A gente cresceu lendo revista. A matéria que começava na página 40 e durava o que precisava durar. A entrevista em que a pessoa falava até dizer uma coisa que não tinha planejado dizer. A crônica da última página, a ilustração que valia a banca sozinha. Tinha ritmo, tinha começo, meio e fim. E tinha tempo: o de quem apurou e o de quem leu.
De uns anos pra cá, quase tudo virou post. A pauta encolheu pra caber num quadrado, a apuração virou print, a opinião virou legenda de nove palavras. Tem gente boa fazendo coisa boa nesse formato, a gente inclusive. Mas o quadrado não comporta tudo. Tem assunto que precisa de três mil palavras pra ser honesto. Tem história que só aparece depois de um mês de apuração. Tem pergunta que não cabe em carrossel.
Então a gente fez uma revista.
A GINGA36 é o contrário do feed: uma reportagem grande por vez, apuração própria, fonte no nome, sem pressa. Coluna assinada por quem tem o que dizer. Tira de cartunista, com traço. Página de colaboradores, porque revista é feita por gente e gente tem nome. Página dupla no computador, formato próprio no celular, papel, preto e amarelo. E um calendário que não é nosso: em junho de 2027 a Copa do Mundo chega ao Brasil, e o assunto vira assunto do país.
Nesta edição, um caso que a Espanha ainda está digerindo. Em 8 de setembro, a Federação Espanhola assinou um convênio pra pagar o congelamento de óvulos das jogadoras da seleção. A melhor jogadora do mundo apoiou. Uma medalhista olímpica chamou de machismo. Um sindicato chamou de medida empresarial. Dava pra fechar em um post com "polêmica" no título.
“O quadrado não comporta tudo. Tem assunto que precisa de três mil palavras pra ser honesto. Tem história que só aparece depois de um mês de arquivo. Tem pergunta que não cabe em carrossel. Então a gente fez uma revista.”
A gente foi ler o que a medicina diz sobre isso, seguiu a mesma pergunta pelos Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão e China, e voltou pro Brasil, onde um levantamento contou quinze mães entre mais de quinhentas atletas da primeira divisão. A pergunta que fica no fim da matéria é simples, e ninguém combinou ainda a resposta: quem se adapta a quem, o corpo ao calendário ou o calendário ao corpo?
Também aqui, a Nara Alves estreia a coluna dela com o dia em que a Formiga apareceu numa pelada no Aterro. E a exposição Impróprias, no ar desde este mês, lembra que mulher joga bola desde 1628, e que a proibição, quando veio, veio por lei.
Regra da casa, dita logo de cara: toda afirmação tem fonte, toda foto tem crédito, toda opinião tem dona.
Abre, lê com calma, discorda se quiser. Foi feita pra isso.
Beijo e bola pra frente,
Carla Del Valle editora da GINGA36
Capa: Divulgação CAF