A volta por cima

O futebol feminino de 1970 a 1990. Sala 5 de 8 do museu Impróprias.

A reabertura veio por fora e por dentro ao mesmo tempo. Por fora, uma federação independente italiana organizou em julho de 1970 a primeira Copa do Mundo feminina não oficial, e em setembro de 1971 levou a final para o Estádio Azteca, na Cidade do México, diante de um público estimado em 110 mil pessoas, a maior audiência já reunida por um jogo de futebol feminino. Por dentro, a FIFA mandou circular às federações e a UEFA, reunida em Monte Carlo em 1971, determinou que todas as associações assumissem o futebol feminino. A Escócia foi a única a votar contra. A Football Association já havia rescindido a resolução de 1921 em 19 de janeiro de 1970, um ano antes do que quase toda cobertura repete. No Brasil a revogação veio em 21 de dezembro de 1979, mas a regulamentação de 1983 ainda proibia expressamente o profissionalismo feminino.

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A FA desfaz a proibição de 1921

19 de janeiro de 1970 · Londres, Inglaterra

Antigo Great Western Royal Hotel, em Paddington, fotografado em julho de 2006. Ali, em junho de 1971, a FA formalizou a mudança de regras que se seguiu à decisão de 1970.
Antigo Great Western Royal Hotel, em Paddington, fotografado em julho de 2006. Ali, em junho de 1971, a FA formalizou a mudança de regras que se seguiu à decisão de 1970.

O Comitê Executivo da Football Association recomendou em dezembro de 1969 reclassificar o futebol feminino como filiado, e o Conselho da entidade votou em 19 de janeiro de 1970 por rescindir a resolução de 1921, que fechava os campos às mulheres. A mudança nas regras só veio na Assembleia Geral de 24 de junho de 1971, quando os jogos femininos passaram a poder usar campos da FA e árbitros registrados. Por isso o fim da proibição tem duas datas em disputa: a maior parte da cobertura fixa 1971; os registros do Conselho apontam 1970.

Ressalva: Há uma discussão sobre a data do fim da proibição. A votação do Conselho da FA que rescindiu a resolução de 1921 é de 19 de janeiro de 1970; a mudança regulamentar que liberou campos e árbitros foi aprovada em 24 de junho de 1971, e é essa a data mais citada. O museu marca a decisão, em 1970, e registra as duas.

Fontes: The FA, Kicking Down Barriers

A primeira Copa do Mundo feminina, organizada por fora

6 a 15 de julho de 1970 · Itália

Susanne Augustesen, artilheira da Copa não oficial de 1970
Susanne Augustesen, destaque da Copa não oficial de 1970, em fotografia posterior de sua carreira. A imagem não é um registro daquele torneio.

Organizada pela FIEFF, uma federação independente que a FIFA não reconhecia, a primeira Copa do Mundo feminina foi disputada em sete cidades italianas com sete seleções: Dinamarca, Itália, Inglaterra, Alemanha Ocidental, México, Áustria e Suíça. A Dinamarca venceu a Itália por 2 a 0 na final, em Turim. O patrocínio era da Martini & Rossi, que bancava hospedagem e passagens de trem. Vinte e um anos antes da primeira Copa oficial da FIFA.

Fontes: Wikipedia, 1970 Women's World Cup · Wikipedia, FIEFF

A Alemanha libera, com uma lista de restrições

31 de outubro de 1970 · Travemünde, Alemanha

Equipe feminina do FC Viktoria Odenheim por volta de 1970, quando a DFB revogou sua proibição. Registro preservado na crônica do clube.
Equipe feminina do FC Viktoria Odenheim por volta de 1970, quando a DFB revogou sua proibição. Registro preservado na crônica do clube.

No congresso do DFB em Travemünde, a proibição alemã caiu, 15 anos depois. Mas veio com restrições que duraram até 1982: pausa obrigatória de inverno, proibição de travas de metal, bolas menores e mais leves, e partidas encurtadas para 70 minutos. No mesmo ano a França liberou em março, o País de Gales em 29 de maio e a Bélgica no fim do ano, também com restrições de bola e duração.

Fontes: ZDF heute · Fonte da imagem · Acervo FC Viktoria Odenheim 1910 e.V.

As pioneiras de 1971 foram multadas e banidas

1971 a 1973 · Europa

Programa do Mundial de 1971 e a medalha de Leah Caleb

Jogadoras que disputaram a Copa do México foram multadas ou banidas do futebol doméstico por terem participado de competição não sancionada. O técnico inglês Harry Batt recebeu banimento vitalício e sua liga foi excomungada. Uma Copa prevista para 1972 na Espanha foi cancelada sob pressão das autoridades espanholas, e em 1973 a UEFA decidiu boicotar as atividades da FIEFF. Elas jogaram diante de 110 mil pessoas e voltaram para casa punidas.

Fontes: Wikipedia, FIEFF · UEFA Academy, relatório de Jean Williams

A UEFA manda as federações assumirem, e a Escócia vota contra

1971 · Monte Carlo, Mônaco

Primeira reunião do comitê criado pela UEFA para estudar o futebol feminino, em 1971, no processo iniciado pelo Congresso de Monte Carlo.
Primeira reunião do comitê criado pela UEFA para estudar o futebol feminino, em 1971, no processo iniciado pelo Congresso de Monte Carlo.

No Congresso Extraordinário da UEFA em Monte Carlo, o vice-presidente Sandor Barcs relatou que o futebol feminino já era praticado em 22 países europeus, mas estava sob controle das federações nacionais em apenas 8. A UEFA acordou que todas as associações deveriam assumir o controle da participação feminina. A Scottish FA registra que a votação foi de 31 a 1, e que a Escócia foi o único país a votar contra. A ironia é difícil de superar: é o mesmo país onde as peixeiras de Fisherrow jogavam anualmente desde antes de 1795.

Fontes: UEFA Academy, relatório de Jean Williams · Scottish FA, 150 anos · Fonte da imagem · Arquivo UEFA

O Azteca lotado, e a maior plateia da história do esporte feminino

5 de setembro de 1971 · Estádio Azteca, Cidade do México

A seleção mexicana do Mundial de 1971

A segunda Copa do Mundo não oficial foi disputada no México entre 15 de agosto e 5 de setembro de 1971. Na final, no Estádio Azteca, a Dinamarca venceu o México por 3 a 0 diante de um público estimado em 110 mil pessoas, a maior audiência já reunida por um jogo de futebol feminino. Susanne Augustesen, atacante dinamarquesa de 15 anos, fez os três gols e foi homenageada pela prefeita de sua cidade natal. A federação dinamarquesa não reconheceu o título. O torneio ficou apagado da história oficial por cinquenta anos, até o documentário Copa 71.

Ressalva: As 110 mil pessoas são a estimativa da imprensa da época, feita sem bilheteria auditada. A FIFA não reconhece o torneio, organizado à revelia das federações.

Fontes: Wikipedia, 1971 Women's World Cup · Guinness World Records, sobre Copa 71

O Title IX, o maior motor do esporte feminino do século

23 de junho de 1972 · Estados Unidos

Patsy Mink, coautora do Title IX

Richard Nixon sancionou o Title IX das Education Amendments, que proíbe discriminação por sexo em qualquer programa educacional que receba verba federal. Como escolas e universidades são a base do esporte nos Estados Unidos, a lei virou o maior motor de crescimento do esporte feminino do século. Sem ela não existiria a seleção americana que venceria as Copas de 1991, 1999, 2015 e 2019.

Fontes: Women's Sports Foundation

Escócia 2 x 3 Inglaterra, 91 anos depois de Easter Road

Novembro de 1972 · Ravenscraig Park, Greenock, Escócia

A jogadora Rose Reilly com o uniforme do GBC Milan em 1976
Rose Reilly com a camisa do GBC Milan, em 1976. Escocesa da mesma geração que estreou a seleção da Escócia, ela teve de atravessar a fronteira para poder jogar.

Em 29 de fevereiro de 1972 a Football Association reconheceu formalmente a WFA. Em setembro formou-se a Scottish Women's Football Association, e em novembro a Escócia disputou seu primeiro internacional oficial contra a Inglaterra, capitaneada por Margaret McAulay Rae. A Inglaterra venceu por 3 a 2. Noventa e um anos depois do jogo de Easter Road que a imprensa de 1881 já havia chamado de internacional.

Fontes: The FA, Kicking Down Barriers · Scottish FA, 150 anos

Billie Jean King ganha a Batalha dos Sexos

20 de setembro de 1973 · Astrodome, Houston, Estados Unidos

Billie Jean King carregada à quadra do Astrodome

Billie Jean King, de 29 anos, venceu Bobby Riggs, ex-campeão de 55, em sets diretos diante de 30 mil pessoas no estádio, o maior público de tênis da história americana até então, e mais de 90 milhões de telespectadores no mundo. Riggs dizia publicamente que o tênis feminino era ruim. King, que naquele mesmo ano liderou a criação da WTA e a luta por premiação igual no US Open, disse depois que achava que o esporte feminino voltaria 50 anos se ela perdesse.

Fontes: Smithsonian, National Museum of American History

A CPI da Mulher pede a legalização

1977 · Brasília, Brasil

Retrato da nadadora Maria Lenk, que depôs na CPI da Mulher em 1977
Maria Lenk, a nadadora que a CPI da Mulher ouviu em 1977 no lugar das jogadoras que a proibição não deixou existir.

Comissão parlamentar mista requerida pelo senador Nelson Carneiro investigou a discriminação contra a mulher e recomendou a revogação das normas restritivas ao esporte feminino. É o antecedente institucional direto da mudança de 1979. E há um detalhe que diz tudo sobre o tamanho do estrago: a CPI não ouviu nenhuma jogadora de futebol, porque 36 anos de clandestinidade não haviam deixado nenhuma estrela nacional para convocar. Em lugar delas, a comissão ouviu a nadadora Maria Lenk, que apresentou o número: das pessoas registradas nas federações esportivas do país, só 6% eram mulheres. Lenk atribuiu isso diretamente ao veto ao futebol, porque é pelo esporte nacional que se formam os ídolos, e menina nenhuma tinha a quem imitar. No mesmo ano, o Brasil aprovou a Lei do Divórcio, em 26 de dezembro.

A mulher não se esteriliza e não perde as suas características femininas quando pratica esporte. Pelo contrário. Se não tem saúde, músculos trabalhados, resistência física, a mulher jamais será uma boa mãe.Maria Lenk, à CPI da Mulher, 1977

Fontes: Arquivo S do Senado, o futebol feminino já foi proibido e a CPI pediu a legalização

O ano em que tudo se moveu junto

1979 · Brasil e mundo

Eunice Michiles recebe flores no dia de sua posse no Senado, em 31 de maio de 1979.
Eunice Michiles recebe flores no dia de sua posse no Senado, em 31 de maio de 1979.

O ano em que caiu a proibição do futebol feminino no Brasil foi também o da estreia de Malu Mulher na Globo, em 24 de maio, com Regina Duarte no papel de uma mulher recém-divorciada tratando de aborto, maternidade e violência doméstica em TV aberta; da posse da primeira senadora do Brasil, Eunice Michiles, em 31 de maio; da Lei da Anistia, em 28 de agosto; e da adoção da CEDAW (Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres) pela ONU, em 18 de dezembro, que virou a constituição internacional das mulheres. Não é coincidência. É a mesma maré.

Fontes: Planalto, Lei da Anistia · ACNUDH, CEDAW · Senado, posse de Eunice Michiles

A revogação, com uma condição embutida

21 de dezembro de 1979 · Brasil

Fotografia colorida de 1983 com jogadoras do Esporte Clube Ypiranga entrando em campo na Fonte Nova, uma delas com a bola
Jogadoras do Esporte Clube Ypiranga na 1ª Copa Bahiana de Futebol Feminino, na Fonte Nova, em Salvador, em 1º de agosto de 1983, ano em que o futebol feminino voltou a ser regulamentado no Brasil.

A Deliberação nº 10 do Conselho Nacional de Desportos revogou expressamente a Deliberação 7/65. Mas a permissão ficou condicionada à oficialização pela entidade internacional competente, e a FIFA ainda era reticente quanto ao futebol feminino. Resultado: o futebol feminino saiu do papel da proibição e permaneceu de fato clandestino por mais três anos, até 1983.

Fontes: Revista Fulia, UFMG

Eurico Lira funda o Esporte Clube Radar

1982 · Rio de Janeiro, Brasil

Flâmula bordada do time Radar com a marca dos três títulos
A flâmula do Radar com os três títulos do time. O clube foi montado no começo dos anos 1980 pelo então presidente Eurico Lira e virou o centro do futebol de mulheres no Rio.

Eurico Lira dissolveu a seção de futebol de areia do Radar Sports Club, existente desde 1932, e fundou o time de futebol feminino no Rio. Entre 1983 e 1988 o Radar ganhou seis Taças Brasil e seis Campeonatos Cariocas, e na prática era a seleção brasileira: representou o país no Mundialito de 1986 e no torneio da FIFA de 1988, com Lira bancando despesas do próprio bolso. Ele morreu em 1997, após ser ferido num assalto no clube.

Fontes: Wikipedia, EC Radar

Marileia dos Santos, a Michael Jackson

Anos 1980 · Rio de Janeiro, Brasil

Retrato colorido de 1984: Marileia dos Santos, de frente, com a camisa vermelha e branca do Isis Pop, num campo em São Paulo com prédios ao fundo
Marileia dos Santos, jogadora do Isis Pop, em São Paulo, em 1984.

Marileia dos Santos nasceu em 19 de novembro de 1963 na zona rural de Valença, no interior do Rio, a caçula de onze irmãos, e começou a jogar no campo do Santa Inácia F.C. quando o futebol de mulheres ainda era proibido no país, uma proibição que a comunidade simplesmente ignorava. Em 1982, numa festa da padroeira da cidade, o Radar a convidou para uma semana de testes em Copacabana. O Radar era um time de praia que tinha montado uma equipe feminina no começo dos anos 1980 e virou o centro da retomada depois da liberação. Ela estreou marcando cinco gols. Com a regulamentação de 1983, Bandeirantes e Manchete passaram a transmitir os jogos do Radar, e o narrador Luciano do Valle, que via nela a cara do cantor que acabara de lançar Thriller, pediu para chamá-la de Michael Jackson. Nas transmissões, desafiava o público a adivinhar o nome verdadeiro da atacante. Foi o destaque do primeiro Campeonato Carioca e da primeira Taça Brasil, ganha pelo Radar por 5 a 0 sobre o Goiás em 1983, e repetiu o título carioca. Em 1984 também vestiu a camisa do Isis Pop, em São Paulo. A liberação não trouxe salário de verdade: mesmo no Radar, as jogadoras recebiam cerca de 60 mil cruzeiros, o equivalente, em valores de 2019, a dois salários mínimos. Segundo a própria, marcou 1.574 gols na carreira.

Fontes: Google Arts & Culture, Museu do Futebol · Fonte da imagem · Geraldo Magela / Agência Senado

Liberado jogar, proibido viver disso

25 de março de 1983 · Brasil

O time feminino do Esporte Clube Ypiranga em 1983

A Deliberação nº 01/83, publicada em 11 de abril, permitiu a prática no desporto comunitário, submetendo a modalidade às federações estaduais e à CBF. Mas o artigo 3º vedava expressamente o profissionalismo no futebol feminino. Essa trava é a raiz estrutural do atraso econômico que a modalidade ainda carrega, e é um dado pouco divulgado. Quarenta e quatro anos depois, a CBF passaria a exigir atletas profissionais na primeira divisão a partir de 2027.

É vedada, no futebol feminino, a prática do profissionalismo.Deliberação nº 01/83 do Conselho Nacional de Desportos, artigo 3º

Fontes: Revista Fulia, UFMG · Senado Federal, Arquivo S

Cinquenta mulheres largam na primeira maratona olímpica feminina

5 de agosto de 1984 · Los Angeles, Estados Unidos

Joan Benoit cruzando a linha de chegada de uma maratona em 1981, de regata e short de corrida
Joan Benoit em uma maratona de 1981, três anos antes de vencer a primeira maratona olímpica feminina.

Venceu a americana Joan Benoit, de 27 anos, em 2h24min52. Até aquele dia, a distância máxima permitida a uma mulher em Jogos Olímpicos era de 1.500 metros, herança da proibição dos 800 metros imposta em 1928. Benoit disse que a vitória era um triunfo do atletismo feminino, e que elas tinham provado que aguentavam as condições da maratona.

Fontes: World Athletics Heritage

A primeira Delegacia da Mulher do mundo é criada em São Paulo

6 de agosto de 1985 · São Paulo, Brasil

A fachada de uma delegacia de defesa da mulher em Campinas
Delegacia de Defesa da Mulher em Campinas, em fotografia de arquivo. A imagem ilustra a rede de atendimento, não a primeira unidade inaugurada em São Paulo em 1985.

O Decreto estadual paulista nº 23.769 criou a Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, a primeira delegacia especializada em atendimento a mulheres vítimas de violência do mundo, modelo depois copiado em toda a América Latina. Foi criada no primeiro ano do governo civil, 21 anos antes da Lei Maria da Penha.

Fontes: Assembleia Legislativa de São Paulo

Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações

1988 · Brasil

Ulysses Guimarães ergue a Constituição de 1988

A Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988 estabeleceu no artigo 5º, inciso I, a igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações. Também estendeu o voto aos analfabetos de ambos os sexos, garantiu licença-maternidade e reconheceu direitos das trabalhadoras rurais e domésticas. O resultado veio da pressão organizada das 26 deputadas constituintes, o chamado lobby do batom.

Fontes: Politize

O torneio-teste que criou a Copa do Mundo Feminina

1 a 12 de junho de 1988 · Província de Guangdong, China

Seleção Brasileira Feminina de 1988, que disputou o Torneio Experimental da FIFA na China.
Seleção Brasileira Feminina de 1988, que disputou o Torneio Experimental da FIFA na China.

Doze seleções disputaram em quatro cidades chinesas o torneio que a FIFA usou como estudo de viabilidade. A Noruega bateu a Suécia por 1 a 0 na final. O Brasil foi terceiro: perdeu para a Austrália, venceu a Noruega, goleou a Tailândia por 9 a 0, passou pela Holanda nas quartas, caiu na semifinal para as norueguesas e bateu a China nos pênaltis. A maioria do elenco era de jogadoras do Radar, como Elane e Michael Jackson, mais atletas de outros clubes, como Sissi, do Bahia, e Roseli, do Juventus-SP. Em retrospectiva sobre Roseli, a CBF apresenta a convocação de 1988 como a primeira Seleção Brasileira Feminina. A representação do país no Mundialito de 1986, registrada pela RSSSF, antecede esse marco institucional. Em 30 de junho de 1988 a FIFA aprovou a criação de uma Copa do Mundo Feminina oficial para 1991.

Fontes: Wikipedia, 1988 FIFA Women's Invitation Tournament · Ludopédio, memórias do Torneio Experimental · RSSSF Brasil, histórico da seleção desde 1986 · CBF, Roseli e a primeira convocação de 1988 · Fonte da imagem · Suzana Cavalheiro / Acervo Museu do Futebol

Copa 71 devolve à história um torneio apagado por cinquenta anos

1971 · Cidade do México

A seleção mexicana perfilada no Mundial não oficial de 1971
A seleção do México no Mundial não oficial de 1971, o torneio que o documentário Copa 71 devolveu à história cinquenta anos depois.

Dirigido por Rachel Ramsay e James Erskine, com produção executiva de Venus e Serena Williams e da jogadora Alex Morgan, o documentário estreou no Festival de Toronto em setembro de 2023 e nos cinemas em 8 de março de 2024. Resgata a Copa do Mundo Feminina não oficial de 1971 no México, apagada dos registros por cinco décadas. As jogadoras eram tratadas como estrelas no México e proibidas de jogar em seus próprios países.

Fontes: Euronews · Wikipedia, Copa 71

Léa Campos, a pioneira do apito

1971 · México

Recorte de jornal sobre a trajetória de Léa Campos como árbitra, preservado em sua coleção e apresentado pelo Museu do Futebol. O documento é posterior ao nascimento da pioneira, em 1944.
Recorte de jornal sobre a trajetória de Léa Campos como árbitra, preservado em sua coleção e apresentado pelo Museu do Futebol. O documento é posterior ao nascimento da pioneira, em 1944.

Em 1971, no II Campeonato Mundial de Futebol Feminino, no México, Léa Campos apitou a partida entre as donas da casa e a Itália. Para chegar lá, precisou da intervenção direta do presidente da República: aprovada no curso da Federação Mineira de Futebol, ela não tinha autorização nem da entidade nem do então presidente da CBD para atuar. Nascida em 1944, nos primeiros anos da proibição do futebol feminino no Brasil, entrou no jornalismo esportivo na década de 1960 de olho na arbitragem. De volta do México, apitou em vários estados e excursionou pela América Latina e pela Europa. Um acidente de carro em fevereiro de 1974 fraturou as duas pernas e encerrou a carreira de árbitra aos 29 anos. Não a impediu de seguir militando pelo futebol feminino, nem tirou dela o posto de primeira mulher árbitra de futebol.

Fontes: Museu do Futebol, Lea Campos, a primeira árbitra · Museu do Futebol, Google Arts & Culture

Elas de chuteira nas telas

1983 · Brasil

Cartaz do relançamento de Onda Nova (1983), em 2025. Material de divulgação da versão restaurada, publicado pela Cinemateca Capitólio.
Cartaz do relançamento de Onda Nova (1983), em 2025. Material de divulgação da versão restaurada, publicado pela Cinemateca Capitólio.

Os ares da liberação do futebol feminino no Brasil sopraram também no cinema. O filme Onda Nova, dirigido José Antonio Garcia e Ícaro Martins, conta a história do Gayvotas Futebol Clube, time fictício de mulheres às voltas com problemas pessoais e familiares, conservadorismo e questões de gênero. Estrelado por Carla Camurati, Tânia Alves e Regina Casé, com participação dos jogadores Casagrande, Wladimir e Pita, do narrador Osmar Santos e do cantor Caetano Veloso, Onda Nova foi censurado pelo regime militar logo após sua estreia na 7ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e só voltou aos cinemas 42 anos depois, em versão restaurada.

Fontes: CNN Brasil, Onda Nova · Wikipedia, Onda Nova · Fonte da imagem · Divulgação / Vitrine Filmes

A primeira Euro, decidida na lama e nos pênaltis

1984 · Kenilworth Road, Luton, Inglaterra

Arquibancada do Kenilworth Road, em Luton, com um jogo em andamento
O Kenilworth Road, do Luton Town, em 1980, quatro anos antes da final. A foto mostra o estádio, não a partida de 1984.

A primeira competição da UEFA para seleções femininas nem podia se chamar campeonato europeu: não tinha inscritos suficientes para o status oficial, e ganhou o nome burocrático de Competição Europeia de Futebol Feminino. Dezesseis seleções, dois anos de jogos, e uma final em ida e volta entre Suécia e Inglaterra. Na ida, em Gotemburgo, Pia Sundhage fez o único gol, diante de 5.662 pessoas, público recorde para o futebol feminino sueco. Na volta, em 27 de maio de 1984, choveu em Luton. Nenhum dos treze clubes de Londres aceitou ceder estádio; sobrou o Kenilworth Road, do Luton Town, e 2.565 pagantes num gramado de lama. Linda Curl empatou a série, Suécia e Inglaterra chegaram aos pênaltis, a goleira Elisabeth Leidinge defendeu uma cobrança inglesa, e coube a Sundhage o último chute. Converteu. A Suécia foi a primeira campeã europeia. A Inglaterra jogou sem o apoio da própria FA, que só filiaria a WFA naquele mesmo mês de maio, com status de federação de condado. Os jornalistas mais importantes estavam em Glasgow, no Escócia x Inglaterra masculino da véspera. "Se fossem os homens numa final europeia, estaria em todos os jornais do país", disse uma jogadora inglesa. Foi preciso esperar 41 anos para outra final da Euro ser decidida nos pênaltis.

Ressalva: As fontes divergem sobre a data da ida: a UEFA diz 21 de maio; a Wikipedia e o Women's Football Archive dizem 12 de maio. Mantemos 12 de maio, com a volta em 27 de maio, e o público da volta aparece como 2.565 ou 2.567.

Fontes: UEFA, 1984: Sweden take first title · UEFA, 1984: Pia Sundhage · Women's Football Archive, England 1-0 Sweden (3-4 pens), 27 May 1984 · Women's Football Archive, Sweden 1-0 England, 12 May 1984 · Wikipedia, 1984 European Competition for Women's Football final · The FA, Kicking Down Barriers

O Brasil já estava em campo em 1986

22 de julho de 1986 · Jesolo, Itália

O Radar, base da seleção, em recorte de jornal de 1986: a mesma excursão à Itália que levou o Brasil ao Mundialito de Jesolo.
O Radar, base da seleção, em recorte de jornal de 1986: a mesma excursão à Itália que levou o Brasil ao Mundialito de Jesolo.

Antes da primeira Copa do Mundo Feminina, brasileiras já representavam o país em competições internacionais. Em 1986, o Radar/Pão de Açúcar levou essa representação ao Mundialito de Jesolo, na Itália. A RSSSF, entidade dedicada à pesquisa estatística do futebol, registra a partida de 22 de julho, derrota por 2 a 1 para os Estados Unidos, como a primeira da Seleção Brasileira Feminina em seu histórico. Dois dias depois, o Brasil empatou por 1 a 1 com a China. Preservar esse capítulo permite distinguir a participação de 1986 da convocação para o torneio experimental da FIFA, em 1988, e da estreia em Copas do Mundo, em 1991.

Ressalva: Nota de apuração e independência editorial. A GINGA36 é uma publicação independente. A RSSSF registra partidas da Seleção desde 1986; em retrospectiva sobre Roseli, a CBF chama a convocação de 1988 de primeira Seleção Brasileira Feminina; 1991 marca a primeira Copa do Mundo Feminina da FIFA. Há diferentes critérios para definir o início dessa história. Explicitamos essa diferença, indicamos as fontes e revisamos o conteúdo diante de evidências verificáveis. A memória das pioneiras não se esgota em um único marco institucional.

Fontes: RSSSF Brasil, histórico da seleção desde 1986 · RSSSF, resultados do Mundialito de 1986 · Silvana Goellner, Lúcia Feitosa e o Radar, Ludopédio · CBF, Roseli e a primeira convocação de 1988 · TV Brasil, fotografia e especial com as pioneiras