O futebol feminino de 1894 a 1921. Sala 2 de 8 do museu Impróprias.
Entre 1894 e 1921 o futebol feminino teve o maior público da sua história, e depois foi desligado no auge. O British Ladies Football Club nasceu em Londres como projeto declaradamente político, com uma fundadora que dizia querer provar ao mundo que mulheres não eram criaturas ornamentais e inúteis. A Primeira Guerra colocou milhares de operárias nas fábricas de munição, e delas saíram os times que lotaram estádios ingleses: o Dick, Kerr Ladies estreou no Natal de 1917 diante de dez mil pessoas e, em 26 de dezembro de 1920, jogou em Goodison Park para cerca de 53 mil pagantes, com milhares barrados na rua. Só em 1921 o time fez 67 jogos vistos por perto de 900 mil pessoas. No Brasil, a evidência documental de mulheres jogando bola começa em 1915. Era o pico. Faltava um ano para a queda.
O clube foi criado por Alfred Hewitt Smith e por Nettie Honeyball, pseudônimo provável de Mary Hutson. Lady Florence Dixie, filha do Marquês de Queensberry, viajante, correspondente de guerra e escritora, aceitou a presidência e o financiamento com uma condição: que as moças entrassem no espírito do jogo de corpo e alma. O treinador era Bill Julian, meia-direita do Tottenham Hotspur.
Ressalva: Nettie Honeyball era pseudônimo. A identidade real por trás do nome nunca foi estabelecida.
O primeiro clube de futebol feminino da Grã-Bretanha nasce no fim de 1894 e escolhe para presidi-lo Lady Florence Dixie, filha do Marquês de Queensberry, o mesmo que deu nome às regras do boxe. Ela sustentava que o futebol fazia bem ao corpo da mulher e que o jogo era uma arma contra a roupa que a prendia: não dava para correr atrás de uma bola de espartilho e saia até o chão, e era exatamente esse o ponto. Exigiu que as jogadoras entrassem em campo de corpo e alma, e não como atração de circo. Previu que um dia o futebol seria tão popular entre meninas quanto entre meninos, o que em 1894 soava absurdo. Em 23 de março de 1895, no Alexandra Park, em Crouch End, o time do Norte venceu o do Sul por 7 a 1 diante de cerca de 10 mil pessoas.
Emma Clarke, a primeira futebolista negra conhecida da Grã-Bretanha
1895 · Londres e Escócia
Nascida em 1876 em Bootle, Lancashire, Emma Clarke jogou pelo time do Sul naquele 23 de março de 1895 e aparece na foto oficial do clube. Em 1896 integrou o Mrs Graham's XI em turnê pela Escócia, recebendo cerca de um xelim por semana mais despesas. Por décadas sua história foi confundida com a da goleira Carrie Boustead, que pesquisa posterior confirmou ser branca. Foi o pesquisador Stuart Gibbs quem desfez a confusão, ao reexaminar uma foto da turnê escocesa.
O manifesto: mulheres não são criaturas ornamentais e inúteis
Fevereiro de 1895 · Londres, Inglaterra
Em entrevista à imprensa londrina, Nettie Honeyball explicou por que havia fundado o clube, e foi muito além do esporte. Disse aguardar o tempo em que as mulheres poderiam ocupar assento no Parlamento e ter voz na condução dos assuntos públicos. O clube nasceu explicitamente como projeto político, e é por isso que a reação contra ele foi tão dura.
Fundei a associação no fim do ano passado, com a resolução firme de provar ao mundo que as mulheres não são as criaturas ornamentais e inúteis que os homens pintaram.Nettie Honeyball, 1895
23 de março de 1895 · Alexandra Park, Crouch End, Londres
O primeiro jogo do British Ladies reuniu entre 10 e 11 mil espectadores no norte de Londres. O Norte, de vermelho, venceu o Sul por 7 a 1. As jogadoras entraram de blusas largas, calções pretos, botas de couro marrom e caneleiras, inspiradas no movimento Rational Dress, sem espartilho e sem salto. Ainda assim jogavam de boné, e a partida parava se uma cabeçada deslocasse o boné ou um grampo de cabelo.
Os Jogos de Paris de 1900 foram os primeiros a admitir mulheres. Elas foram 2,2% dos participantes. A tenista britânica Charlotte Cooper tornou-se uma das primeiras campeãs olímpicas. Da chegada delas até a paridade de vagas entre homens e mulheres, nos Jogos de Paris de 2024, passariam-se 124 anos.
O Spanish Girl's Club e o time que a guerra dissolveu
9 de junho de 1914 · Barcelona, Espanha
Criado em Barcelona com fim beneficente, para levantar fundos contra a tuberculose, o Spanish Girl's Club foi organizado e treinado por Paco Brú, ex-jogador, árbitro e treinador que passara por Barcelona, Espanyol e seleção espanhola, em apenas 45 dias de preparação. O primeiro jogo foi no campo do Espanyol, entre as duas divisões internas do clube, Montserrat de branco contra Giralda de vermelho. O último foi em 29 de junho de 1914, um dia depois do assassinato do arquiduque Francisco Fernando. A turnê prevista foi cancelada e o clube desapareceu com a guerra.
Capa de Futebol Feminino no Brasil, entre festas, circos e subúrbios, uma história social de 1915 a 1941, da historiadora Aira F. Bonfim, curadora do Museu do Futebol.
A primeira evidência documental de brasileiras jogando bola é de 1915, numa festa esportiva do Villa Izabel Football Club, no Rio de Janeiro. A partida aconteceu no campo do zoológico, em Vila Isabel, e foi disputada pelas próprias associadas do clube. Era ambiente de festa, com circo, comida, baile e gincanas, completamente fora do calendário das ligas: adolescentes desciam da arquibancada para experimentar o jogo, às vezes entre elas, às vezes contra os meninos. Quem fixou essa data foi a historiadora Aira Bonfim, curadora do Museu do Futebol, que reuniu pelo menos 400 fontes primárias entre 1915 e 1941, com nomes de jogadoras, posições, análises de partida, fotografias e entrevistas delas. O livro que saiu dessa pesquisa organiza o período em três circuitos: as festas dos clubes, as companhias de circo e o subúrbio carioca. Vale registrar o que a pesquisa também desmontou: o jogo de 1913, por muito tempo citado como o primeiro do país, tinha homens travestidos em campo.
O filme Vickers Vanguards mostra por dentro as fábricas da Vickers em 1917: a montagem de espoletas para obuses de 18 libras, o torneamento de cartuchos, o corpo das granadas saindo do metal. Quem opera as máquinas, em sua maioria, são mulheres. É esse o chão que produziu o futebol feminino inglês do período. As munitionettes jogavam entre turnos, nos pátios das próprias fábricas, e os times saíram dali para os estádios: o Dick, Kerr Ladies nasceu numa fábrica de material de guerra em Preston, e o Blyth Spartans de Bella Reay era do mesmo mundo. A guerra tirou os homens do campo e da fábrica ao mesmo tempo, e as mulheres ocuparam os dois.
Recusadas pelas federações, as francesas criam a sua
1917 · Paris, França
Como as federações masculinas recusavam filiação a clubes femininos, mulheres francesas criaram em 1917 a sua própria estrutura, a Fédération des Sociétés Féminines Sportives de France. Alice Milliat se tornaria sua figura central e a maior articuladora do esporte feminino europeu do período. O primeiro campeonato francês, em 1919, teve apenas dois clubes, o Fémina Sport e o En Avant.
Agosto de 1917 · Blyth, Northumberland, Inglaterra
Formado por trabalhadoras das docas e das fábricas de munição, o Blyth Spartans Ladies teve como craque Bella Reay, filha de mineiro e operária de munição, nascida em 23 de agosto de 1900. Na temporada de 1917 e 1918 o time fez 30 jogos, com 26 vitórias e 4 empates, e Reay marcou 133 gols. Delas saiu também a primeira competição feminina organizada de que se tem notícia, a Munitionettes' Cup, disputada entre setembro de 1917 e maio de 1918.
O Dick, Kerr Ladies estreia no Natal, para 10 mil pessoas
25 de dezembro de 1917 · Deepdale, Preston, Inglaterra
O time se formou na fábrica Dick, Kerr & Co. de Preston, em Lancashire, que produzia material bélico. A primeira partida registrada foi no Natal de 1917, em Deepdale: 4 a 0 sobre o Arundel Coulthard Factory diante de 10 mil pessoas. As jogadoras recebiam 10 xelins por jogo, a título de despesas. A tradição da fábrica atribui a ideia a Grace Sibbert, operária cujo marido estava preso na Alemanha, e o escriturário Alfred Frankland assumiu a organização. Nos 48 anos de existência o clube arrecadaria cerca de 180 mil libras para caridade, mais de 10 milhões em valores atuais.
Nascida em 26 de abril de 1905 em St Helens, Lily Parr chegou ao Dick, Kerr aos 14 anos, vinda do St Helens Ladies, e ficou no clube até 1951. Ponta-esquerda de chute lendário, viveu com sua companheira Mary em Goosnargh e morreu em 1978. Em 2002 tornou-se a única mulher entre os indutores inaugurais do English Football Hall of Fame e, em junho de 2019, a primeira futebolista mulher a ganhar uma estátua, no National Football Museum.
Ressalva: Os gols de Lily Parr são contados por estimativa: as somas vão de 967 a 986 na carreira, porque a maior parte daqueles jogos não tinha súmula oficial.
Inglaterra x França, os primeiros internacionais modernos
Abril de 1920 · Preston, Stockport, Manchester e Londres
A disputa no barro: jogadoras de listras e de camisa lisa correm atrás da bola num campo encharcado, na série de internacionais do começo dos anos 1920.
O Dick, Kerr Ladies recebeu uma seleção francesa montada em torno de clubes parisienses e liderada por Alice Milliat. A primeira partida, em 30 de abril de 1920, em Deepdale, diante de cerca de 25 mil pessoas, é geralmente creditada como o primeiro internacional feminino moderno. A série seguiu por Stockport, Manchester e Stamford Bridge, em Londres, onde a França venceu por 2 a 1. Na volta, em outubro e novembro, o time inglês percorreu a França e reuniu, por números do próprio clube, mais de 62 mil espectadores em quatro jogos.
As capitãs dos times inglês e francês se cumprimentam antes do apito, em 1920.
As duas capitãs se encontram no meio do campo antes do apito inicial, com a bola no chão entre elas. Uma veste a camisa lisa, a outra a listrada, as duas de boina, meião e chuteira de couro. A fotografia é de 1920, o ano em que o Dick, Kerr Ladies recebeu a seleção francesa de Alice Milliat e o futebol de mulheres teve os seus primeiros internacionais modernos. O gesto não era protocolo de federação, porque federação nenhuma reconhecia aqueles jogos: era protocolo delas. Enquanto a Football Association preparava o argumento de que o futebol era inadequado ao corpo feminino, elas já tinham cerimônia, uniforme, capitã, calendário e público de dezenas de milhares. Um ano e meio depois deste aperto de mão a FA fecharia os campos ingleses, e o gesto viraria contravenção.
53 mil em Goodison Park, e milhares barrados na rua
26 de dezembro de 1920 · Goodison Park, Liverpool
No Boxing Day de 1920, o Dick, Kerr Ladies venceu o St Helens Ladies por 4 a 0 diante de cerca de 53 mil espectadores, com estimativas de 10 a 14 mil pessoas barradas do lado de fora. A renda, 3.115 libras da época, foi para o fundo de assistência a ex-combatentes desempregados. O recorde de público de um jogo de clubes femininos na Inglaterra duraria 98 anos. Onze meses depois, a Football Association usaria justamente o argumento financeiro para banir o jogo.
Ressalva: Não havia bilheteria auditada em 1920. O National Football Museum registra pelo menos 46 mil pessoas dentro do estádio; o Lancashire Evening Post da época falou em 53 mil, número que se firmou nos registros do clube.
Só em 1921 o Dick, Kerr Ladies fez 67 partidas, vistas por cerca de 900 mil pessoas, pelos registros do próprio clube. Era o momento de maior alcance popular que o futebol feminino teria por meio século. É importante fixar esse número antes de ler o marco seguinte: a Football Association não desligou um esporte fracassado. Desligou um esporte que estava crescendo rápido demais.
Tremembé x Cantareira, o registro mais consolidado do Brasil
1921 · Zona norte de São Paulo
Anúncio de Tremembé x Cantareira publicado em A Gazeta em 26 de junho de 1921, página 2. Fac-símile reproduzido em pesquisa do Repositório UNESP.
Partida entre senhoritas dos bairros de Tremembé e Cantareira, no campo do Tremembé F.C., na zona norte de São Paulo. É o registro mais consolidado do futebol feminino brasileiro. O jornal A Gazeta cobriu o jogo, mas o enquadrou como atração curiosa e cômica das festas juninas, não como esporte. Esse enquadramento, o do futebol feminino como espetáculo e não como competição, é o que a modalidade levaria décadas para se livrar.