenha sobrevivido justamente nos jornais que tentavam deslegitimá-la. Eram jornais da época, em um contexto de ditadura e repressão da Delegacia de Costumes. Foi preciso ler essas fontes de outra maneira, porque muitas vezes aquilo que era apresentado como escândalo revelava, para nós, a coragem e a liberdade dessas mulheres. Por isso acredito tanto na importância de mulheres contarem suas próprias histórias. É também uma maneira de nos defendermos e de não deixarmos que outros decidam como seremos lembradas.

Bruna Linzmeyer: Sempre existiram jornais que subestimavam Dona Carlota e o futebol de mulheres, mas houve um período, antes das campanhas de difamação, em que esses mesmos jornais celebravam e acompanhavam os jogos e as jogadoras. Tinha até concursos de beleza, as "Rainhas do Sport Menor". O futebol de mulheres crescia muito nos subúrbios, na classe trabalhadora, atraía público, vendia jornal, movimentava patrocínios... O que aconteceu para que mulheres antes celebradas passassem a ser tratadas como uma ameaça? Eram mulheres que jogavam futebol, ocupavam espaços públicos, ganhavam dinheiro, organizavam clubes, negociavam e estavam construindo um futuro profissional pra aquele esporte. Tudo isso era muito disruptivo. Para construir Dona Carlota, foi importante tentar enxergar para além dos ataques: recuperar a inteligência, a ambição, a liderança e a potência de uma mulher que estava construindo alguma coisa muito grande.

O que aquela casa, que está no título do filme, representava para as jogadoras, além de sede do clube?

Lili Fialho: A casa é tão personagem quanto Dona Carlota e as Primaveras. Era um clube social, um espaço onde aquelas mulheres podiam se sentir acolhidas, ser quem eram, amar, beijar, dançar e se expressar livremente. Dona Carlota construiu muito mais do que um clube de futebol: construiu um refúgio. A importância daquele espaço fica ainda mais evidente quando ela é presa. Apenas 48 horas depois, é libertada, mas a sede do clube é fechada para sempre. Era um lugar onde elas tinham liberdade para existir, e isso, por si só, já era revolucionário.

Bruna Linzmeyer: Aquela casa era um espaço de liberdade, de convivência e de afeto entre mulheres. Ali elas não só treinavam e organizavam o clube, mas festejavam, dançavam, se apaixonavam, construíam amizades e um futuro através do futebol. E quando a casa é fechada, não é só o futebol que se perde. É todo esse ecossistema de liberdade, desejo e afeto que é interrompido.

Na sinopse, a casa é "espaço de liberdade" e desafia a moral da época. Que liberdades eram essas, no dia a dia dessas moças?

Lili Fialho: Estamos falando de mulheres que queriam ocupar espaços que a sociedade dizia não pertencer a elas. Jogar futebol, usar determinadas roupas, circular pela cidade, construir amizades e decidir sobre o próprio corpo eram atitudes vistas como transgressoras. E o mais impressionante é perceber que, quase um século depois, ainda precisamos discutir e defender muitas dessas mesmas liberdades.

Bruna Linzmeyer: As jogadoras do Primavera, assim como muitas jogadoras daquela época, eram mulheres suburbanas, da classe trabalhadora, "racializadas". Elas trabalhavam e, por isso, circulavam pela cidade sem a companhia de um homem, ganhavam seu próprio dinheiro, faziam apostas no jogo do bicho e em jogos de tampinha, fumavam, bebiam, usavam calças e bermudas. No fundo, parece tudo muito básico, né? Mas essas liberdades eram uma afronta para o que se esperava de uma "moça" naquela época e são exatamente a descrição de por que a casa de Dona Carlota foi acusada de ser um "antro de perdição" pela Delegacia de Costumes da ditadura Vargas.

Contem um pouco sobre as jogadoras do Primavera.

Lili Fialho: As jogadoras do Primavera eram mulheres extraordinárias, que desafiaram as convenções de seu tempo para fazer algo que amavam. Entre elas estavam Sally e Nicea, sobrinhas de Dona Carlota, que além de jogadoras também eram atrizes e transitavam entre o futebol e o teatro. Eram mulheres que trabalhavam, tinham suas ambições e encontravam no futebol uma forma de expressão e liberdade. Acho fundamental que o filme também devolva protagonismo a essas jogadoras, porque essa trajetória foi construída coletivamente, por muitas mulheres cujos nomes quase desapareceram da nossa memória.

Filme ‘A Casa de Dona Carlota’

Filme ‘A Casa de Dona Carlota’

Divulgação

O Brasil recebe a Copa do Mundo Feminina em 2027, com abertura e final no Maracanã, no Rio, a cidade de Dona Carlota. O que ela diria vendo isso?

Lili Fialho: Tenho certeza de que Dona Carlota estaria envolvida na organização dessa Copa, provavelmente liderando alguma coisa! (risos) Ela era uma realizadora, uma mulher à frente do seu tempo. Nada apaga a violência que sofreu, mas pensar que sua luta não foi em vão é muito emocionante. Eu adoraria estar ao lado dela, abraçada, vibrando e torcendo pela nossa seleção durante a Copa do Mundo.

Bruna Linzmeyer: Olha, acho que ela ficaria feliz e orgulhosa. Certamente estará lá conosco nesse jogo de abertura.

O que, da história dela, vocês ainda reconhecem no futebol feminino de hoje?

Lili Fialho: Infelizmente, ainda reconhecemos muita coisa. O futebol feminino avançou enormemente, mas as mulheres continuam precisando lutar por espaço, investimento, reconhecimento e respeito. A história de Dona Carlota nos ajuda a entender o tamanho do caminho percorrido e o quanto ainda precisamos avançar.

Bruna Linzmeyer: Infelizmente, incontáveis coisas. O campo de terra batida onde filmamos a cena final pertencia à Soraya Marques, uma das mais importantes figuras do futebol de várzea brasileiro. Há mais de 15 anos, ela começou a cuidar daquele terreno, que antes era um lixão abandonado. Limpou, recuperou o campo, construiu ali sua casa e seu bar, transformou aquele espaço num refúgio pra mulheres, pessoas trans, "racializadas", da classe trabalhadora, além de estrangeiros refugiados. O campo da Soraya era um dos seis campos do Complexo do Campo de Marte [em São Paulo] e foi destruído por máquinas da prefeitura. É impossível não pensar na Dona Carlota. Oitenta e cinco anos depois, uma mulher que construiu com as próprias mãos um espaço de futebol, liberdade e convivência vê tudo aquilo ser destruído. E é muito doloroso perceber que a história que a gente estava contando no filme continuava acontecendo justamente no lugar onde a gente filmava.

Bruna, você vem da atuação. O que muda em contar essa história na frente e atrás da câmera?

Bruna Linzmeyer: É bonito que dirigir seja, em grande parte, escolher de onde você quer olhar pra uma história. Com ‘A Casa de Dona Carlota’, a gente podia contar essa história a partir da repressão, da prisão, da dor, da proibição. Tudo isso tá no filme e é incontornável, mas a gente escolheu conhecer essas mulheres a partir daquilo que elas construíram: do futebol que elas jogavam, das festas deliciosas que aconteciam naquela casa, do quanto elas desejavam e amavam umas às outras. Ao mesmo tempo, acho que tantos anos como atriz atravessam profundamente a diretora que estou começando a ser. Me sinto muito segura num set de filmagem e sei o quanto uma indicação pode abrir ou fechar uma cena. Eu aprendi muito fazendo um filme sobre Dona Carlota e tenho certeza de que vou levar isso sempre comigo.


Quem foi Dona Carlota

Dona Carlota dirigia o Primavera Atlético Clube, um dos times de futebol feminino de maior destaque no subúrbio do Rio de Janeiro no início dos anos 1940. Por organizar times e partidas numa época em que poucas mulheres ocupavam esse lugar, ela é chamada por pesquisadoras e pela imprensa de "mãe do futebol feminino" no Brasil.

O decreto que criou o CND, o Decreto-Lei 3.199, trazia no artigo 54 a proibição, para as mulheres, de esportes "incompatíveis com as condições de sua natureza". O texto não citava o futebol, mas a regra foi usada para barrar a modalidade por quase quatro décadas. A revogação veio em 1979, e a regulamentação, só em 1983.

Para saber mais sobre esse período, visite o IMPRÓPRIAS, museu interativo do Ginga36 sobre a história do futebol feminino.

Gabriela Borges