Três Bolas de Ouro, um joelho refeito e uma mudança de país aos 32 anos. Quem é Alexia Putellas, a espanhola que guarda a vida num bunker e já tem a cabeça no Mundial do Brasil.
Numa manhã de julho, em plena onda de calor, Alexia Putellas chutava uma bola contra um muro de tijolos num beco do leste de Londres. Estava em cima de um salto agulha de dez centímetros, de verniz cor de vinho, com gorro de lã e um casaco enorme. No primeiro chute, contou a repórter Sofía Ruiz de Velasco, que acompanhava a sessão de fotos para a revista do El País, a equipe soltou um suspiro coletivo. A chefe de produção resumiu num inglês carregado: “She is such a star.”
Ela tinha acabado de se mudar. Deixara o Barcelona depois de 14 temporadas no time principal, 507 jogos e 232 gols, recorde do clube, para defender um time de sete anos de vida e duas temporadas na primeira divisão inglesa, o London City Lionesses. Havia uma proposta dos Estados Unidos bem melhor em dinheiro. Ela preferiu a outra. “Me chamou muito a atenção que, se desse certo, seria tudo mais épico.”
Três meses depois, a mesma Londres a viu subir ao palco do Palladium para receber a terceira Bola de Ouro, depois das de 2021 e 2022. Agradeceu à France Football, às concorrentes, ao técnico Pere Romeu, à mãe, às amigas. Então falou da perna. “Lembro dos momentos em que a perna me falhava, quando aprendi a voltar a andar, a voltar a correr, a voltar a chutar.”
Trocou a proposta mais rica dos Estados Unidos por um clube de sete anos, porque, se desse certo, seria mais épico.
Alexia nasceu em 4 de fevereiro de 1994, em Mollet del Vallès, na região metropolitana de Barcelona. Em casa, todo mundo era culé. Aos domingos, a família ia de ônibus ao Camp Nou com a penya do bairro. A menina chutava bola na praça, no pátio da escola e no corredor de casa. Perguntada se quebrou muita coisa, respondeu que não. “A gente tinha um corredor curtinho. Morávamos numa casa humilde, sabe? E no corredor não tinha vidro nem nada.”
Aos sete anos foi parar no Sabadell, num time de meninas de 12. Mal conseguia tirar a bola do chão e ficava brava por não imitar os passes das mais velhas. Como menores de oito anos não podiam ser registradas, mentiram a idade dela, uma “pequena trapaça”, nas palavras dela. A tia a levava aos treinos depois do lanche da escola. O pai a buscava na saída do trabalho; quando não dava, ia o avô. “Coitado, a gente se metia por Barcelona e, bom, se perdia.”
O pai, Jaume, é o centro dessa infância. “Devo tudo a ele, que deu normalidade à minha decisão de jogar futebol”, disse Alexia à ¡Hola! em 2022. A mãe, Eli Segura, contou ao canal NIUS como a família se dividia: “Ele ia sempre com ela para cima e para baixo nos treinos, e eu ficava com a pequena”, a irmã Alba, três anos mais nova. Nos fins de semana, iam todos ao campo. Jaume morreu em 2012, quando Alexia tinha 18 anos, antes de vê-la jogar no time principal do Barcelona.
Na família, o assunto ficou difícil. “É um tema tabu, custa-nos falar do meu pai”, admitiu à Revista Barça em 2021. Ele está nas costas dela: uma tatuagem com a silhueta de uma foto em que Alexia, bebê, aparece no colo do pai segurando uma bolinha do Barcelona. Em 19 de março de 2014, Dia dos Pais na Espanha, dois anos depois da morte dele, ela publicou duas fotos dos dois: “Você merece um monumento por estar aqui o tempo todo. É o melhor pai do mundo, te amo, sinto sua falta.”
Na noite da primeira Bola de Ouro, em Paris, a mãe viu tudo da plateia. “Ela estava ‘sozinha’ no palco, e o que dizia, dizia ao pai.”
“Sou muito reservada com as minhas coisas, sou muito bunker.”
Alexia Putellas à Revista Barça, outubro de 2021.
A frase da Revista Barça continuava: “mas há outra parte, profissional, e nós nos devemos aos sócios e aos torcedores”. Se for preciso ficar quinze minutos assinando a camisa que alguém comprou com o nome dela, não custa nada. É assim que ela trata a fama. Há o que se dá ao público e há o resto. Sobre o resto, inclusive a vida amorosa, ela não fez declarações públicas.
Quando anunciou a saída do Barcelona, em maio, voltou à cena mais antiga que guarda. “Tinha seis anos e era a primeira vez que ia ao Camp Nou com o meu pai. Naquele momento, só via homens jogando.”
Em julho de 2022, num treino às vésperas da Eurocopa, Alexia rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. No dia seguinte, escreveu uma carta aos torcedores: “Desde que me entendo por gente, nunca fiquei mais de cinco dias sem tocar numa bola, treinar ou competir.” Foi operada no dia 12. Nos primeiros dias, contou depois, pensou que a carreira tinha acabado e chegou a cogitar parar por conta própria. Voltou em 30 de abril de 2023, depois de 299 dias fora, entrando aos 29 minutos do segundo tempo dos 3 a 0 sobre o Sporting de Huelva que deram mais um título espanhol ao Barcelona.
A lesão não a fez falar menos de trabalho. Ao sindicato internacional de jogadores, a FIFPRO, disse que era uma lesão com muitas causas e pouco estudada em mulheres, e cobrou melhores condições: “descanso, viagens, os gramados em que jogamos e, claro, todos esses estudos”. Mas mexeu também em outra coisa. Alexia diz ter uma mania com perder tempo. Quando sentia que estava perdendo, travava, frustrada: “tenho que sair daqui”, “temos que mudar isso já, já, já”. Hoje se diz mais calma.
“Mudou a minha maneira de me relacionar, já nem digo com um desconhecido, mas com a minha própria mãe.”
Alexia Putellas à revista do El País, agosto de 2026, sobre o que a lesão mudou nela.
“Antes eu era muito mais fechada para as minhas emoções, para os meus sentimentos”, disse à mesma revista. “Também não sou a pessoa mais extrovertida do mundo”, completou, rindo, “mas a gente vai evoluindo.” O perfeccionismo segue lá. O ex-técnico do Barcelona Lluís Cortés contou que ela sempre pedia para ouvir o que tinha feito de errado, até o dia em que ele resolveu falar só do que ela fazia certo.
No palco do Palladium, a reconstrução virou agradecimento. “Quando eu tinha mais dúvidas, vocês estavam ali, me ajudando. Amo muito vocês.” O que veio entre a dúvida e o prêmio foi a melhor temporada recente da carreira: 21 gols e 13 assistências pelo Barcelona em 2025/26, sete gols e sete assistências em 11 jogos de Champions, eleita pela UEFA a melhor jogadora do torneio. Na final, em Oslo, o Barcelona goleou o OL Lyonnes por 4 a 0, com ela de capitã.
“A pressão é um privilégio.”
Alexia Putellas à Revista Barça, 2021, sobre como lida com a cobrança. Na despedida do clube, em 2026, repetiu a ideia às que vêm depois.

Alexia cobra pênalti contra o Wolfsburg diante de 91.648 pessoas no Camp Nou, em abril de 2022, recorde para um jogo de clubes. Veja o fato no Museu GINGA36.
Foto: Wikimedia Commons (CC BY 3.0)Foi justamente ali, no alto, que decidiu sair. “Teria jogado no Barça a vida inteira, era o cenário ideal, mas no último ano a gente gastou muitíssima energia, mental e física, e chegou um momento em que pensei: não sei se vou ser capaz de voltar a ganhar tudo.” Queria que a última imagem dos torcedores fosse a dela no topo. Depois de decidir, passou alguns dias sem sair de casa. “Eu me quebrei.” No gramado do Johan Cruyff, no último jogo, pediu que ninguém ficasse triste e cantou com a arquibancada “Un dia de partit”.
Em 25 de agosto de 2023, segundos depois de Luis Rubiales repetir “não vou me demitir” na assembleia da federação espanhola, Alexia escreveu: “Isso é inaceitável. Acabou. Estou com você, companheira.” Marcava Jenni Hermoso, beijada sem consentimento pelo dirigente na entrega das medalhas do título mundial. O post virou uma das senhas do movimento #SeAcabó.
No Dia da Mulher de 2023, posou para a Mango com uma camiseta criada com a marca, cujo lucro foi todo para projetos da Save the Children. Na frente, a palavra “bonecas” aparece riscada: “Meninas deveriam brincar com o que quiserem.”
A agenda dela fora do campo tem outros detalhes, menos barulhentos. Em agosto, contou que as capitãs da seleção levaram à federação uma preocupação: disputar Copas do Mundo e querer ser mãe não cabem facilmente na mesma carreira. “Eu não tinha esse desejo, mas ele se desenvolveu em mim há um tempo.” A federação fechou acordo com uma clínica para que as jogadoras possam congelar óvulos enquanto estão em atividade, assunto da reportagem “Óvulos estatais”, da Revista GINGA36. “Para mim é um avanço enorme, porque a federação entende que você está servindo ao seu país contra o seu tempo biológico.” Aos 32 anos, ela calcula ter mais cinco ou seis de carreira.
Há também a fundação. A Eleven, cuja ideia nasceu durante a recuperação do joelho, segundo a própria fundação, foi apresentada em 2024, com escolinhas para meninas de 6 a 18 anos em Mollet, em Itagüí, na Colômbia, e na Cidade do México, que juntam futebol e educação emocional. O número é o da camisa que ela sempre usou. “Eleven não é o meu nome. São essas meninas”, disse na abertura mexicana. A mãe dirige a academia, segundo a Marie Claire espanhola.
“Não me sinto realmente uma pioneira.”
Alexia Putellas à revista do El País, agosto de 2026.
Perguntada se cansou de ser pioneira, ela devolveu a palavra. Disse que adoraria que as gerações anteriores tivessem vivido o que ela viveu, e que é questão de justiça ter memória: as jogadoras dos anos 1970 e 1980, que ela conheceu pela seleção e pelo Barcelona, “as pioneiras reais”, contaram histórias “impensáveis não só no futebol, mas na sociedade”.

O Spanish Girl's Club em campo, em Barcelona, em 1914. A imagem está no Impróprias.
Josep Brangulí / Arxiu Nacional de Catalunya (domínio público)Alexia lembra das jogadoras dos anos 1970 e 1980. Antes delas houve outras, inclusive na cidade dela. Essas histórias estão no Impróprias, o museu virtual da história do futebol feminino da GINGA36.
1914 · Barcelona: O Spanish Girl's Club e o time que a guerra dissolveu. Criado para levantar fundos contra a tuberculose e treinado por Paco Brú, jogou pela última vez em 29 de junho de 1914. Com a guerra, o clube desapareceu.
1970 · Itália: A primeira Copa do Mundo feminina, organizada por fora. Sete seleções e a Dinamarca campeã, 21 anos antes da primeira Copa oficial da FIFA.
1971 · México: O Azteca lotado. Cerca de 110 mil pessoas viram a Dinamarca vencer o México por 3 a 0, a maior plateia já reunida por um jogo de futebol feminino.
No tempo livre, fica com os amigos de infância. São sete. Conhece o único rapaz do grupo desde os três anos, uma das amigas desde os cinco e as outras desde os 12. Nenhum joga futebol, e é por isso que ela gosta: “me dá um pouco a realidade do que acontece com as pessoas da minha geração”. Ouve muito Rosalía, que acompanha desde o disco Los Ángeles e acabou conhecendo pessoalmente. Leu Um teto todo seu, de Virginia Woolf, e gostou (leia no box abaixo). Começou a se interessar por moda, “uma forma de transmitir como você se sente”. Em 2023, foi uma das oito capas da edição de fim de ano da Harper's Bazaar espanhola, premiada na categoria esporte. Ali contou que nunca tinha pensado em viver de futebol, “porque as estruturas não estavam aí para que uma menina de dez anos sonhasse em ser jogadora”.

O ensaio de 1929 nasceu de duas palestras que a escritora inglesa deu em 1928 em faculdades femininas de Cambridge. A tese cabe numa frase: “uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se quiser escrever ficção”. Para mostrar o que faltava às mulheres, Woolf inventa Judith, uma irmã de Shakespeare tão talentosa quanto ele, que nunca teria tido condições de escrever. É um dos textos de fundação do feminismo moderno, e um dos livros que Alexia contou ter lido.
Na apresentação em Nova York, ao lado da dona do clube, a empresária americana Michele Kang (leia no box abaixo), Alexia repetiu uma frase que ouviu dela: “O futebol feminino não é caridade.” Kang também é dona do Washington Spirit e do OL Lyonnes, o time que Alexia tinha acabado de golear na final da Champions.
Nascida em Seul, deixou a Coreia do Sul em 1981 para estudar economia na Universidade de Chicago e depois fez mestrado em Yale. Em 2008 fundou a Cognosante, empresa de tecnologia que atende órgãos de saúde e de defesa do governo americano, vendida em 2024 à Accenture Federal Services por valor não divulgado. A Forbes estima sua fortuna em US$ 1,2 bilhão.
No futebol, assumiu o Washington Spirit em 2022, formou em 2023 com o OL Groupe o grupo que controla o Lyon feminino, hoje OL Lyonnes, e comprou o London City Lionesses em dezembro de 2023, quando o time estava na segunda divisão. Os três clubes estão reunidos desde 2024 na Kynisca. Em 2024 prometeu US$ 30 milhões à federação americana para o futebol de mulheres e meninas, o maior aporte do tipo na história da entidade. Em junho de 2026 comprou 87,78% do OL Groupe, dono do Lyon masculino; o ex-controlador John Textor a processa em US$ 400 milhões, e ela chama as acusações de infundadas.
À ESPN, a nova contratada explicou a escolha pelo que ela tinha de difícil. “Muita gente me perguntava: ‘Por que você gosta de complicar as coisas assim?’ Eu respondo: se eu não tivesse isso, não poderia ser a jogadora que quero ser.”
No primeiro mês em Londres já tinha provado o café da manhã inglês, sem se convencer do feijão. Em outubro, nos Estados Unidos, chegou a 150 jogos pela Espanha, a primeira mulher do país a alcançar a marca, e fez gol no empate por 2 a 2. O próximo alvo é brasileiro. A Espanha, campeã do mundo em 2023, garantiu vaga direta para a Copa de 2027 em junho, com goleada de 6 a 1 sobre a Islândia. “A cabeça já está no Mundial do Brasil”, disse naquela semana dos 150 jogos. “Nada te garante voltar a ter sucesso no Brasil.” Antes, ao falar do país-sede, tinha resumido: “é um país muito futeboleiro, e acho que vai ser incrível”.
Em Londres, uma companheira de seleção que mora na cidade há quatro anos, a zagueira Laia Codina, deu um aviso a ela. “Prepare-se, porque em cada cidade você desenvolve uma personalidade sua, que tem de abraçar.” Alexia diz que está esperando para ver qual vai aparecer. “Com vontade.”
Naquela manhã de julho, no beco do leste de Londres, ninguém sabia ainda. A repórter anotou só o que se via: Alexia chutava contra o muro com a força exata e recolhia a bola como se ela pesasse o mesmo que um balão. Três meses depois, no palco do Palladium, com a terceira Bola de Ouro nas mãos, ela disse de quem queria se lembrar primeiro. “Da minha mãe.”
Quantas Bolas de Ouro Alexia Putellas tem? Três: 2021, 2022 e 2026. A terceira foi entregue em 26 de outubro de 2026, em Londres.
Quem ganhou a Bola de Ouro feminina de 2026? Alexia, na gala de 26 de outubro no London Palladium, em Londres. Na mesma noite, duas companheiras de seleção também foram premiadas: Cata Coll, como melhor goleira, e Vicky López, como talento jovem.
Quem tem mais Bolas de Ouro, Alexia ou Aitana Bonmatí? Estão empatadas, com três cada. Alexia venceu em 2021, 2022 e 2026; Aitana, em 2023, 2024 e 2025. São as maiores vencedoras do prêmio feminino.
Qual a idade dela? 32 anos. Nasceu em 4 de fevereiro de 1994, em Mollet del Vallès, na Catalunha.
Em que time joga? No London City Lionesses, da Inglaterra, desde julho de 2026. Contrato de três temporadas, segundo a imprensa.
Por que saiu do Barcelona? Para não terminar em queda. “No último ano a gente gastou muitíssima energia, mental e física, e chegou um momento em que pensei: não sei se vou ser capaz de voltar a ganhar tudo”, disse à revista do El País. Saiu depois de uma temporada em que o Barcelona ganhou os quatro títulos que disputou.
Quantos jogos e gols fez pelo Barcelona? 507 jogos e 232 gols em 14 temporadas no time principal. Os gols são recorde do clube.
Quantos jogos tem pela seleção da Espanha? 150. Chegou à marca em 14 de outubro de 2026, contra os Estados Unidos, e foi a primeira mulher do país a alcançá-la.
Qual a altura? 1,73 m, segundo o registro do Wikidata usado na ficha da GINGA36.
Vai jogar o Mundial de 2027, no Brasil? A Espanha está classificada desde junho de 2026, e Alexia diz que o Mundial é o próximo objetivo. A convocação final ainda não foi feita.
Perfil escrito a partir de entrevistas publicadas (revista do El País, Revista Barça, ¡Hola!, NIUS/Telecinco, ESPN, FIFPRO), de pronunciamentos públicos e de documentos de clubes e da UEFA. A GINGA36 não entrevistou a atleta.